Overlord

E para quem quiser saber mais sobre Overlord e os meses que se lhe seguiram, Antony Beevor, conta tudo o que há para saber neste admirável “D-Day, The Battle for Normandy”. É sabido que este autor trabalha com hordas de investigadores que vasculham a história como quem raspa o fundo de um tacho. Mas Beevor consegue com isso, contar a guerra de uma forma única e diferente. Conta-a através das pessoas, sejam elas os assustados soldados que sem saberem onde estavam tentavam cumprir as suas missões, ou os agricultores franceses que lhes vendiam o leite ao mesmo preço que o tinham feito aos Alemães, ou as mulheres que ávidas se lançavam sobre a seda dos pára-quedas aliados. Conta-a ainda através do som das balas, a entrar na areia molhada como se de ar a passar entre os dentes se tratasse ou do rumor infernal das 88 mm alemãs capazes de rebentar os tímpanos a um homem a mais de 50 metros. Por fim conta-a como ela é, horrenda e brutal e mesmo assim, por breves momentos, capaz de trazer ao de cima o que de melhor e mais nobre existe dentro dos homens e das suas emoções.

In between wars

À sessenta e cinco anos atrás, a guerra na Europa aproximava-se do fim. Os Americanos e os Ingleses tinham aguentado o ataque da Alemanha nas Ardenas e podiam agora avançar até ao coração da mesma. Os Russos, esses, corriam já imparáveis na direcção de Berlim e do seu rico saque. À leadership Alemã, não restava senão recorrer a uma sucessão de manobras de diversão para ganhar um tempo que, sabemos hoje, já não tinha.

Ainda em combate, muitos dos soldados Americanos que tinham participado e sobrevivido às campanhas de África e Itália e participado na operação Overlord na Normandia, preparavam-se já para recolher a casa e começar a viver de novo. Apesar do esforço e heroísmo demonstrado, muitos não tiveram essa sorte. Esperava-os, ainda por alguns meses, um Pacífico em chamas, um exército Japonês disposto a um suicídio colectivo e um clima inóspito e cruel.

Em 2001, a HBO produziu com Stephen Spielberg e Tom Hanks a excelente mini-série “Band of Brothers”. Tendo como base o livro de Stephen Ambrose do mesmo nome, a série conta a história da Easy Company, pertencente à gloriosa 101st Airborne division, desde a sua formação, até ao final da guerra na Europa, no dia 8 de Maio, VE day. Agora, quase dez anos depois, a mesma HBO e os mesmos Spielberg e Hanks, lançam “The Pacific”, que segue os marines da 1st Marine Division e os seus feitos, nas famosas batalhas de Iwo Jima, Guadacanal e Okinawa.

É verdade que no geral, os registos cinematográficos dos que perderam são relativamente melhores do que os daqueles que ganharam. E estou também de acordo que a HBO não faz bem filmes, mas desenvolve, isso sim, produtos mediáticos. No entanto, no dia 14 de Março, em que estarei de novo nos EUA, farei de tudo para não perder o primeiro episódio, do que promete ser mais um excelente relato dos acontecimentos desses trágico período, que nunca faz mal voltar a lembrar.

Eu não #3

Fotografia de Maria João Cabrita

Toda a gente gosta de skinny jeans: as mulheres gordas porque queriam ser magras para se enfiar numas; as mulheres magras porque podem usá-las e gostam de o mostrar. E há ainda as que só se interessam por skinny jeans porque aderiram ao maluquedo deste Outono Inverno, o mesmo que o do ano passado, mas pior, que decidiu que o sexo feminino haveria de andar na rua com as calças dentro das botas do gato das próprias, de cano altíssimo e virola à mosqueteiro nos casos mais graves. Os rapazes gostam de skinny jeans porque gostam de olhar para o rabo das raparigas que as vestem e ainda mais quando sustentado por por umas pernas montadas numas botas de salto alto, cano alto, tudo alto. E não é por ficarem a pensar em Athos, Porthos, Aramis e D‘Artagnan! Toda a gente gosta de skinny jeans. Eu não. Vem-me logo à cabeça a pedagogia materna que me mandou ler o livro e ver o filme, Os filhos da droga. Christiane F., tão linda ao som de Bowie, numa Berlin animosa de frio, 13 anos, drogada e prostituta, com perninhas de menina anoréctica metidas numas calças de ganga onde seria impossível enfiar um alfinete, ainda mais deprimentes por culminarem nuns saltos vermelhos de rua.

Stiletto

Seja como for, chita ou seda, tudo se compõe com a elegância destes sapatos de salto agulha, 15 centímetros assassinos, concebidos pela iluminada mente de Alexander McQueen. Três das modelos do desfile – Summer 2010 – recusaram calçá-los e foram despedidas. Bem dizia Bernard Shaw: “If a woman rebels against high-heeled shoes, she should take care to do it in a very smart hat.

