Meus caros amigos, nesta primeira de muitas visistas recomendo a leitura de um magnifico livro sobre obituários — tema que, acredito, lhes poderá interessar — e que se chama “The Dead Beat: Lost Souls, Lucky Stiffs, and the Perverse Pleasures of Obituaries”. A autora é Marilyn Johnson. Abraços, JP
DOS MEUS ENCONTROS E DESENCONTROS
Sei da minha urgência em amar e sentir-me amada.E perdendo-me em reflexões acerca desta urgência penso mesmo na morte. Desde a minha concepção, ela se fez presente algumas vezes, me sorriu e foi embora. Sempre de forma sutil e amável.
Gostaria de perguntar à ela o propósito de vir visitar-me tantas vezes e manter-me aqui. Na primeira vez eu estava ainda no útero da minha mãe.O meu mundo parou com o choque sofrido pela minha mãe com a morte da minha avó. Quase que morremos todas.
No momento do meu nascimento novamente tudo parou. É verdade, quando a face da morte sorri prá vc, vc pára de existir.O coração pára de bater e o mundo exterior fica bem distante, inaudível, quase uma outra realidade.
Já ia me esquecendo dela quando, aos 17 anos, sofri um acidente de automóvel e mais uma vez ela se fez presente. Desta vez desmaiei e quando acordei vi a minha amiga já distante. Mas mesmo assim meu mundo parou. Eu não ouvia coisa alguma e as imagens eram confusas.Ela acenou-me e partiu.
Nosso último encontro foi há uns dois anos, durante um assalto violento.E apesar de fazer-se presente, desta vez, ela me acalmou. Sua visita foi rápida, meu coração parou e quando vi, lá estava ela. Novamente me sorriu e foi embora. E eu muito mais tranqüila pude enfrentar a situação.Foi o que me permitiu dialogar com a calma que o momento exigia.
Acredito que a morte esteja me testando e é com amor que tenho dialogado com ela.E espero que este diálogo se prolongue por muitos e muitos anos…
(Carla Lopes)
Desenterremos os mortos se queremos cuidar dos vivos. "É Tudo Gente Morta" é um blogue. A vaga ideia que inspira o título é a celebração das pessoas a quem muito devemos, mais nos deslumbraram e, peganhentos, amamos ou amámos (passe a cacofonia). Com raras e conspícuas excepções é tudo gente que já morreu.
O "É Tudo Gente Morta" quer-se hedonista: preferimos ser hagiográficos a críticos.
Pode, numa linha anti-Tratactus, falar-se de tudo: aquilo de que não se pode falar não tem, Mr. Wittgenstein, de ficar em silêncio. Pode fotografar-se. Ou desenhar-se. Tudo com destemperada elegância e liberdade de espírito.
Cabem no blogue derivas (ai Lyotard, Lyotard) que vão de gostos musicais até dramas futebolísticos, passando por religião, sexo, pintura, literatura, antropologia, política, economia, matemática, ciência, filosofia, trivialidades. Dissemos sexo? Dissemos! Mas queríamos dizer amor.
O blogue é nómada. Assente no triângulo Lisboa, Cascais, reyno dos Algarves, abriu também delegação nos USA, doce Itália, e Brasil dos nossos sonhos. Temos o confesso desejo de futura lança em África. Prometemos ainda transumância zen de Macau ao Cambodja, Hong Kong ao Vietnam.
É evidente, caramba, que escreveremos, em cândido assassinato que seja, sobre a actualidade e sobre os mais vivos dos criadores vivos.
Caros leitores, escrevam também: os comentários são livres e bem vindos. A título de disclaimer: serão apagados os que constituam ofensa ad hominem gratuita e abusiva.
Memento mori.
Instruções
Semanalmente, um querido morto é destacado. Os anteriores homenageados estão no nosso Cemitério, acessível com um simples clique no título "Queridos Mortos"
O nosso arquivo, é um rol de títulos. Achamos que fica bonito assim. Talvez pouco prático, mas bonito. Pode sempre consultar a lista por meses e, aí sim, os posts estão ordenados e com o texto completo, de forma mais legível.
