The End

Há pessoas que nascem para morrer novas. Há blogs que nascem para morrer garotos. E todos nós, ponho-me eu para aqui a achar, sempre soubemos que seria assim. Dois aninhos por fazer.  Bem vistas as coisas, não é uma tragédia. Morremos, é certo. Mas morremos de felicidade. Pura, juvenil, inesperada. Que é cor das amizades e o feitio das cumplicidades que nesta campa, tal como no fado, nasceram a par. E a lenda, simples, singela, de nós todos - atrevemo-nos a esperar — talvez  também reze um dia:

 Quando os incautos passavam

 junto à linda sepultura,

toda a gente afirma e jura

 que os textos coravam

 e o tempo parava para ninguém lhes tocar

 

 Obrigado a todos, autores e leitores, pelos tempos felizes que se viveram aqui.

 É Tudo Gente Morta.

Manel

Sem ele, somos caveiras enterradas em terra de ninguém. Quem nos guiará ao paraíso?

 

Os relógios do tédio voltaram a funcionar. As crianças já não brincam entre as campas. O jardineiro viajou, e com ele as madressilvas. No topo da colina, as viúvas lançam os véus à brisa do rio, e os miúdos já não têm calças onde se agarrar, enxugando as lágrimas. Faz-se noite, há aves de olhos brilhantes.

Saio também, sem que ninguém note, e faz frio. Não posso voltar. Nunca se volta ao tempo exacto da felicidade. Excepto quando olho, de longe,  para admirar a inteligência e a graça dos que ficaram. É tudo gente viva, e é preciso vivê-la para Vivermos. Love you, guys.

 

Às vezes despedimo-nos tão cedo

O Gente Morta é melhor que deus, melhor que o diabo. A nenhum dos dois lembraria fazer dum cemitério um lugar de festa, a nenhum deles lembraria juntar queridos mortos e infames. A nenhum, deus ou diabo, tão obstinados e eficazes a pescar almas, passaria pela cabeça consolarem-se com o descarado onanismo de escrever por escrever, graciosamente.

O Gente Morta abre covas a rir-se, enterra pessoas sem vergonha e a bater palmas, faz raios X de nus e vestidos, converte o telefonema dum sobrinho numa short-story. É um blog sem sentido nenhum. E, por nenhum sentido ter, é o melhor blog do mundo. Um tipo, para deixar o Gente Morta, é preciso estar doido.

Foi o que, que estou doido, confirmou a minha junta médica, autorizando-me a sair com atestado. Saio hoje, deixando este cemitério, a única linda razão que me fazia estar na blogosfera.

Sei bem que nunca mais me vou divertir tanto, seja qual for o manicómio para onde agora vá. Sei bem que não encontrarei gente mais luminosa do que os 13 autores que faziam o favor de deixar-me acompanhá-los.

Estava aqui tão bem morto e vou agora arranjar chatices em ruas de carne e osso. Mas tem de ser: até a um morto se permite a peregrina ideia de licença sabática para uma vida sem vencimento.

Aos leitores do blog agradeço a gentileza de, até a mim, me terem lido. Asseguro-vos que, a partir de agora, vão ter-me como um rival furioso e invejoso nas caixas de comentários. Lutarei convosco pelo amor e aprovação dos maravilhosos autores que vão continuar o Gente Morta. À Turmalina, Luciana e Mr. Orcama, os mais historicamente fiéis e persistentes leitores e comentadores, praticamente cadáveres como os autores, protesto os mais vivos obrigados.

Antes que a porta se feche, abraço com descabelada efusão os mortos-autores, meus companheiros de dois anos. Admiro-vos. A dois, aqueles com quem abri os portões do cemitério, a Eugénia e o Pedro N, estampo-lhes na cara dois beijos choramingas e de fungada ranhosice. Adoro-vos.

Então adeus.

Quem vai à guerra dá e leva
 
 
 

Trocar umas galhetas, uns bons sopapos, era a atabalhoada arte da minha infância. Em Luanda, a caminho da escola, já se sabia que “quem vai à guerra dá e leva”. Os mais velhos do bairro, tipos com a vetusta idade de 17 a 20 anos, ensinavam-nos uns truques aprimorados.

a arte da bassúla

 

Capanga, era fazer com o braço a rija prisão do pescoço do adversário, cortando-lhe o pio e pondo-o a cuspir fininho por uns minutos. Bassúla, era meter a perna direita atrás do asqueroso inimigo e, com forte empurrão no peito, fazê-lo malhar de costas na poeira rubra, para gáudio da turma no recreio.

Brad Pitt, pai de “Tree of Life”, sabe destes arrebatamentos infantis e das funestas consequências metafísicas de só se levar sem se dar. Ensina aos filhos a nobreza do pugilato, ou seja, como enfiar um sonoro murro nos queixos de putativos contendores. O meu pai, pacifista e tendo por hobby a carpintaria, tentou ensinar-me a usar um serrote, a plaina, o esquadro e um torno, esperando converter-me no Harrison Ford do “Witness”. Atraía-me vocação mais inglória e canalha: resultado, socorri-me do cinema para sobreviver na aguerrida selva da meninice.

Por sorte, coincidiu-me a infância com a idade de ouro do peplum, filmes pintados a socos e golpes de Hércules, Maciste, David (tive uma fisga!), Golias e Spartacus, protagonizados por expoentes da representação como Jacques Sernas, Steeve Reeves, o marmóreo Charlton Heston.

Iniciávamo-nos com os gregos e algum direito romano: uma base sólida. Mas o alargamento de horizontes veio-nos da América. E foi nos westerns (tive uma espingarda!) que aprendemos a usar os punhos com liberalidade e clarividência.