Vestido de seda

Onde é que foi? No Chiado, Tejo em baixo, ou no Porto, Santa Catarina? Sei que tinha parado de chover, o sol aberto aquecia o primeiro dia de Fevereiro e a esplêndida menina tentava, entre de e como, mover o coração materno. O que disse pareceu-me quase clássica literatura que nenhum Plano Nacional de Leitura deveria desdenhar. Humilde, reproduzo:

«Mas se eu fosse feliz com o meu vestido de chita, e o homem do meu coração?
— Isso é romance, menina. Nunca é feliz com um vestido de chita a mulher que tem amigas com vestidos de seda.

Vassilissa cerca lavoro

Em 1991, “Mediterraneo” ganhou o Óscar para o melhor filme estrangeiro. Nem o próprio realizador, Gabriele Salvatores, queria acreditar. Sobretudo porque o outro contender sério ao prémio, era o maravilhoso “Rise the Red Lantern” de Zhang Yimou. Talvez os americanos não tivessem ainda percebido o que estava a acontecer ao cinema chinês. Ou talvez porque percebem melhor tudo aquilo que lhes traz à memória a guerra na Europa ou as aldeias de onde muitos deles provêem e emigraram. Ou talvez apenas pelo facto de “Mediterraneo”, causar no espectador uma momentânea mas enorme vontade de largar tudo, fugir para uma ilha grega e esconder-se lá para o resto da vida, dedicando-se a actividades como a natação, a pintura e o namoro de belas aldeãs, ou entregando-se preguiçosamente  às delícias do sono e da filosofia, tudo envolvido no fumo de vaporosas cachimbadas turcas.

Encontrei o filme a semana passada numa edicola de esquina, enquanto comprava o jornal de Sábado. Tinha-o visto na altura em que saiu em Lisboa, em óptima companhia, no cinema Mundial se a memória não me atraiçoa. Ontem, tendo chegado a meio deste gélido inverno já com enormes saudades do calor, soube bem aquecer, por instantes, com a luz azul do mar Egeu, com o pó de uma terra onde parece ser sempre Verão, com o humor inocente de oito bravi ragazzi Italiani, mas também e sobretudo com a estrepitosa temperatura da belissima Vassilissa.

Uma listinha, em “reprise”:

“The Walk to Paradise Garden”, W. Eugene Smith

Aqui vai, Pedro, tarde e a más horas:

1 — Hunger, Steve McQueen, 2008: um filme sobre as consequências da Fé na mente e, sobretudo, no corpo (neste caso, a fé num ideário tão justo – o combate pela independência da Irlanda do Norte – como de métodos e recursos inomináveis – a luta armada do IRA).

2 — Letter From an Unknown Woman, Max Ophuls, 1948: uma das obras-primas do imperador dos travellings.

3 — Seven Chances, Buster Keaton, 1925: mais um delírio visionário, matematicamente encenado, de um dos grandes artistas do século XX.

4 — Lat den ratte komma in (Let the Right One In), Tomas Alfredson, 2008: a surpresa, e a fita que “Twilight” gostaria de ter sido (mas se o fosse, lá se perdiam 200 milhões de espectadores).

5 — Gran Torino, Clint Eastwood, 2008: ainda há mais alguma coisa a dizer sobre o senhor Eastwood?

6 — Culloden, Peter Watkins, 1964: a batalha do derradeiro sonho de auto-determinação dos highlanders escoceses contra as tropas britânicas do Duque de Cumberland, filmada como um documentário televisivo dirigido a quatro mãos por Robert Capa e W. Eugene Smith. Magnífico.

7 — Once, John Carney, 2006: o melhor musical – doce e intimista – dos últimos anos.

8 — Redbelt, David Mamet, 2008: um grande filme sobre o mais mametiano dos temas: a identidade no labirinto ético.

9 — Standard operating Procedure, Errol Morris, 2007: Abu Ghraib pelo autor de “The Thin Blue Line” e “The Fog of War”.

10 — Un Conte de Noel, Arnaud Desplechin, 2008: uma vertiginosa visão familiar, surpreendente no realizador do chatíssimo e largamente incompreensível (e incensado pela crítica portuguesa) “Rois et Reine”.

11 — Hard Candy, David Slade, 2005: e se a vítima virasse predador? Com a maior revelação feminina do cinema americano dos últimos anos, Ellen Page.

12 — Entre les Murs, Laurent Cantet, 2008: a escola como príncipio – ou fim – da civilização.

