Julieta e Nosferatu à parte, tendo a concordar com o Pedro. E, de facto, gosto disto. Mas se há tela que em rapaz me atazanava o espírito era esta. Mal sabia o meu pai, que naquele Sábado me levava pela mão, que começava ali, às Janelas Verdes, a minha primeira querela com Deus.
Arquivo | Outubro de 2009
Esta notícia (sob a forma de um discreto comentário) sobre a morte da Julieta dos Espíritos é francamente exagerada. Dirás, com muito mais sapiência do que eu, que é um Fellini menor. Mas o que queres tu, meu caro Pedro? É mesmo desta Julieta assombrosa e kitsch que eu gosto. Muito sixties, é certo. A coisa «soa» a LSD por todos os lados e a banda sonora de Nino Rota é deliciosamente datada. Chamas-lhe patchwork. Eu acho-o comoventemente alucinogénico. O que seria do amarelo se todos gostássemos do mesmo?
1–11 Giulietta degli spiriti (Mi bas
Haverá tela portuguesa mais bela e misteriosa do que esta? Eis o Homem.
Há quase três meses, a pensar que a morte era uma injustiça, escrevi assim:
O Raul Solnado tem um humor muito gentil. Há cómicos que nunca riem, como Buster Keaton. Há cómicos que dançam velozes: “o filho da puta é um bailarino”, diziam de Chaplin. Hoje há cómicos muito políticos, há cómicos ressentidos, há cómicos de pura irrisão. O segredo, a diferença de Raul Solnado é a doçura. A subtileza também. Fala devagar, às vezes com um principio de selecta gaguez. Fica-se a pensar, por um segundo, que ele ainda não acabou e é quando, como uma coisa luminosa, o riso nos apanha irradiante. Estão a ver quando sufocamos e, de repente, voltamos, que bom, a ter ar? É assim, esse sopro, o humor do Raul Solnado.
O Raul mora no meu bairro e acha, como eu, que a tasca da ressano garcia tem os melhores caracóis de Lisboa. Gostamos de os acompanhar a imperiais. Sorte minha, amigos comuns improvisaram uma tertúlia a que ele nos dá a honra de presidir. Temos jantado semana sim, semana não. Da última vez, profissionais muito dinâmicos, estávamos todos agarrados ao telemóvel, viva voz e sms, todos numa azáfama que a voz baixinha e humilde do Raul suspendeu quando disse devagarinho: “Olha” – e olhámos todos – “vocês desculpem eu não ter trazido também o telemóvel!”. Ficámos suspensos um segundo e a inteligência fulminante da observação desatou-nos o riso mais genuíno e meteu-nos os telemóveis nos bolsos. Consciente de que também nos tinha metido a todos no bolso, julgo ter-lhe visto um brilho ainda mais inocente e feliz nos olhos e a mão pequena e bonita a pousar na mesa, quieta.
O Raul escolheu, hoje, a um sábado, mudar de bairro. E dizem-me que agora, lamenta, mas não virá tão depressa jantar. Cada vez gosto menos de morar neste bairro.
Três meses passaram e descubro, como quase sempre, que me enganei. Os mesmo maduros, orfãos de jantares, reencontraram-se e, quando menos esperavam, já o tinham à perna. O Raul voltou para jantar. Senta-se connosco à mesa, não prescinde do lugar dele, sempre o mesmo, costas voltadas para a porta — “a corrente de ar, agora, não me faz grande diferença”, diz — bebe o mesmo tinto que bebia, zanga-se, sorri e recusa-se a desafazer velhos equívocos. Já ouviu das boas e, imperturbável, fez questão em salientar “falem à vontade, só mudei numa coisa: acho agora que um homem só tem uma cara, a cara com que morreu. Façam o favor de morrer se querem mesmo ser felizes”.
Quando estava no Geração de 60 - também estavam os agora gente morta Pedro N, Vasco e Pedro MS, e gostei muito - os posts mais certos (mais do que certos) que lá se publicavam eram os do Jorge Buescu que é, entre as muitas coisas talentosas que é, um cruel e temível matemático. Não me lembrei, nunca me lembrei, de lhe ler um poema, quase haiku, do imortal Jorge de Sena — mando-lho agora para saber se o Jorge dá científico aval a esta inocente matemática seniana:
No pórtico da casa, entre os lilases,
o par de namorados brincava de apertar-se as mãos
e de contar os dedos.
Havia sempre um dedo a mais.
ps- E não me esqueço das magníficas incursões teológico-filosóficas do Gonçalo Pistacchini Moita. Gostava, o meu antigo e acolhedor blog que me desculpe, de os ter, já bem mortos, aqui.