Exaltante, nas sessões de pancadaria dos filmes de cow-boys, era a sua democracia. Toda gente molhava a sopa, toda a gente comia pela medida grossa. Havia um clima de festa naquelas abruptas trocas físicas. Lembro-me de John Wayne, em “McClintock”, filme de 1963. Há um brutamontes de espingarda na mão a dar cabo do juízo de todo o mundo, inclusive dos índios. Wayne, com paciência de Job, a mostrar-lhe o caminho da harmonia universal e o brutamontes, nada! Continua a escovar a alma de quem já não pode, mas tem de o ouvir. Wayne, com habilidade quase feminina, tira-lhe a arma e, como a culpa não deve morrer solteira, espeta-lhe o que então chamávamos um murro no céu-da-boca. Para espanto dos índios, meia centena de cow-boys desatam aos socos e acabam, aos baldões pela ravina arenosa, no lago de lama que os espera lá em baixo. A música vem gloriosa, na banda sonora, cumular de alegria toda a cena.

Nem em noites eleitorais há o mesmo júbilo. E o meu pai, no céu que tanto merece, bem sabe que ainda hoje sou capaz de serrar, com rigor irrepreensível, a primeira tábua que me ponham à frente.

Gosto tanto da algazarra da sequência do vídeo junto que, agora que saio do Gente Morta, não quis deixar de publicar extemporaneamente esta crónica do Expresso. Porque é assim que vou lembrar sempre este blogue que me acolheu: em festa.

 

Para além da milionésima parte de diferente

 

Fora uma fotografia feliz. Era um ritual seu, o de as fotografar depois do duche que lhes apetecia, sempre, a seguir ao prazer. Mais do que nos momentos de intimidade partilhados momentos antes, era nesses instantâneos que nelas captava aquilo que Kundera chamara a “milionésima parte de diferente” que distinguia cada uma de todas as outras. Mas desta vez a diferença ia muito para além de milionésimos. E, por isso, ao contrário de todas as outras que saíam, ainda a pingar a água do duche, para não mais voltarem, desta vez quis o que nunca quisera. Que ela ficasse. Que ela voltasse. Que voltasse, uma, duas, três vezes, até ficar para sempre. Ela era, não tinha dúvidas, aquilo que Teresa fora para o Tomaz de Kundera. Ela era a síntese dos milhares de milionésimas partes de diferente (uma por noite nos últimos vinte anos, assim o provavam as fotografias) que somara ao longo da sua vida de predador. A essência viera, finalmente. Se era isto a que chamavam amor, ele aí estava em todo o seu esplendor.

Nunca percebera por que se fora ela, de forma tão repentina. Aquela sua cara, que ele captara a seguir ao duche retemperador do prazer, parecia ser a imagem da felicidade pura. Parecia. Mas ele sabia que ela não era uma mulher como as outras. Para o bem e para o mal, a sua diferença ia para além de milionésimos. Aparecera-lhe, assim, sem mais nem menos, para lhe mudar a vida. E mudara. Depois dela, nunca mais tivera uma mulher. Se não a tinha, pensava ele, não podia ter mais nenhuma. Porque a tinha para sempre. E tudo, por causa de uma fotografia que nunca mais o largou.

De como Rikio Hossback me convenceu a falar de viagens

A partir de certa fase da vida encontrei a verdade essencial das mulheres nas palavras do velho pai de Dustin Hoffman (em Alfredo, Alfredo!…), que explica ao iniciado sem jeito e já quase encornado qual o segredo inefável do género feminino, essa espécie de lado oculto da Lua que o é no todo da vida no masculino. Diz o velho (e eu, que o repito muitas vezes): “As mulheres são seres misteriosos e imprevisíveis e, meu filho, é exactamente por isso que nós gostamos delas”.
A Rikio não fugiu à regra: foi imprevisível e de certo modo misteriosa.
Apareceu-me aqui no Porto. Levei-a a almoçar num sítio à beira-mar, que adorou, diga-se de passagem, em particular um robalo de mar com algas, acompanhado de um quilito de percebes e de gélido Alvarinho. Na conversa que fomos tendo surpreenderam-me duas coisas: uma foi a graça serena dos seus movimentos que, no entanto, não escondiam um vigor pulsante, como que pronto para no nico dum segundo mudar radicalmente de tensão; a outra foram os seus gostos musicais – que, misteriosamente, se misturaram com alguns dos os meus: Can, Faust, Mozart, Stockhausen… Conhecera mesmo Damo Susuki, o vocalista japonês dos primeiros (que por sinal foram alunos do último).
Logo ali, em plena esplanada, já amorenada dum sol a que a sua milimétrica vestimenta pouca ou nenhuma resistência oferecia usava uma fita como top e um cinto como saia , Rikio obrigou-me a ouvir uma das suas peças preferidas: em tempos assistira a uma das instalações sonoras do grão-mestre alemão da música elctro-acústica, e tinha no seu laptop um excerto gravado de Helikopter Streich Quartett.

Como seria óbvio a todos – menos a mim, que nunca me preocupei com o que o sol pode fazer à pele (sobretudo quando muito branca, dum tipo quase lácteo que o meu empirismo praticamente desconhece) – às quatro da tarde estávamos no hotel dela, ela estendida na cama que nem um escalope de salmão com listinhas, eu magnetizado pelo espectáculo poderoso das minhas mãos untadas de creme gordo, já bem esfregadas uma na outra, e completamente preparadas para aliviar algum sofrimento à pobre jornalista germano-nipónica.
Ao fim dum certo tempo, já de ardores aceitavelmente acalmados, a Rikio pediu-me para trabalharmos um pouco naquela coisa para o tal almanaque das viagens do Manuel.