13 — The Mist, Frank Darabont, 2008: um filme inclemente, com epílogo de fazer gelar o sangue, por um cineasta habitualmente bondoso (“The Shawshank Redemption”).

14 — Be Kind Rewind, Michel Gondry, 2008: depois de “Eternal Sunshine of the Spotless Mind” – para mim, um dos filmes da década – novo triunfo de Gondry (que prefiro a Spike Jonze).

15 — The Big Knife, Robert Aldrich, 1955: foto a preto e branco (mas com todas as gamas de cinzento) de Hollywood, poderosamente actual.

16 — L’ Avocat de la Terreur, Barbet Schroeder, 2007: visita à mente de uma das personagens mais sinistras – e fascinantes – da França da segunda metade do século, Jacques Vergès, o advogado de defesa de, entre outros, Djamila Bouhired, Klaus Barbie e Carlos, o “Chacal”.

17 — Petulia, Richard Lester, 1968: esquecido pelas “Histórias” do Cinema, do excelentíssimo Richard Lester, é o filme que Godard gostaria de ter dirigido nos States mas nunca foi capaz de fazer.

18 — Il giardino dei Finzi Contini, Vittorio De Sica, 1970: datado, de extrema melancolia, continua, a espaços, belo como os ciprestes de Rada in Chianti.

19 — Thieves’ Highway, Jules Dassin, 1949: nunca tinha visto, e só pecou por chegar tarde. É melhor do que o “They Drive By Night” de Raoul Walsh (baseado nos mesmos textos de A. I. Bezzerides e muito mais “cotado”).

20 — Le Fantôme de la Liberté, Luis Buñuel, 1974: ninguém foi independente e libertário no seu ataque à burguesia como Buñuel (talvez Pasolini, mas os talentos não se comparavam).

21 — Frailty, Bill Paxton, 2001: um grande thriller psicológico, à moda antiga, com visita angustiante pela infância, do actor habitual de James Cameron e Kathryn Bigelow.

22 — El Aura, Fábian Bielinsky, 2005: outro thriller, desta vez existencial, poderosamente ritualista, por um dos melhores realizadores argentinos.

23 — Peter & the Wolf, Suzie Templeton, 2006: a clássica fábula – e a clássica peça de Prokofiev – numa animação dramática em stop-motion.

24 — Scaramouche, George Sidney, 1952: um dos meus filmes de aventuras preferidos, embriagado pelo optimismo coreográfico tão próprio a George Sidney. E tem Eleanor Parker…

25 — Peter Ibbetson, Henry Hathaway, 1935: um filme visceralmente surrealista, o que é raríssimo. A modesta descoberta do ano.

26 — Interview, Steve Buscemi, 2007: a verdade da mentira, a partir de uma peça holandesa de Theodor Holman, num “remake” do filme assinado por… Theo van Gogh.

27 –Lancelot du Lac, Robert Bresson, 1974: Bresson no seu ascetismo esmagador, onde cada palavra é a queda de um reino (e a ruína de um coração).

28 — Two Lovers, James Gray, 2008: “Little Odessa”, a primeira fita de Gray, continua a ser a melhor, mas esta história de aprendizagem das amarguras do amor relança-o no bom caminho.

29 — Mrs. Miniver, William Wyler, 1942: o discurso final do padre, com o sol a entrar pelo tecto da igreja em ruínas, foi mandado traduzir para alemão por Churchill, impresso em panfletos e lançado sobre as terras do Reich como demonstração do inabalável espírito britânico.

30 — I’m a Cyborg but that´s OK, Chan-wook Park, 2006: De um romantismo por vezes caótico, mas os filmes de Park são sempre de visitar.

30 — My Enemy’s Enemy, Kevin MacDonald, 2007: Quem era Barbie, o carniceiro de Lyon? Uma resposta metódica, sem maniqueísmos.

30 — Boarding Gate, Olivier Assayas, 2007: confesso que não é grande coisa mas – vá lá saber-se porquê – gosto de tudo que Assayas faz.

And that’s it.

Queen Christie, “Petulia”


And now for something completely different (and dedicated to Gonçalo)

