João Bénard da Costa
Queridos Mortos

João Bénard da Costa não era meu amigo. Pelo menos não o era no sentido convencional em que costumamos usar e abusar da palavra amizade. Tínhamos idades muito diferentes, amigos diferentes, hábitos e experiências profissionais diferentes. Tínhamos até experiências políticas e religiões diferentes. Não nos vimos muitas vezes na vida, falámos poucas mais e sobretudo não me atrevo a invocar nenhum tipo de intimidade que, na verdade, nunca tivemos. E no entanto…

E no entanto poucas pessoas me tocaram mais na vida. Poucas souberam comover-me mais. À distância, já se vê. Mas à distância só aparentemente distante de uma crónica de jornal. À distância microscópica de uma folha da Cinemateca, à distância risível de um catálogo, à distância inorgânica da programação de um ciclo. Por tudo isso, devo-lhe mais do que seria possível exprimir por palavras. Devo-lhe, imagine-se, memórias que não são minhas. Devo-lhe verões encantados que nunca passei na Arrábida. Devo-lhe a nostalgia mágica das matines dos anos 50. Devo-lhe viagens que nunca fiz a Itália. Devo-lhe paixões por divas que só conheci já depois de mortas. Devo-lhe uma escrita como não conheci outra. E devo-lhe sobretudo o cinema. Todo o cinema da minha vida. Da que já passou e da que está para vir. E «como era belo» o cinema que me deu João Bénard: Ford, Renoir, Mizoguchi, Ophuls, Dreyer, Capra, Lubitsch, Lang, Murnau… Como é que se agradece uma dádiva destas?

Só um louco o faria. E não é que por um acaso do destino — ele seguramente chamar-lhe-ia um milagre — enchi-me de coragem e um belo dia ousei fazê-lo? Temerário, confessei-lhe o que me ia na alma. Logo eu, que não sou dado a públicos sentimentalismos. Não o fiz, bem entendido, porque lhe quisesse pedir uma réplica. Mas porque a vida já então me tinha dolorosamente ensinado que há palavras (lá estou eu outra vez, ironia das ironias, a falar no milagre de Dreyer) que não podem deixar de ser ditas. Mesmo que aparentemente não sirvam para coisa nenhuma. Porque já então sabia que é o preço do silêncio que um homem não consegue carregar para sempre.

E tal como no filme de Capra, faltavam poucos dias para o Natal e do céu caiu-me uma estrela. Vinha sob a forma de carta. Uma letra miudinha e muito amarrotada. «Há mais de sete meses que, todos os dias, penso em escrever-lhe. Eu sou assim.». Aquela carta de um «desconhecido» foi a mais comovente que alguma vez recebi. E marcou, ouso afinal de contas dizê-lo, o princípio de uma bela amizade. Feita de papel de carta, de bilhetes e de livros trocados, de dedicatórias singelas, da simplicidade de um único almoço «perdido» a partilhar uma paixão comum.

Bem vistas as coisas, João Bénard da Costa foi o maior amigo que eu não cheguei a ter. Mas que continuará a estar sentado ao meu lado de cada vez que eu voltar ao cinema. Todos os dias da minha vida.

Pedro Norton

(publicado na Visão em Maio de 2009)

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