Rikio – Qual é a tua mais antiga memória de viagem?
Eu – Para uma criança de quatro ou cinco anos ir do Porto a Baião num Volvo marreco já era coisa impressionante. Essa deverá ter sido a primeira coisa que se pode assemelhar a uma primeira viagem.
Rikio – Algo mais substancial… A tua primeira viagem de avião, por exemplo…
Eu – A primeira vez que voei? Bem…, isso aconteceu lá para os 14 anos, quando fugia às aulas em Espinho para ir até ao aero-clube de Paramos. Gostava imenso do local, das dunas, da Barrinha de Esmoriz, dos aviões. Foi assim que uma vez consegui boleia numa Tiger Moss e fiz o meu primeiro looping
Rikio – Viagem, António, é viagem que eu quero…
Eu – Áh bem, ok… Pode-te parecer um pouco estranho mas a minha primeira grande viagem de avião foi a caminho duma comissão de serviço, como militar, em Angola.
Rikio – Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro!
Eu – Hmmm… Sssssim… Agora que penso nisso acho que sim. Adorei assistir lá de cima à aurora e ao ocaso, passei a viagem de nariz espetado no quadradinho transparente que me cabia no magnífico Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa. Assisti pasmado a uma tempestade eléctrica à vertical de Dakar, pasmei mais ainda com o vermelho da costa angolana, em contraste absoluto com aquele azul do mar. Finalmente, levei um murro denso no corpo todo quando a porta do avião se abriu e eu mergulhei por inteiro na atmosfera dos trópicos. Por momentos pensei que me ia dar a sofeca…
Rikio – Sofeca?…
Eu – O badagaio…
Rikio – O badagaio?!…
Eu – Sim, a sofeca, o badagaio algo como morrer…
Rikio – E então?
Eu – À noite, de copo de whisky na mão, rodeado de mulatas (e não só), percebi que Angola já se apoderara por inteiro da  minha alma…
Rikio – Associas sempre as viagens a pessoas?
Eu – Aí só não posso dizer nunca.
Rikio – Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora!
Eu – Nada disso. Algumas das minhas melhores viagens foram exactamente profissionais. Olho sempre para fora, para os lados, para dentro, por dentro…
Rikio – Preferes os hotéis de luxo ou os familiares?
Eu – Há coisas excelentes ou tenebrosas em todas as categorias e lugares.
Rikio – O dinheiro é importante quando se viaja?
Eu – É.
Rikio – Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valorizas?
Eu – Conforto geral, vista, serviço, localização.
Rikio – Imagino que tenhas episódios pitorescos…
Eu – Devo ter vários, de certeza, mas há um de morrer. Passou-se num voo entre a Ilha do Sal e a Cidade da Praia, em Cabo Verde. O avião era um Casão – uma espécie de autocarro com asas onde se entra pelas traseiras por umas portas tipo saloon. Pelo menos estas eram do tipo saloon, porque mal a geringonça saiu do chão elas abanavam de mal presas que estavam por uma corrente de aspecto manhoso. O momento dramático aproximava-se, inexorável. De entre o gado variado que seguia no atafulhado Casão destacava-se um estupor duma cabra que não parara de espernear e guinchar desde que deixara terra. A dada altura, fosse por o dono ser pouco expedito, fosse porque o espernear atingira o seu pico de desespero libertário, solta-se a cabra no corredor – onde começa a evoluir em derrapagens descontroladas em direcção às portas do saloon!…
E nelas ficou presa até que o solo da Praia, já firme e quieto, permitiu complicada e sobretudo ruidosa operação de caprino resgate.
Rikio – Do passado, em viagens, de que é que tens mais saudades?
Eu – De conhecer.
Rikio – Já perdeste as malas?
Eu – Nunca. Mas fiz contrabando.
Rikio – Contrabando?!… Não acredito! De quê?…
Eu – Isso não posso dizer… Pelo menos aqui…
Rikio – Ameaças de acidente?
Eu – Tive uma fase da minha vida em que, estranhamente, ganhei medo de andar de avião. Nunca tivera, passei a ter. Depois de Angola. Depois de aterrar alegremente em 50 metros de pista de terra batida, nos aviões mais ronceiros (ou não) que já vi na vida. Nessa fase de medo qualquer voo era uma ameaça de acidente. Entretanto passou.
Rikio – Pior: já viajaste ao lado de pessoas famosas?
Eu – Elas sim!…
Rikio – E nos hotéis?
Eu – Que me lembre não, sou muito distraído.

No fim, perto da hora de jantar, saí para mudar de roupa e trocar o descapotável por uma berlina mais aconchegante.
A noite aconselhava, esfriara bastante.

 

Árvore

Pedindo desculpa a todos (a começar pelo dottore) por ter sido chato como a potassa, aqui deixo o breve texto que publiquei há um mês na revista “Sábado” sobre “The Tree of Life”:

“O pior melhor filme que vi em anos.

Explico-me. Ninguém filma (e filmará) como Malick. Com cinco filmes em trinta e oito anos, é um grande chato para alguns, e um génio para muitos. Os seus filmes são variações míticas – os campos de cereais no Midwest da Depressão pelos anos 20 em “Os Dias do Paraíso”, os campos de batalha do Guadalcanal na II Grande Guerra em “A Barreira Invisível”, os campos de sangue da América autóctone, violada pelos conquistadores europeus, em “O Novo Mundo” — sobre o mesmo tema: a perda da inocência. A mensagem prolonga o tema: “aceitem a fragilidade humana; reconciliem-se com Deus; compreendam a Natureza”, sugerem os sons e as imagens, belos como os rumores do oceano, ardentes como tochas na floresta da escuridão.
Qual é o problema? O problema é que “A Árvore da Vida” é um filme-mundo, como o “2001” de Kubrick ou “O Sacrifício”, de Tarkovsky. Desta vez, Malick apontou para as estrelas. Cosmos, Vida, Deus, Amor, Morte, tudo pende desta “Árvore”, e é traçado o percurso do Universo desde o Big Bang (a sério, é mesmo isto) até à extinção de noventa por cento das espécies do planeta Terra (incluindo os dinossauros). Entretanto, há a história de uma família americana num subúrbio idílico dos anos 50. O pai (Brad Pitt) cede às pressões no emprego (é a batalha entre Natureza e Civilização de todas as fitas de Malick), as mensagens aos filhos pré-adolescentes, sobre a força necessária para vencer na vida, são redobradas, a mulher (Chastain, uma ruiva de Botticelli) resiste à violência, um dos miúdos morre, e a inocência perde-se.
As imagens são de uma beleza por vezes deslumbrante – gotas de água, um vestido verde, duas cortinas, bolhas de sabão, os pés de um recém-nascido – mas a mensagem da voz-off (lírica em “Dias do Paraíso”, elíptica no extraordinário “O Novo Mundo”) repete incessantemente o essencial, e a beleza vai cedendo ao peso da redundância. No fim, até as imagens reverberam, ecoando, cansadas, sempre a mesma rendição ao mundo, o mesmo “Anda lá, deixa-te ir”, a mesma nota no piano que tanto nos refrescava, e comovia, no início.
Reflectir sobre a Humanidade, e fazê-lo poeticamente, não é para todos. Homero chegou lá. Shakespeare, e Caravaggio. Ao imaginar o seu filme-mundo, Malick cedeu ao peso excessivo do sonho. “A Árvore da Vida” é um filme falhado. Mas é um magnífico falhanço.”