folhetim 4 — Até ao chão da voz activa…

Nem mais uma palavra ouviu da carta que Catarina lhe lia. A voz dela ecoava, ao fundo, enquanto se apossava dele a confusão de todas as coisas. Entre a desunião dos momentos todos e o símbolo na pele da Luísa tentava ver um sinal. Mas nada mostrava ainda o seu sentido. Viera à procura do seu nome inteiro, no qual se mostrasse quem é, mas tudo lhe lembrava apenas aquilo que poderia ter sido. A Catarina. A Luísa. A Susana.
– Francisco!? Francisco!?
– Sim! Catarina. Estou aqui.
– Não achas isto tudo extraordinário?
– É. Extraordinário. Nem sei bem o que hei-de dizer-te. Na verdade, estou atordoado. Deixa-me falar com a Luísa e arranjar uma maneira de ir para aí. Amanhã falamos.
Pediu o jeep emprestado à Luísa para poder ir até Chennai, onde a Catarina o esperava, no hotel. As quatro horas de viagem iam passando indistintas na indiferença dos solavancos da estrada e do espírito. Parou, perdido, sem que houvesse outro caminho. Precisava de tempo e de ar. Abriu a janela. Respirou fundo. Mas o ar não transpunha os angustiados limites dos seus pulmões. Com a mente e o coração sufocados, tirou do bolso o papel que lhe dera o guru no templo de Vaitheeswaram. E então leu-o. Devagar.
«Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro. Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito. Segue a estrada que vai até Atenas. Aí encontrarás Hydranthrópous, único descendente vivo do sábio Tales, de Mileto. Perguntar-lhe-ás então pela chave com a qual hás-de abrir a porta que encerra o segredo da vida.»
«Duas vezes terás de morrer!» Agora, como no templo, aquelas palavras sobrepunham-se a todas as outras. Resistia-lhes, imediatamente. Não queria ter de morrer, apesar de não se sentir bem vivo. A predição das suas mortes instantemente o remetia para a morte dos seus pais, no Porto, três anos antes. Para o desastre, inesperado. Para a dor à espera, no hospital. Para a terrível revelação de que o sangue deles não era o seu. Para a interrupção das vidas deles. Para a desconexão da sua.
Desde então tudo mudara. Crescera nele, continuamente, o desânimo de ser quem era. Nada parecia ligá-lo ao mundo, pelo qual andava, alheado. Catarina tentara ajudá-lo, mas estavam deslaçados. Apenas num fundo de si persistia ainda, escondido, o desejo de ser quem seria. E foi dele que surgiu a ideia da vinda aos templos de Vaitheeswaram e de Fort Kochi. Os Norton´s, uns amigos da Catarina, que costumavam passar férias na Índia, falaram-lhes, não sei porquê, destes lugares, aos quais os peregrinos acorriam à procura dos seus nomes. A ideia dilatou-se no seu fundo até que o latente desejo de si mesmo começou lentamente a descobrir-se na demorada preparação desta viagem. «Duas vezes terás de morrer até encontrares o teu nome inteiro.» Seriam estas suas mortes as duas mortes dos seus dois pais?
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Mais calmo, ia meditando, enquanto voltava a guiar. Aquelas palavras, embora incompreendidas, permitiam-lhe recomeçar a pensar. A lágrima de onde partira tinha agora de chorá-la por dentro, dissolvendo-o, inteiro. Chorar, sem perceber, até ao chão de si mesmo. Só assim a dor seria sua. Só assim a poderia dizer. Afirmando-se, estaria só, mas então já não teria tanto medo. A água, brotando de dentro, não secaria, ela também, com o seu secar. O ar? O ar não sabia. Mas já conseguia respirar.
«Da água surgirá a terra firme e da terra surgirá o ar e o espírito.» Chegara a hora de se afirmar. Não já na água maternal, mas fora dela. O mundo inteiro fora, até hoje, apenas e tão-somente uma mãe. Todo ele se alargara, ao recebê-lo, prenhe de um feminino amor por si. O amor dos dois se confundia, dando-lhe tudo, pedindo-lhe nada. Mas eis que sentia, lá dentro – num outro dentro, num dentro de si –, um poder irreprimível de afirmar-se e uma vontade de marcar novas fronteiras. Sentia crescendo em si a força de um toiro branco, daqueles capazes de roubar a uns pais a única filha e de, carregando-a virilmente no seu dorso, se adentrarem pelos líquidos caminhos, neles firmando ilhas de terra viva.
O espírito!? O espírito move-se sobre a superfície das águas, para as quais olha, sem tocá-las. Por isso agora, entre ele e elas, serei terra, na qual me erga capaz de amar e ser amado. Terra-água. Terra viva. Terra-planta, terra-bicho, terra-homem. Terra-anjo? Terra-Deus? Já se verá. O depois virá depois. E será, num só, dos dois. Mas agora é tempo apenas de afirmar. De romper, de dividir, de decidir. «Segue a estrada que vai até Atenas.»
Chegara. Era tarde. Subiu as escadas do hotel e entrou no quarto onde Catarina já dormia. Tocou gentilmente no seu ombro, enquanto pousava as chaves na mesa-de-cabeceira. Então disse-lhe, baixinho:
– Catarina. Sou eu. Dorme. Já não vamos para Fort Kochi. Amanhã vamos para Atenas.