Parece que agora até lhe chamam Noite das Bruxas cá no nosso burgo onde a pirataria reina. Antes da mais descarada violação de um património que não é nosso, Halloween só existia entre nós desde finais de 70. E existia como filme, esse sim património da humanidade com toda a legitimidade. E a verdade é que, para este vosso amigo que tem bem entranhado na pele o terror então experimentado, Halloween há só um. O do Carpenter e mais nenhum (eu sei que houve sequelas mas vamos lá reduzir isto ao “the first movie”). Depois de Psycho ter mudado a face do cinema de terror, Halloween é ainda, trinta anos depois da sua estreia, e talvez a par de Shining, o paradigma do género. E, ao contrário de outros colegas que passaram a carreira a copiar Hitchcock (sim, Mr. De Palma), Carpenter conseguiu fugir ao pastiche sem trair a herança do mestre.
Eu sei que os tempos foram mudando, que o psicopata da máscara Michael Myers foi glosado e reinterpretado até ao enjoo, que a cândida Jamie Lee Curtis (ela própria uma emanação de Psycho, onde a sua mãe Janet Leigh era a vítima do chuveiro) se transformou num sex-symbol (com toda a justiça, diga-se), e que o cinema de terror está outra vez longe da nobreza de outros géneros (ou serei eu que estou enganado por não frequentar o Fantasporto?). Mas ninguém me tira o arrepio que ainda sinto quando ouço o som (composto pelo próprio Carpenter) que aqui vos deixo. Se alguém duvida do efeito pavloviano que a música pode ter, este é seguramente o melhor exemplo em sentido contrário.
Em homenagem ao genuíno Halloween de Carpenter, o único que também é nosso, façam o favor de ter medo. E façam o favor, já agora, de começar a caça às bruxas. A caça às bruxas falsas, que são todas as que vão andar perto de si este fim-de-semana. Dêem-lhes com o Carpenter na cabeça.
Venho por este meio lamentar uma inexactidão técnica cometida por MSFonseca em texto abaixo postado. O autor da ópera que refere, “Don Giovanni”, não é gente morta porque teria de ser humano e terrestre (é aquele problemazito da oxidação e dos radicais livres) para dar de finados (puff). Acontece que o senhor em questão passou por cá em visita de estudo, de Cassiopeia, tomando Andromeda quem vira na segunda à esquerda pela Floresta Negra. Em passeios de gente que está, de facto, sete palmos abaixo de terra, sugiro uma espreitadela aural à Winterreise schubertiana. Rastlose Liebe, mais propriamente, por Kiri te Kanawa.

Prefiro os Fellinis mais docemente melancólicos, aquele desconsolo à beira-mar, sem o peso e o azedume da maturidade, quando as criancices são, ainda, uma hipótese de vida: “I Vitelloni” (Sordi antes da sordidez), “Amarcord” (Gradisca e os cinemas de letras tombadas), “Casanova” (F.F. percebeu que Giacomo era, antes de mais, uma criança grande, e deu-lhe uma boneca mecânica para brincar…, saída dos irmãos Grimm e do kinetoscópio).
O Fellini de traço infantil — mesmo com as mulheres, sobretudo com as mulheres — é o Fellini mais mercurial e, por isso, o mais genuíno.
O quadro é do fim do século XV e está no Museu Regional de Messina. Coisa siciliana.
O autor é desconhecido. Provavelmente um mestre flamengo. Talvez seja o Mestre da Lenda de Santa Lucia, assim chamado por ter pintado um episódio da vida da santa numa igreja de Bruges. Autor também de um belíssimo “Maria, Rainha dos Céus”. E foi o que consegui saber dele, deste modesto e inominável holandês.
Esta “Pietà i Simboli della Passione” é um assombro. Dois em um. É Pietà ou é Crucificação? O “Maestro” num quadro pintou dois. De baixo para cima, de cima para baixo. Um, tradicional, o de baixo, gratificando sem sobressalto as nossas expectativas com uma Pietà que cumpre as regras: pintura agónica, austera, piedosa.
Mas se os olhos subirem de repente, em cima passamos a outra pasmosa dimensão. O Mestre, o lendário mestre, desafia-nos para uma estética de colagem: pairam no ar rostos recortados, mãos implausíveis, objectos de tortura. Pode ser que tudo, caveira incluída, faça parte de uma narrativa ainda escolástica mas, vista hoje, esta pintura confunde (mais do que os delírios de Bosch) tempos e códigos, antecipando surrealismos e imagéticas pop.
Que tormentos teológicos, que inconfessáveis devassidões simbólicas terão passado pela cabeça e gloriosa mão do Mestre da Lenda de Santa Lucia?