E acho mesmo que há um certo produtor português que ainda irá, um dia, conceber filmes mais significativos do que este.

10

Foi em Julho de 1976 — faz por estes dias 35 anos. Pela primeira vez na história das modernas olimpíadas, uma prova de ginástica obteve um 10, a máxima classificação possível. O feito, que o marcador electrónico, impreparado para tal eventualidade, assinalou com um desconcertante 1.00, haveria de repetir-se por mais seis vezes nos dias subsequentes. A protagonista, sempre a mesma: Nadia Comaneci, romena, com apenas 14 anos, a quem a prodigiosa sucessão de sete provas com o score 10* fez ganhar cinco medalhas** e um merecido e incontestado lugar na história.    

Eu tinha 9 anos e estava de férias. Vagueava dias inteiros numa preguiça sem fim à vista que muito me agradava, entre os meus livros, os Legos do meu irmão e as constantes incursões na casa do outro lado do patamar, para fazer palavras cruzadas a meias e ver na televisão as transmissões dos Jogos Olímpicos de Montreal com o meu Avô. Foi sentada no chão, encostada ao braço da sua poltrona, que vi o primeiro 10 e todos os que se seguiram. Tinha por essa altura uma vaguíssima ideia de que existia um país chamado Roménia e nenhuma do que por lá se passava. E estava longe de imaginar o que seria a vida daquela miúda magrinha, de olhos escuros e cabelo apanhado em totós. Gostei de a ver derrotar sozinha o exército de espernéficas ginastas russas. Encantaram-me o seu ar concentrado e sereno e a forma graciosa e aparentemente effortlessly com que fazia aqueles exercícios tão difíceis. E também o ar de girl-next-door, como se o ser-se assim extraordinário estivesse ao alcance de qualquer um.

Seguiram-se mais férias e mais jogos olímpicos, mais proezas e mais deslumbramentos. Mas poucas imagens me tocam, ainda hoje, como estas. A preto e branco, evidentemente.

*Três na competição por equipas e quatro na competição individual, nas provas de paralelas assimétricas e trave olímpica.
** Três de ouro, uma de prata e uma de bronze
diário um (short que não é)

 

Quando escolhi esta imagem, escolhi-a para mim mesma. O riso é uma afronta, é-o a toalha amarela. Demasiado luminosos, demasiado óbvios, quase vulgares. Ou nada disso, apenas de uma felicidade simples. Queria saber se conseguia escrever sobre essa felicidade, em vez de me deixar levar uma vez mais a pôr a imagem em tons negros. Eles estão lá, claro, todo o fundo é negro e esse negrume vive tão intensamente na imagem como o riso. Podíamos escolhê-lo, mas são a pele dela, o riso aberto e o amarelo que nos prendem.

Reparo que não vejo a mulher inteira, vejo partes dela e talvez seja isso o que me foge. É uma mulher aos bocados. E, quase sem querer, não lhe reconheço a felicidade, que dói de tão nua.

Para lá de pessimismo ou melancolia, há uma certa preguiça neurasténica em escrever sobre o mais negro em nós. Não acredito que as vidas felizes não tenham história, mas não sei se são possíveis de contar… ou antes, claro que são, mas não sei como, a não ser em musicais.

Ignoro se o erro é meu ou dela, ou do narrador que é o fotógrafo desta história… vê-la partida é um contra-senso porque sei que ela é uma. É o meu olhar que se parte. Não o aceito, mas também não consigo aceitar a inteireza da imagem que nos dá. E, no entanto, devia ser assim: total. A felicidade por nada. Mas também devia ser, como diz a Eugénia, uma disciplina, uma higiene diária, como o duche pela manhã. Essa é a felicidade real, a que conquistamos, a que nos mantém sãos … e limpos. É a felicidade de não nos deixarmos levar pela torrente dos dias, pela entropia da idade adulta e pelo cinismo da ingratidão. A felicidade extraída do quotidiano. E é tão importante e tão certa.

Mas anseio uma felicidade além dos pequenos ou grandes prazeres, além do que fazemos por nós. Uma felicidade que pára as horas e nos dá os segundos eternos. Sem quando e sem onde, quase sem mim. Ser tudo certo, de repente. É uma felicidade do “sim”: um sim total e abrupto, sem razões, práticas ou amores que o causem. A rendição a algo que vem de além de nós para o qual nos abrimos e que deixamos entrar. A beatitude aqui e agora, a suprema alegria.

E, não esquecer, um bom duche e toalhas tolas amarelas.

 

 

 

 

CENAS: “Carlito’s Way” (ou mais voyeurismo)

“Carlito’s Way” é o mais belo e triste filme de Brian de Palma.