O regresso das três letras malditas

Longe vão os tempos universitários em que alimentava os meus complexos de esquerda a decorar cada uma das palavras do FMI do José Mário Branco.

Mas as três letras malditas, que já se julgavam definitivamente proscritas por estas bandas, voltaram a ser pronunciadas esta semana em círculos bem oficiais do nosso burgo.

O discurso de José Mário Branco, embora se reconheça datado nos detalhes, não ilude uma verdade cada vez mais indisfarçável: que, no essencial, o país, que já foi o bom aluno da Europa, parece ter rodado sobre si próprio no esforço de recuperação económica, exagerando na pirueta e reaproximando-se perigosamente do grau zero em que estava quando a canção foi escrita. 


Santa Maria da Feira

Dou por mim à procura de sons “lá fora” que cantem Portugal, Lisboa, Porto, Coimbra, o Algarve e por aí fora. “Lá fora” ou, melhor dizendo, fora do mundo lusófono, e aí é que está a dificuldade do exercício. É que não me ocorre quase nada. Para além do histórico álbum Amigos em Portugal dos Durutti Column em 1983 (ainda assim, editado “cá dentro” pela Fundação Atlântica de Pedro Ayres de Magalhães e Miguel Esteves Cardoso), e de algumas referências à “Saudade” – entre as quais o fabuloso tema instrumental com esse título dos Love & Rockets gravado em 1985 -, parece mesmo que os compositores e letristas não lusófonos pouco ou nada se interessam pelo que se passa por cá.

Mas, para além dos parcos exemplos apontados, há ainda uma honrosa excepção. Honrosa por vir de um destacadíssimo representante da cena indie/folk/psicadélica americana, Devendra Banhart, song-writer com aparência de Cristo, parceiro musical de Antony em I Am a Bird Now e autor ele próprio dos aclamados Rejoicing in The Hands e Cripple Crow. Honrosa ainda pela localidade que mereceu a atenção de Devendra: não os luminosos palcos de Lisboa ou Porto mas, imagine-se, Santa Maria da Feira. E não se pense que é uma qualquer Santa Maria da Feira fundada por emigrantes portugueses na Venezuela (onde ele, nado em Houston Texas, foi criado). É mesmo a nossa, o homem explicou bem que foi uma homenagem a um concerto inesquecível que lá deu na Exponor. E desenganem-se ainda aqueles que julgam que só pode ser uma peça menor no seu reportório: longe disso, é mesmo uma das pérolas de Cripple Crow e da sua já considerável discografia (embora não cantada na sua língua habitual, o inglês, mas em espanhol). Ora ouçam lá para tirar as dúvidas.

Dormem juntos o nosso sonho de amar, a raiz no lodo, as pétalas no céu de pedra.

Fotografia de Maria João Cabrita

Hoje, sobre a mesa essencial, o altar, só a toalha de linho branco, o pão, o vinho e os braços de luz acesos, as velas: o pavio é o coração das estrelas, assim, sobre nós vieram os sóis do firmamento decantar o sangue para conhecer das horas só a verdade, a boca de vida que morde a morte na boca, circular e perfeita. Igual, o amor, no outro altar dos três, mesa, cama, palavra,  sempre génese sempre túmulo. Tinha à frente, tenho ainda, a pedra de Inês e Pedro, olhos nos olhos, eles, luz desde o lodo até às pétalas desabrochadas a cinzel, last till the end of time, my love, mesmo no silêncio da pedra se ouve o beijo da boca de vida que morde a morte na boca, our joy would fill the earth — alegria: lugar perfeito para nascer em cada morte. Todos os amantes querem os olhos nos olhos para existir completos, completamente, e provar Deus no beijo — beijo: perdido novelo de mim e de ti, sem saber que língua é de quem quando o céu se abre, devagar, devagar, doce docemente, assim se abrem os lábios lambidos de uma ternura toda, obscena e pura, à procura, novelo, sem saber o que é de quem, até que a fúria passe estreita, corrente lenta, entre os dedos, i felt the earth move through my hands like the trembling heart of a captive bird. Pedro e Inês dormem juntos o nosso sonho de não sermos até que a morte nos separe, porque se em vida uma só carne, sempre uma só. É muito fácil o amor assim. É o mais fácil amor: só sede de e só água em. É por isso que o mar de mim se abre num sulco claro e bem navegado, ainda que tema, e eu temo, mesmo uma pequenina sombra, se inesperada, me assusta, temerária não sou, vou adiante na mesma. Tremo. Vou adiante. A minha fé nasce da minha carne: se não for tudo não quero nada. Quando morrer quero que me deitem ao lado do meu amor.