O folhetim / Cadavre Exquis é uma história a várias mãos. Semanalmente sai um novo texto. Estão listados na barra lateral e poderá lê-los de forma contínua carregando no título da secção "Cadavre Exquis".
Tenho muito, muito mau feitio, um génio desalmado que me incendeia e sobe a tensão. Vá lá, Deus deu-me por junto um bom humor crónico como uma doença. Adoro romancistas, ensaístas, poetas e dramaturgos chatos como a potassa, queria ter todo o Eduardo Lourenço, e não tenho, todo o Larkin, todo... - o insuportável Cabral de Melo Neto está completo, parece. Tenho fraqueza por Cristina Campo e Adélia Prado. Era capaz de fazer mal ao Herberto Helder. Sou pirosa e conservadora, porém, no mau sentido, ie, gosto de sapatos de verniz e acho que o sexo só condiz com o amor. Ora isto é mau: quase nunca está na moda usar sapatos de verniz e sofro de uma horrível dificuldade amadora. Enfim, é como tudo, forma o carácter. Porque isto é pouco, o amor dá-me nervos porque me descontrola os níveis de ciúme que eu finjo não ter e faz-me tão peganhenta que dá náuseas. Odeio. Não sou loura, não tenho 1.75m e 50 Kg, não ponho o cabelo de outras pessoas em extensões, a silicone dentro do corpo mete-me medo, não uso copa C, não tenho um rabinho de um palmo. Já fui mais nova, mais bonita, rija e anti gravítica, agora sou mais gira e mais feliz. Se tenho instinto maternal, nunca o vi, dou-me bem com o meu sobrinho porque ele é terrível, com crianças porque as compreendo. A maior parte das pessoas dá-me seca. Gostar, gostar, gosto de café e de andar de bicicleta. Perfeito é o meu cão.
Gosto de brincar ao faz-de-conta e de andar nas nuvens. Desta janela de avião é fácil ser papagaio de papel. Ou papelão. Caloroso e leve, cabeça de vento. Mas com peso bastante para ares salgados e voos altos (nem que sejam só sobre o globo da mesa-de-cabeceira). Bico afiado para repastos lentos. Penas soltas para tinteiro e tela. E erva branda para o tombo certo...
Sou feliz. Muito. E gosto. Fui abençoada pelo meu Criador com uma capacidade, até ver infinita, de desfrutar em pleno cada momento que passa, de descobrir um lado positivo em tudo o que de bom e de menos bom me vai acontecendo, de rir do irresistível absurdo das situações mais tensas ou dramáticas. Sempre suspeitei – e a vida tem-mo confirmado – que nunca nada acontece por acaso, que tudo tem o seu tempo e que, no limite, tudo faz sentido. Difícil, às vezes, é percebê-lo. E aceitá-lo. Agrada-me a ideia de que, ainda assim, a minha parte está por fazer e que muito depende das minhas escolhas e decisões, do meu trabalho e do meu esforço. Sinto que o melhor desta vida ainda está para vir. E, por isso, gozo o presente com alegria e esperança. Quanto ao passado, recordo-o com ternura, alguma saudade e quase nenhum remorso. Acredito que a morte não é o fim e que me está reservado um belo final, eternamente feliz. Mas, por ora, heaven can wait...
Neste blog amortalhado,
De alegres e vãos mortais,
Me confesso, eu, condenado
Pela mortandade dos pais –
Lázaro ressuscitado,
Morredoiro uma vez mais:
Sou mortal, por nascimento,
Por vocação, mais de além,
Que a morte, no esquecimento,
Nem toda a vida contém.
Hedonista desregrado,
Com maior dor que prazer,
Sportinguista moderado
(para não deixar de o ser),
Português, cantando o fado,
De um Portugal por fazer…
E em tudo isto interessado
Em preparar meu morrer!