Quando era adolescente, De Palma viu os pais metidos num divórcio violento. O papá andava a trair a mamã, as discussões não paravam, ela fartou-se. O puto ficou abalado com o assunto, mas começou a seguir o pai – a traição também era assunto dele. Alugou uma câmara e espiou. Em esquinas de avenidas, à sombra das àrvores, nos prédios em frente à rua onde o pai consumava os pecadilhos.

Todo o cinema de Brian de Palma é baseado num sentido irreprimível de voyeurismo, e o realizador já reconheceu a influência desse episódio de juventude. É um cinema visceral, fetichista, misógino, alucinogénico – mas não é assim boa parte do Cinema?
Os seus filmes são tanto buracos de fechadura insinuando a história das imagens que já se fizeram – há cópias, homenagens e citações de Hitchcock, mas também de Eisenstein, Howard Hawks, Don Siegel, Antonioni – como labirintos, janelas, passagens secretas para outros tantos filmes do próprio De Palma. Nenhum cineasta tem uma obsessão tão radical por outro como De Palma tem por Hitchcock – “Obsession”, de 1974, é uma verdadeira réplica gótica de “Vertigo”. Mas o italo-americano gosta sobretudo de construir espelhos que o duplicam a si mesmo: como escreveu Pauline Kael, ele é o grande realizador da cultura pop (pelo menos até aparecer um tal de Tarantino).

De que é que se fala quando se fala de Brian De Palma? De louras, antes de mais: Michelle Pfeiffer em “Scarface”, Melanie Griffith em “Testemunha de um Crime”, Rebecca Romjin Stamos em “Femme Fatale”, Scarlett Johansson em “Black Dahlia” (a lista é fastidiosa). Mas há também enleios por estações de comboio ( os desenlaces de “Blow Out”, “Os Intocáveis”, “Carlito´s Way” ou “Missão Impossível”), elevadores (para o sexo, para a morte e para o sexo-morte em “Sisters”, “Vestida para Matar”, “Os Intocáveis” e “Carlito´s Way”, outra vez), vigilâncias furtivas (Craig Wasson a observar Deborah Shelton/Melanie Griffith em “Testemunha de um Crime”, Antonio Banderas espreitando Romjin Stamos em “Femme Fatale”).
Depois, a assinatura; os travellings circulares, presentes nos abraços amorosos de quase todos os seus filmes, de novo estirpados de Hitchcock.

No seu pior, De Palma é um formalista estéril, uma espécie de idiot savant. No melhor, leva o jogo das duplicações – as fitas estão carregadas de gémeos, sósias, personalidades duplas, atormentados doppelgangers — até à abstracção, como no genial “Femme Fatale”. Mas a nota dominante dessas óperas escarlate é o pessimismo. As personagens mentem, aldrabam, escondem, matam, sempre na vaga esperança de sair imunes. Fracassam sempre.

Na abertura de “Carlito´s Way”, um traficante de droga porto-riquenho recém-saído da prisão chamado Carlito Brigante (Al Pacino) está a morrer numa maca, transportado por polícias e enfermeiros ao longo de um dos terminais da Grand Central Station, Nova Iorque.
Filho do Harlem hispânico, Carlito não vai para novo, e está decidido a deixar a “vida”, regenerando-se. Mas, como sucedera ao velho Michael Corleone de “O Padrinho III”, they pulled him back in. O advogado que o safara de pena mais longa, David Kleinfeld (um Sean Penn com nariz falso e problemas de calvície), está tão enfiado em ilegalidades e cocaína como o Tony Montana de “Scarface”, e irá arrastá-lo para o abismo, que Carlito tenta evitar a todo o custo. Pacino atravessa o filme como uma marioneta, uma coisa de homem, movendo-se sem parar para não desaparecer de vez. É o assomo de alguém que sabemos ir morrer antes de as luzes se acenderem. Assistir ao seu esforço, à vã energia, à luta contra a inércia, à terna exaustão, é assistir a um dos grandes momentos da carreira do actor – ninguém é tão hipnótico no desespero como Pacino.

A única ponte entre Carlito Brigante e a realidade é Gail (Penelope Ann Miller), uma aspirante a actriz que se apaixonou por ele antes do exílio prisional, agora bailarina de striptease para manter os sonhos ilusórios. O sonho de Carlito é pegar em Gail, desaparecer de N.Y. e montar um negócio de aluguer de automóveis em Paradise Island, nas Bahamas. Coisa simples. Acontece que “Carlito’s Way” é neto do film noir, e Carlito é a sua alma marcada.

A cena surge quando a ilusão da fuga ainda parece possível.
Chove a cântaros, e Carlito não vê Gail há cinco anos. Cobre o pescoço com as abas do casaco e atravessa as ruas vazias, de tempo suspenso como num musical de Jacques Demy. Só há carros de cores vivas, vermelhos, azuis, brancos, parados em semáforos de pedra. Carlito aproxima-se de Gail, mas pára a poucos centímetros dela, e ela não nota – é a vida das marionetas. Gail fecha o guarda-chuva e sobe as escadas, Carlito olha para o prédio em frente, e a sua decisão é puro De Palma: não consigo tocar-lhe, mas irei vê-la ao longe.

No terraço do prédio oposto, Carlito pega na tampa de um caixote de lixo para se abrigar da tormenta, como o desgraçado que é, a coroa de princípe dos bairros de lata, na morte cansada que o vai levando. Olha para as grandes vidraças de um estúdio de ballet, onde Gail é a única pele doce que jamais conheceu, essa flor à beira do pântano, far from the madding crowd. E fica ali, à chuva, de olhos arregalados, como as crianças dos housing projects, como os rapazes que descobrem o amor, como os homens que pressentem a vida que jamais terão. O espectro do antes olha para o espectro do depois. Gail, “a única cara que me conhece”. É o mais puro voyeurismo, e o mais puro cinema.