Lembrei-me, agora que se cumpre um mês de vida do É Tudo Gente Morta, que um dos nossos propósitos era recuperar a memória de ilustres e às vezes esquecidíssimos mortos. Como este Mestre Sem Nome que não seja o da Lenda De Uma Santa que o não deixa morrer. Como este Mestre que nos abre os olhos para os olhos com que, entre piedade e paixão, aqui ele mesmo nos olha.
ps-publicado aqui há um século e meio.
Quase tudo na bloga é perdoável. Efémero e perdoável. Mas que a cristianíssima e pagã Eugénia, que agora fez declaração de ser exclusivamente Gente Morta (até de hecatombe algum bem pode vir ao mundo), tenha decidido, num gesto de claro abuso de posição dominante, fechar ao mesmo tempo duas lojas (nenhuma era de aventalinho), foi mesmo coisa de bad, bad girl. Devia haver uma lei que não deixasse fechar o Mátria e o Samarcanda. E devia haver alguém, uma CMVM da bloga, que pusesse a autora na ordem, que isto não é, não julgue lá ela, a Trans-República do Vasco.

A Teresa tratou tão bem o nosso Querido Morto desta semana! Ouviu música com ele, pô-lo na cozinha a preparar um bacalhau ao vapor e quase o apresentava aos sobrinhos. Não é caso para menos, por que ao pé dele não queremos menos, nem outra coisa que não seja sermos felizes. Está aqui ao lado, em letras garrafais, nos Queridos Mortos, a história de um homem em pé, no palco, o Raul Solnado. Um dia, amanhã talvez, também conto uma história com ele. Com um pratinho de caracóis a acaompanhar. Façam agora o favor de ir ler a Teresa e ouvir o Raul.
OUTRA VEZ, MAMÃ!
Em criança o vinil de 45 rotações nunca riscou apesar das repetições diárias lá em casa. Está lá, é do Inimigo? Os textos eram do galego Miguel Gila, a adaptação de Raul tornou-os intimamente nacionais, tão decorados que pareciam ser de quem os repetia.
E tão frescos que pareciam sempre saídos do forno quando por ele ditos.
O SENHOR DA GUERRA
Nunca pensei conhecê-lo pessoalmente: achava que já o conhecia, de tão presente nos risos da família. Quando conheci, soube que o Raul guardava recordações carinhosas dessas gravações antigas: “Estávamos no início da guerra de África”, lembrou, “as coisas quando estão dentro da circunstância são potenciadas”.
O Solnado que ía para a guerra “serviu de escape, serviu aos militares que lá estiveram: fui várias vezes lá e eles diziam as frases que eu dizia: qual é a tua guerra?, vou para a minha guerra. E quando havia uma explosão diziam: não batam com as portas! Foi uma descompressão que eles tiveram” E ria a contar.
E percebi porque é que ele era o herói do meu pai.
A HISTÓRIA DE UM CURIOSO
Às vezes parecia que não tinha paciência para essas caixas do passado, queria fazer coisas sem pensar nos caixotes que tinha lá para trás.
Queria sempre mais: “Alimentar a curiosidade é que nos faz interessantes”.
Quando o conheci, nos seus tenros 74 anos, estava em digressão pelo país. Só ele e um ecrã de fotografias e uma sala cheia de risos. Um homem sozinho em pé punha toda a plateia refém dele.
E gostava do palco, como de pôr outros a crescer em palco. Como quando deu aulas de teatro a amadores na Guilherme Cossoul — a sociedade que “lhe desenhou o destino” desde cedo. Aprendeu teatro ali a ver os outros; dizia que ensinar é fazer crescer.
E aprender é não parar: aos 79 anos lá estava ele na rodagem de um filme de João Nuno Pinto, final de 2008. E gostava muito da sua personagem de falsificador de passaportes em “América” (é mais uma caixa de surpresas que deixou por estrear).
NA COZINHA
E depois tenho aquela história de uma manhã a cortar cebolas.
Precisava de filmar uma receita e o Raul prontificou-se a cozinhar-me um dos pratos preferidos: bacalhau ao vapor. Uma delícia temperada com Bach e Chopin, Eça de Queirós e histórias de outros tempos.
Eu a chorar copiosamente em luta com as rodelas fininhas, ele muito sério a cortar batatas: “O que eu queria mesmo era emocioná-la. Afinal bastavam as cebolas”.
OUTRA VEZ, TITI!
Agora, quando ouço a Guerra de 1908, eu é que parei no tempo. Apesar dos risos gravados, ele conta a história só para mim.
Os meus sobrinhos dizem “outra vez, titi”, com o cd na mão, e arrependo-me de os ter mandado brincar para o parque naquela tarde de filmagens na cozinha lá de casa.
Nunca conheceram de perto O Senhor da Guerra, mas sei que nunca irão esquecê-lo.






