A minha tendência para celebrar os mortos começou quando, ainda mal entrado na adolescência, ouvi o “Atmosphere”, dos Joy Division. Casei com o Direito, a quem jurei compromisso para a vida na condição de me deixar ir, noite fora, para os braços de uma amante misteriosa, de múltiplos disfarces e estilo indie, que me leva às campas dos meus imortais de estimação. Pela mão de Buzzati, fui ao Deserto dos Tártaros, onde não se passa absolutamente nada a não ser esperar pela morte, e de onde consegui sair para mudar a minha vida. Fui condenado por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples mas a minha pena acabou por ser atenuada por ter sido apanhado vezes sem conta a (tentar) decifrar anões do Lynch. Já não sei se sou de direita ou de esquerda mas tenho pavor da cultura à solta no mercado. E vivo em pânico de, no dia em que o “mal de vivre” me visitar, o anjo Clarence nada ter para me mostrar. Mal me ficaria terminar a história da minha vida sem dizer, alto e bom som, sim, sou orgulhosa e apaixonadamente do Benfica.
Tive um bisavô Galego e um tio avô monárquico. Uma avó beata e uma vinda de Toulouse. Um avô germanófilo e um outro mais cinéfilo. Tenho um pai intercontinental, uma mãe literária, uma mulher “workaholic” e dois filhos já demasiadamente Italianos. Não resisto a uma temperada e crocante chamuça mas não gosto de peixe no forno nem de coloridas gelatinas de bacalhau. Já marchei em Tancos, já trabalhei numa fábrica no Cairo, já remei em Titicaca, já tomei banho nas praias de Goa e já cantei karaoke em Xangai. No entanto ainda me falta muito para lá chegar. Os meus melhores amigos consideram-me um lírico, hipócrita e fantasista. Leio furiosamente, ouço de tudo, vejo o que posso e tendo a sonhar mais do que devia. Lisboeta de corpo e alma. Sempre. Até que a morte nos separe.
Vim ao outro lado do Atlântico ver como é a América, ao mesmo tempo que aprendo a aprender sobre o mundo das pequenas peças que nos compõem. Não gosto de abreviaturas, mas gosto de palavras novas. Leio muito menos do que devia, ainda assim encontro tempo para não ter de dizer que não a uma empada de pato do Natário. Há dias em que gasto horas a ouvir umas músicas dos anos setenta que estavam numa cassette que o meu pai nos deixou como herança. Não sei se gosto mais da vida aos bocadinhos se dos bocadinhos da vida. Quando volto a casa, ligo sempre o rádio para ouvir queixumes e depois, espero que Lisboa se esvazie para ir ouvir o seu silêncio.
Idade: 41
Sexo: bem, obrigadinho
Actividade: curador e epicurista de guiões
Sonho: molhado ( o elixir que conserva o brilho do Oscar é escorregadio)
Frustração: não ter o sorriso do Robert Redford, o instinto do Robert Towne, a delicadeza do Robert Frost e a inteligência do Roberto Baggio
Saudade: do avô paterno
Vício: identificar o número de cenas de filmes do Ford em que aparece o Victor McLaglen (há também as cenas em que Victor apenas se ouve, resmungão, em off)
Palavra: dignidade (lembro-me sempre dela quando sou indigno)
Mulher: a minha - pérfida conspiradora de uma máquina esquerdista intitulada "Jugular" - e as de Tamara de Lempicka
Objectivo: o azul esplendor da preguiça
Em 2009 dobrei a crista dos 50 e não corro ao engano: agora é que vai começar a montanha russa.
Não interessa onde nasci e sempre vivi; sou mesmo é de Vale Paraíso – um nome destes não se perde.
Sou sportinguista, sei olhar o infortúnio de frente, como parte da natureza das coisas. Isto dá blindagem em vez de insuflar.