O preço da discórdia

Li, há uns anos valentes, um livro que mudou radicalmente a forma como via mas sobretudo como “sentia” a segunda grande guerra. É bem verdade que não foi o primeiro nem o último. O tema sempre me suscitou curiosidade e os livros, históricos, biográficos, romanceados, há muito que se acotovelam na desordem aparente que é a minha biblioteca. Também é verdade que nunca é inteiramente possível “experimentar” a segunda guerra mundial como objecto de simples reflexāo intelectual. Ainda hoje guardo na memória o olhar angustiado de um rapazinho que um dia teve a minha idade e que sobreviveu no genérico, cem vezes repetido, do fabuloso documentário com que a BBC assombrava as minhas tardes de meninice ao Domingo. Mas foi com “Se isto é um homem” de Primo Levi que o conflito de 39 — 45 tomou para mim uma dimensão verdadeiramente humana. A escala não é a das grandes batalhas, a tragédia não é a das grandes opções políticas e geo-estratégicas. Os personagens não são os heróis míticos nem os génios amorais que escreveram as linhas maiores da História. A miséria, muito pelo contrário, tem tamanho de homem, a angústia cabe no peito de um rapazinho, a batalha mais impressiva é a que opõe um pai e um filho e o seu objectivo é a conquista de um simples pedaço de pão. Algures, num comboio sobrelotado a caminho de um campo de extermínio.

Tudo isto, embora nada pareça, vem a propósito da crise grega. Que, é bom não esquecê-lo, não é essencialmente grega e muito menos é sobre dívida soberana, agências de notação financeira, ou mais uma dúzia de conceitos relativamente abstractos. A crise dita grega é a crise de um dos projectos de paz mais fabulosos da história da humanidade. Filho dos horrores dilacerantes e muito concretos da segunda grande guerra e de um par de estadistas que os vivenciaram.

E assim regressamos a Primo Levi. Tenho para mim, é uma tese que vale o que vale, que a crise da Europa é a crise do desaparecimento dos últimos líderes que viveram, experimentaram, sofreram, directamente, o horror da segunda grande guerra. É a crise do desaparecimento de uma geração de líderes, mas também de cidadãos em geral, que conheceu o terrível preço de uma alternativa ao projecto de unificação europeia. Para quem os custos que agora paralisam e parecem condenar a Europa mais não seriam do que risíveis minudências quando comparados com a tragédia da simples ameaça, por mais ténue que possa julgar-se, de um conflito continental. A crise da Europa, que só metaforicamente é grega, é pois uma crise de memória. Memória viva, memória vivida, que não tem a Sra. Merkel, o Sr. Sarkozy, o Sr. Barroso, mas que também não têm os milhares de gregos, espanhóis e portugueses que protestam na ruas, como não a têm os milhões de eleitores e contribuintes alemães ou finlandeses.

Tenho uma certa tendência para o pessimismo. Dêem-me pois o devido desconto. Mas, feito o aviso, estou absolutamente convencido de que o que andamos a discutir na Europa é a viabilidade de legar aos nossos filhos os anos de paz que herdámos dos nossos pais. Postas as coisas assim, concordarão que o preço a pagar — apareça ele sob a forma de sacrifícios financeiros ou de cedências de soberania — será sempre pequeno demais.

Publicado na Visão em 30.06.2011

A cansada e absoluta imobilidade

A vida vai depressa, o cinema vai a 24 imagens por segundo. A mesmíssima velocidade. Ao som e fúria de cada dia – um apartamento que explode, a histeria duma ama numa creche, o pandemónio do e.coli ou a violência no Iémen – o cinema responde imitando a vida: som Dolby a rebentar pelos quatro cantos da sala e 3D a meter-nos meteoritos pelos olhos dentro. Afinal, a palavra mágica para se fazer cinema é “acção”.
Desminto-me, apesar de saber que não é mentira. A velocidade da vida é um cliché com que nos roubaram a preguiça, nos roubaram o andar consolado dum tipo a roçar-se pelas esquinas, a delícia do dolce fare niente, o estoicismo de uma sesta em frente ao mar. Por isso, nos melhores filmes, dando o que a vida tira, o cinema pára.

Vejam: Gary Cooper nunca se mexeu. A pureza, a pele infantil que lhe recobre o corpo enorme, sustenta-se na sua lentidão. Em “Sergeant York”, ou herói de Capra ou de Hemingway, o vagar de Cooper é sempre o mesmo: quieto e calado. E é devagar que, no mais belo dos americanos, vemos desenhar-se o essencial: a humaníssima natureza que perdemos, a bondade da inacção, a irrazoável confiança no devir.

 

Há uma galeria de heróis destes. São heróis solitários, de irrepreensível consciência moral. E são lentos. Ao lado de Gary Cooper, está Henry Fonda. Alto como ele, como ele desajeitado, tímido e taciturno. Até o corpo lhe pesa e Fonda alivia-se: no seu “Young Mr. Lincoln” e em “My Darling Clementine”, ambos do lentíssimo Ford, o actor deita-se debaixo de uma árvore ou senta-se num alpendre, sempre de pernas esticadas e mais altas do que o corpo, construindo irresistíveis ícones de elogio à calma contemplação das coisas e à sábia ignorância de si mesmo.

 

É lendária a lentidão de John Wayne na abertura e fecho de “The Searchers” e até o prodigiosamente veloz Howard Hawks se rendeu ao ocioso Bogart em “To Have and Have Not” e “Big Sleep”. Criaram uma tradição, assegurada até há pouco por Clint Eastwood e Gene Hackman, actores grandes, fisicamente descoordenados e lentos.
Robert Mitchum elevou esta arte a um patamar sublime: a cansada e absoluta imobilidade. Estilizando a lentidão, ao ponto de a tornar espessa e poética, Mitchum edificou uma improvável carreira de obras-primas. Invoco “The Lusty Men”, de Nick Ray, onde ele é a resignada solidão na solidão do filme. 