Coneito Vargas

Coneito, a eito

Flúvio Coneito Vargas, garimpeiro de minas Gerais, mestre da faíscação, aurífero esperitoso, emérito mergulhador, no lago de Bondade, circa 1972.

Ela

Abençoada morte. Em Hollywood e em vida toda a estrela é um cometa: num segundo ilumina o mundo, um minuto depois é já veneno de box-office. Depois da morte, e por causa da morte, Marilyn Monroe resistiu a tudo.
Qual sic transit gloria mundi! Marilyn está para lavar e durar. Provam-no milhões de postais, cartazes, fotos, livros e reedições de filmes.
No cinema, fez de adúltera, alcoólica, cantora, míope, gold digger e vizinha. Mas quantas vezes foi essa ela de que, numa espécie de deslize freudiano, Marilyn falou um dia a Susan Strasberg, uma das suas melhores amigas?
A história passou-se em plena rua, Nova Iorque. Marilyn saíra sem pinturas, penteado ou traje especial. Podia, assim, passear pacificamente, sem temer as turbas de fãs. Mas, de repente, deu consigo aturdida pelo desejo de irrealidade que era chamar-se (ou poder ser) Marilyn. “Do you want me to be her?” (“Queres que eu seja ela?”), perguntou. E Strasberg só se lembra de a ver crescer, mudar,até ser ela. Marilyn tinha, afinal, consciência de trazer outro ser em si. Tinha-o no corpo e tinha-o na mão.         

         Em Evaristo Carriego, Jorge Luis Borges escreveu: “Que um individuo queira despertar noutro individuo recordações que apenas pertencem a um terceiro é um paradoxo evidente. Executar com despreocupação esse paradoxo é a vontade inocente de toda a biografia.” Que biografia alheia é que Marilyn executava quando era ela? Parafraseando os “recuerdos de recuerdos de otros recuerdos” de Borges, muitas devem ter sido as recordações de recordações de outras recordações crescendo nela, até lhe darem esse “a lot of animal magnetism” que levava um menino milionário, em Gentlemen Prefer Blondes, a ajudá-la a sair da escotilha em que a largura de ancas a deixara ficar presa.
Arrisco uma hipótese de explicação, modesta e tradicional. Marilyn, quando era ela, era antes de mais o eco dos múltiplos terceiros que foram as peças do puzzle da sua infância.

Vamos aos registos. Na papeleta do L. A. General Hospital consta o nascimento, a 1 de Junho de 1926, de Norma Jeane Mortensen. A breve trecho o patronímico desapareceria, fazendo justiça ao buraco negro da sua paternidade, desaparecendo também o último “e” de Jeane. Ficou só Norma Jean. Ou, para efeitos civis, Norma Jean Baker, do nome da mãe, Gladys Baker, com a qual Marilyn deixou de viver aos oito anos, altura em que a senhora Baker foi internada num hospital de saúde mental, tendo-lhe sido diagnosticado a mesma esquizofrenia que destruíra a vida dos seus pais e irmão.
A infância de Marilyn, com mãe internada e paternidade incógnita, pode arrolar-se nos milhões de infâncias infelizes que povoam orfanatos, tutores e famílias adoptivas. A Hollywood não escapou o segredo mal guardado dessa infância infeliz.
She seemed like a lost child”, comentou o actor Robert Mitchum. Ela parecia uma criança perdida, uma doce criança perdida.
Há uma cena reveladora em The Asphalt Jungle, de John Huston. Marilyn era, no filme, a sobrinha – eufemismo com que se recobria, aos olhos dos censores, a relação de mocinha nova com homem mais velho – de um advogado escroque, Louis Calhern. Nessa tal cena, a altas horas da noite, Calhern olha para Marilyn com a mais equívoca ternura paternal e diz: “Some sweet kid. It’s later. Why don’t you go to bed…” (“Doce menina. É tarde. Porque é que não vais para a cama”). Marilyn desliza com volúpia pelo sofá, dá-lhe um beijo de despedida e começa a andar para o quarto, “being her” – porque esse sendo ela é que faz o ponto da cena. O realizador corta o plano no andar de ela e dá-nos o contracampo do rosto de Louis Calhern olhando-a e repetindo dubiamente: “Some sweet kid”.

A menina doce, a insistente e ambígua imagem de infância que se oferece (e entrega) à impureza gourmet do olhar adulto, talvez seja – pode ser que seja – o segredo da persistência da imagem de Marilyn, desse “being her” a que, quando queria e com vontade inocente, foi escrevendo a biografia. Com paradoxal despreocupação borgesiana.

Pepitas de Ouro


Um amigo fiel é uma poderosa protecção; quem o encontrou, descobriu um tesouro.

Nada se pode comparar a um amigo fiel, e nada se iguala ao seu valor.