De um ponto de vista da taxonomia social pertenço ao “neues prolektariat”, desempenhando a parte que me cabe com escrúpulo e, muitas vezes mesmo, com alacridade. E gravata quando é preciso.
Ele há outros temas candentes há, mas o que for, adiante se verá.
Nunca me vi de perfil mas garantem-me que não perco grande coisa. Não troco uma boa imperial por nenhum champanhe do mundo e desconfio de todos os livros com menos de trinta anos. Sei de um corvo chamado Laércio, deixei crescer a barba para me fazer de rijo mas continuo a ler o «Blake & Mortimer» às escondidas. Quando for grande hei-de de jogar à bola como o Chalana e o Super Maxi vai voltar a chamar-se Maxi Delicô. Quanto ao mais, cinema mudo sueco, Oscar Peterson e uma inconfessável Simpatia pelo Diabo. Assim como assim, antes morto do que meio vivo.
Já vivi duas vidas.
A primeira – ilegítima, cruel e inocente – dizem que foi numa África a-histórica, terra obscura que mapas e viajantes omitem. Ficou-me, indelével e colonial, o hábito de ser feliz.
Vivo agora a segunda: hedónica, nonchalante, inviável e sem esplendor. Uma vida de gostos sonâmbulos: editar livros e produzir filmes. Nova vida, o mesmo destino: o amor de tudo querer amar, um peregrino optimismo.
Adorava morrer de golo de ouro. Quem gosta muito de futebol de “mata, mata” e já conheceu o medo da inapelável perda ou a glória infinita de ganhar, saberá do que falo.
Fascinam-me os mais sórdidos textos de Borges e Larkin, a brancura ideológica dos filmes de Ford.
Acho, devo ser de esquerda.
Meus caros amigos, nesta primeira de muitas visistas recomendo a leitura de um magnifico livro sobre obituários — tema que, acredito, lhes poderá interessar — e que se chama “The Dead Beat: Lost Souls, Lucky Stiffs, and the Perverse Pleasures of Obituaries”. A autora é Marilyn Johnson. Abraços, JP
Ó Dr. Guimarães, não se faça de morto e vá aparecendo por aqui.
DOS MEUS ENCONTROS E DESENCONTROS
Sei da minha urgência em amar e sentir-me amada.E perdendo-me em reflexões acerca desta urgência penso mesmo na morte. Desde a minha concepção, ela se fez presente algumas vezes, me sorriu e foi embora. Sempre de forma sutil e amável.
Gostaria de perguntar à ela o propósito de vir visitar-me tantas vezes e manter-me aqui. Na primeira vez eu estava ainda no útero da minha mãe.O meu mundo parou com o choque sofrido pela minha mãe com a morte da minha avó. Quase que morremos todas.
No momento do meu nascimento novamente tudo parou. É verdade, quando a face da morte sorri prá vc, vc pára de existir.O coração pára de bater e o mundo exterior fica bem distante, inaudível, quase uma outra realidade.
Já ia me esquecendo dela quando, aos 17 anos, sofri um acidente de automóvel e mais uma vez ela se fez presente. Desta vez desmaiei e quando acordei vi a minha amiga já distante. Mas mesmo assim meu mundo parou. Eu não ouvia coisa alguma e as imagens eram confusas.Ela acenou-me e partiu.
Nosso último encontro foi há uns dois anos, durante um assalto violento.E apesar de fazer-se presente, desta vez, ela me acalmou. Sua visita foi rápida, meu coração parou e quando vi, lá estava ela. Novamente me sorriu e foi embora. E eu muito mais tranqüila pude enfrentar a situação.Foi o que me permitiu dialogar com a calma que o momento exigia.
Acredito que a morte esteja me testando e é com amor que tenho dialogado com ela.E espero que este diálogo se prolongue por muitos e muitos anos…
(Carla Lopes)
Então aqui se apresenta mais uma morta-viva para o convívio ou o conmórtio.
Bem-vindo à blogosfera.