Qual é o segredo destes actores que tiram devastador sentido e significado da aparente indiferença da sua expressão? E qual o segredo de fazerem mover o mundo mantendo-se imóveis?
Segredo de homens. Só duas mulheres, Ingrid Bergman e Greta Garbo, se aconchegam à bondade da inacção, à lenta solidão de um “quero estar sozinha”.  Deus me guarde de pensar que eram homens.

 

Publicado no Atual do “Expresso” a 25/6. Sábado que vem, conta-se a história de um bom par de estaladas.

CENAS: “Blue Velvet”

Está cheio de demónios, está cheio de fantasmas.
Os demónios estão nos filmes passados de David Lynch. Os fantasmas vêm dos seus filmes futuros. Começa tudo com uma orelha. “Não sei porque é que tinha de ser uma orelha. Mas precisava de ser a abertura para uma parte do corpo, um buraco para outro lado… a orelha está na cabeça e é uma ligação directa à mente, portanto pareceu-me perfeito”.
Poderia ser uma frase de alguém encerrado há anos numa ala abandonada de um hospício – em boa medida, não é difícil imaginar o senhor David Keith Lynch metido numa camisa de forças. Para satisfação do mundo inteiro, os demónios e os fantasmas do senhor Lynch, que poderia facilmente confundir a mulher com um chapéu, são traduzíveis em imagens, e o seu génio não acaba na patologia mental. Lynch, como James Joyce, adoptou a “free stream of consciousness”, tornando indistinguíveis o lado escuro da lua e a face abrasiva do sol. Entrar num filme de Lynch é aceder ao cérebro quando este acabou de ser aberto, em vida – é tão assustador como isso. E os tais demónios, e os tais fantasmas, não vivem no escuro. Vivem em nós.

Ninguém queria enfiar-se em “Veludo Azul”. Só os suficientemente lúcidos para serem loucos. Val Kilmer, que não é nenhum menino de coro, declinou o convite para ser Jeffrey Beaumont, o jovem protagonista, por entender que o argumento era “pornográfico”. Hanna Schygulla, a musa de Fassbinder que é tudo menos pueril, e Helen Mirren, cuja nudez fez o entusiasmo dos espectadores dos anos 60, recusaram ser Dorothy, a Judy Garland sado-maso que paira sobre todas as cenas de “Veludo Azul”. Quando Lynch conheceu a modelo Isabella Rossellini num restaurante, foi tiro, queda e estrelato. Bobby Vinton, o intérprete da canção-tema, não quis o seu nome associado à “depravação” da fita e Roy Orbison, autor do lindíssimo “In Dreams” – síntese musical do universo de “Veludo Azul” — fez o mesmo (ambos acabaram por voltar atrás). Dino de Laurentiis, o canastríssimo produtor de pérolas como “King Kong Lives”, “Conan o Destruidor” e “Flash Gordon”, fez das tripas coração e defendeu o filme até às últimas consequências, garantindo que a fita estreasse quando ninguém mais a queria. Vários actores foram contactados para interpretar Frank Booth, o psicopata inalador de hélio, mas todos acharam a personagem repulsiva. Todos excepto Dennis Hopper, o filho maldito de Hollywood, que não descansou enquanto não garantiu o papel. “Eu sou Frank” disse a Lynch, e quem somos nós para duvidar?

Depois, há os mortos: no quarto da virginal Sandy Williams (Laura Dern, aquela actriz que parece estar em dores de parto sempre que sorri) vê-se um poster do estilhaçado Montgomery Clift, destruído em vida por um grave acidente de automóvel; o ambiente torna-se um negativo do Technicolor de “O Feiticeiro de Oz”, um filme que atormenta Lynch (basta ver “Wild at Heart”); as referências à morte de Abraham Lincoln, o presidente dos E.U.A. assassinado por John Wilkes Booth num teatro, são compulsivas (do nome do vilão, Frank Booth, à “terra de ninguém” de Lincoln Street); e é impossível olhar para Isabella Rossellini sem ver a mãe, Ingrid Bergman – quando Isabella/Dorothy sai de casa nua, corpo pesado, rosto em transe, não se consegue deixar de ver aquilo como uma usurpação além-túmulo da mamã. É também por isso que as fitas de David Lynch metem medo ao susto: ele esventra-nos o super-ego, descobre o que nos aterroriza, vira o mundo de pernas para o ar e não nos deixa voltar a pôr os pés em terra firme – é como ter o mais voraz dos pesadelos e não conseguir acordar. Nunca mais.

O início de “Veludo Azul” é uma verdadeira carta de intenções: há um céu de azul robusto e nuvens fofas, a cerca pintadinha de branco que faz a glória da América WASP, um relvado gentil. Mas no meio da relva há milhares de formigas devorando uma orelha humana.
Jeffrey Beaumont, interpretado pelo falso ingénuo Kyle McLachlan, regressa à paz de Lumberton, após vários anos na grande cidade, para visitar o pai, que está doente. É Jeffrey que descobre a orelha, e será Jeffrey a tentar descobrir a verdade, repondo o equilíbrio do Universo. Mas o Universo está doente: o detective que o recebe não lhe liga nenhuma e a filha deste, Sandy, não percebe o que se passa, embora lhe ofereça dois nomes, ouvidos entre paredes: Dorothy e Frank. Jeffrey resolve ir mais fundo, e penetra na toca do lobo, infiltrando-se na casa de Dorothy. Mas ela chega subitamente, e o rapaz não tem alternativa: esconde-se no armário do quarto. A partir daí, é puro Lynch.