(Ben Sira, 6, 14–15)

Sempre me fascinou a actividade dos garimpeiros. Metidos na água, a peneirar areia, terra e lama, em busca de pepitas de ouro e de pedras preciosas.

Talvez por isso o garimpo me pareça uma excelente imagem do que sucede na nossa vida, naquelas fases menos boas ou realmente más que, mais tarde ou mais cedo, acontecem. Pouco importa a causa — uma doença grave, um divórcio, a perda do emprego, negócios que correm mal, insucessos, azares e desgraças de todo o tipo. Perde-se sempre. Às vezes muito. Laços que sentíamos indestrutíveis, projectos e planos que pareciam certos e seguros. E, pior que tudo, uma certa inocência, ao descobrir certas facetas de alguns (felizmente raros) daqueles com quem julgávamos contar (familiares, amigos, colegas, vizinhos) e que preferiríamos nunca ter visto. É assim, é verdade e não há como negá-lo.

Mas há também o outro lado. O bom. Do que fica nas nossas peneiras quando a água dos maus momentos nelas passa. Porque sempre fica qualquer coisa, mesmo quando tudo parece ter ido rio abaixo. As pepitas de ouro, as pedras preciosas que são a nossa família e os nossos amigos. Aqueles que sabíamos que nunca, nunca nos falhariam, fortes, dedicados e leais. E os outros, os que nos surpreendem e nos comovem, pela sua solidariedade e generosidade e, não raro, coragem. A revelar uma sua tocante bondade, mas também o quanto para eles importávamos, sem que porventura disso tivéssemos a noção.

É certo que é menos, muito menos do que aquilo que se tinha antes da tormenta. Será. Mas é tudo verdadeiro e é tudo infinitamente valioso. Como as pepitas de ouro e as pedras preciosas dos garimpeiros. E o resto? O resto é areia e lama. Não interessa e não faz falta.  

Danças?

Oh, meu Deus, que eu já não me lembrava.
Ardia, ardias.
Tão devagar. Tão slow.

Eram — serão sempre — os Steppenwolf. Tinham o som único, ácido, de “The Pusher”, “Magic Carpet Ride” ou “Born To Be Wild”. Mas podiam ser estranhamente líricos como é aqui o caso, neste tema de Bob Dylan. John Kay, de vez em quando, chegava-se à boca da noite e cantava assim.

Harlem, 1998

Harlem 1998


Aconteceu um dia, em Nova Iorque, na Rua 126. Eram 10 horas de uma manhã do Verão de 1958.

1958? Devia ter dito 1998. Em vez de  Dizzy Gillespie, Lester Young, Thelonius Monk, Sonny Rollins, Horace Silver, Art Farmer, Art Blakey, Charlie Mingus, Gerry Mulligan e Count Basie estiveram lá Rakim, Fat Joe, Fab 5 Freddy, Da Brat, Peter Gunz, Shyheim, Yoga Russ, Q-Tip, Cee-Lo, Sticky Fingaz, Debbie Harry, Wyclef, Jermaine Dupri, Luke, Kool Herc e E-40. Que é como quem canta: serviu-se Hip Hop onde antes se ouvira Jazz. Um tributo bonito, apesar de tudo.

Notas soltas…

Fiquei vários dias sem acesso ao computador, coisa que dicilmente pode ter sido notada pelos meus virtuais amigos deste blog. Televisão, vi também pouca, tendo ficado francamente impressionado quando vi hoje a notícia sobre os muitos casos de pessoas que, na Grécia, se suicidam por terem de entregar a sua casa ao banco. E tenho pensado nisso.
Olho os peixes no aquário das minhas filhas, os quais morrem se lhes falta a água. Penso nos homens que morrem se lhes falta o ar. E pergunto-me que ar foi este que tão terrivelmente faltou, e falta ainda, na Grécia — e no Ocidente em geral.
Porque me dói saber que alguém se mata por perder quatro paredes. Se tiver família, filhos e irmãos e pais; se tiver amigos; se tiver vizinhos; se tiver uma comunidade onde viver, não se há-de matar. Eles o ajudarão.
Temporariamente, dificilmente, sem dúvida, mas o mais importante são essas relações que conseguimos construir debaixo de um tecto sustentado por quatro paredes. É por elas que vivemos. São elas a nossa casa.
Desculpem-me a franqueza neste assunto, que é horrível, mas se estes homens se matam é porque não têm família, nem amigos, nem vizinhos, nem comunidade. E foi isso, talvez, o que perceberam, quando lhes tiraram as suas paredes. Sózinhos, perdidos, morreram.
Neste sentido, talvez valha a pena pensarmos, para além de todas as banalidades que se têm pensado para manter controlada a crise, que homens e mulheres queremos ser. Nós. Todos nós, que somos muito iguais aos gregos.
Porque desde a era das revoluções que a esquerda e a direita têm conjugado os seus esforços para anular as famílias e as comunidades, única verdadeira rede que interiormente sustenta a sociedade.
E não vale a pena enganarmo-nos com as centenas de amigos com que vamos virtualmente comunicando nas — agora assim chamadas — redes sociais. Se só elas ficarem quando perdermos a nossa casa, também nós, talvez, sózinhos, perdidos, morreremos.

É bem pior do que isso


Caro Pedro Norton:

Desculpa parasitar o teu post, Pedro, mas precisamente porque partilho por inteiro o teu diagnóstico sobre os diagnósticos, e os pressupostos que o enformam, não consigo dar o quantum leap para a hipótese de uma luz ao fundo do túnel. Estou como o outro: só vislumbro um túnel ao fundo da luz.
Para utilizar uma imagem horrífica, portanto à altura dos tempos, tu estás como um médico que diz: “o cancro á apenas no estômago, o resto está bem.”
A questão não é meramente política como muito bem afirmas, a questão é tanto mais grave quanto é política. Porque não é só o facto de os partidos terem sido sequestrados pela patuleia das concelhias, por alguns profissionais do aparelho para quem o exercício do poder é em si mesmo o objectivo da sua prática, nem pelo pequeno (suponho) punhado de oportunistas. Tudo isto seria regenerável, como já o foi noutras ocasiões, com escasso trauma e muito acordo geral.
O problema é a total politização do aparelho de estado e o segundo passo lógico que foi dado: a estatização de uma parte tão substancial da economia e das mentalidades do país, que se tornou irremovível sem catástrofe, logo impossível de remover pela majestosa inércia que o sustenta. Inércia e legítimo medo.
Chegámos a um ponto que é sempre omitido: reformar o aparelho de estado do seu lastro, dos absurdos orgânicos, das excrescências, do despesismo, seria atirar para o desemprego uma multidão insustentável para qualquer sistema de segurança social e insuportável para qualquer sociedade que precisa de paz.
Mas para além deste “pormenor” que só por si é um formidável obstáculo, afirmas, que “não é de escassez de diagnósticos ou de remédios que morrerá o paciente”. A tua boa vontade ilude-te, Pedro. Por mais de acordo que possamos estar com as propostas apontadas pela racionalidade económica, como suponho estarmos, não podemos esquecer que elas provêm de um sector minoritário, parcial e comprometido da sociedade e da intellingentzia portuguesa. A mentalidade dominante, sobretudo na esquerda mais sonora, não se desviou um milímetro da dinâmica salazarista no que concerne à relação entre o Estado e a economia: protecionismo completo, anti-capitalismo radical no que este tem de tumulto e de “destruição criativa”, desresponsabilização individual na condução dos negócios pessoais. Ao fim do dia, em vez de risco, crescimento, e realização individual, o que todos querem é garantia eterna de sossego (mesmo que também eterno), sabendo que ele se obtém se eu entregar o meu destino nas mãos do Estado – ao menos ninguém me chateia, nem me chateio com nada…
A memória da nossa miséria atávica está demasiado próxima para ser de outra maneira. E como se sabe, um cancro no estômago propaga-se por outros orgãos, contamina o corpo todo e mata o paciente. É só uma questão de tempo.
Desesperei de qualquer possibilidade reformista com um caso sucedido durante a primeira legislatura de José Sócrates. E ia jurar que virá a ser um case study daquilo que nos aconteceu, quando no futuro nos quiserem perceber.
Imagine-se um sector de actividade da máxima importância para o país, com uma performance bastante disfuncional a necessitar de reforma profunda de modo a ser mais justo e mais eficaz, premiando o mérito e orientando-o para os resultados. Imagine-se agora as condições políticas ideais: um governo de maioria absoluta, um presidente vitorioso na primeira volta disposto a dar o seu apoio, um consenso social em torno da ideia de que é preciso haver reformas e, até, alguma disponibilidade financeira.
Qual foi o resultado? Foi a ministra Maria de Lurdes Rodrigues ter sido corrida pela porta pequena debaixo dos piores enxovalhos.
A inércia e a entropia são as forças mais persistentes do universo, e quando não há vontade de ir mudando, as coisas só mudam quando se quebram de vez.
Estamos como havemos de ir.

Há Festa no Cemitério

Morreu um morto novo, guiado pela voz inspirada do Diogo. Mas atenção! As orações fúnebres não são só salamaleques. E, pelos vistos, o veneno não é monopólio das nossas fúrias. Os realizadores deste «cantinho da Europa» devem estar com o umbigo a arder.

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