O cinema, disfrutado no escuro, feito de espectros, larápios, demónios, fantasmas, magia negra, é a suprema arte dos “peeping toms”. Sempre que vemos um filme, no armário fechado da nossa psique, protegidos pelas sombras, olhamos furtivamente para alguém que não sabe que estamos lá: a personagem. Seguimos a sua vida, testemunhamos o seu fracasso, imiscuimo-nos na sua alegria, entramos na sua casa, na sua sala, no seu quarto. Na sua cama Toda a intimidade da personagem é nossa. Mais: muitas vezes, pressentimos o seu destino antes de ela sequer imaginar o que lhe calhou. Não é apenas a realidade da personagem que nos é permitido observar. O sonho dela também nos pertence, tornando-se o nosso sonho. Ou será que ela sabe que estamos ali, no armário dela, no nosso armário?

Dorothy/Isabella mergulha em veludo, Jeffrey espreita como um miúdo que descobriu anteontem os wet dreams, ela pressente-lhe a presença, chega Frank/Dennis Hopper, Dorothy rejeita-o, ele violenta-a, ela gosta, ele devora hélio por uma máscara, ele põe a língua dele no sexo dela, fazem amor como dominador e dominada na primeira manhã do Apocalipse e Jeffrey observa tudo à altura da adolescência: tudo o excita, tudo o repele.

David Lynch, o agorafóbico, confessou uma vez que observar furtivamente uma rapariga a despir-se, e a comportar-se como se ninguém ali estivesse apesar de saber que estava, era uma das suas maiores fantasias de adolescência. O resto, é a entrada no mistério terrível de um novo mundo.

Nothing that we see or have seen/ is but a dream within a dream

Singing in the rain

Verona, Novembro 2002

Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e uma Dinamarquesa especialista em energy bonds. Temos também um italiano desenhador de motores de formula 1, um espanhol de Alicante importador de mármores, uma contabilista de Kiev, um marketeer de Lyon, um outro de Atenas e ainda uma outra de Nova Iorque. E também uma catrefada de Italianos oriundos das muitas províncias desta terra. Depois há também uns meninos e meninas do papá vindos das Américas e do Sudeste Asiático que aqui vieram para encontrar vocação ou talvez só para gastar o dinheiro do mesmo, quem sabe. Ah! E há um português claro. Como é que me podia ter esquecido? Há sempre um português.

Durante meses, enturmamo-nos e guerreamo-nos em confrontos simulados, em apresentações fictícias, em debates ilusórios. Vivemos de Excel e Powerpoint. Desenhamos negócios, aprendemos as artes e os vícios da alta finança. Calculamos terríveis Futures e ainda mais sombrias Derivatives. Pensamos um mundo todo virtual. Todinho. Feito de e-commerce e de produtos invisíveis, que ajuntem máximo valor, custem o mínimo possível e se possam vender por muito dinheiro. Dinheiro. Aprendemos a fazer dinheiro. Aos montes. Para nós e para o outro, esse ilustre e anónimo vulto que entrou nas nossas vidas e que se chama shareholder e que aprendemos a amar e de quem tentamos perceber e adivinhar apetites e caprichos.

Mas os tempos são duros. Na maioria, despedimo-nos de bons empregos para poder aqui estar. Alguns endividaram-se com isso. Quase ninguém tem uma perspectiva de emprego. Manhattan explodiu o ano passado, a bolha das Dotcom também e estamos em guerra. Agora parece que vem aí mais uma. Vai ficar tão lindo o Médio Oriente a ferro e fogo. Londres não contrata. Milão fechou as portas. A Alemanha está parada. Trabalhar nos Estados Unidos para um não residente é uma impossibilidade. A Job Fair que aqui organizaram na escola foi um desastre. Apareceram meia dúzia de empresas Italianas de segunda a distribuir brochuras e pouco mais. Faltam duas semanas para a graduation e a coisa está a ficar feia para a maior parte de nós. Os ambicionados montes de fat green paper que todos esperavam que viessem, tardam a chegar.

Mas esta noite ninguém pensa nisso. Num comboio para Verona mandamos à fava a Finança, o comportamento das organizações, o e-marketing e a gestão de operações. Viemos quase todos numa espécie de catarse colectiva para limpar o espírito e aligeirar a alma. A bordo, no bar do comboio somos uns 30. Preparam-se Martinis a rodos e os mais prosaicos dão cabo do stock de cerveja a um desesperado barman das Ferrovie dello Stato. Bebe-se e dança-se. A real party on wheels! Só a Dinamarquesa dos energy bonds é que olha pela janela do comboio em movimento. Nos olhos alguma preocupação. Será que pensa no seu futuro? No futuro da economia mundial? Nos milhares de desempregados e nas suas famílias? No fim de um ciclo económico. Volta a olhar para dentro. — Looks like it´s gonna rain guys.….

Jamiroquai — Corner of the World - Live in Verona  - 11÷11÷02

Freud e Jung revistos por Keira Knightley

Os dois últimos filmes de David Cronenberg são extraordinários. Valem por si, mesmo que não soubessemos que eram assinado por ele.
Eu, que gosto do que gosto e detesto vir a gostar mais de qualquer coisa futura do que de uma coisa de que já gostei, receio que o próximo seja ainda melhor. É um filme sobre 8 decepções, as 8 decepções que sustentam a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, dois famosos malabaristas de um pouco mais do primeiro terço do século passado (Jung deixou-se andar, a fingir-se vivo, até aos anos 6o, mas isso mal interessa, por volta da 2ª Guerra o caso deles estava arrumado).

Este rosto, este corpo tenso que quase não se ajusta ao sofá, terão parte da culpa. Chama-se Keira Knightley e juro que nunca a tinha visto: só sei que dá corpo (a linda boca, os pequeninos seios, o tão esquinado recorte de ombros e, digamos, ancas) a uma das mais soberbas decepções que dividirá os dois irmãos fundadores de desavindas psicologias. David Cronenberg filmou tudo, e aparentemente filmou tudo com a confiança da linearidade, if you know what I mean. Para já, o trailer não me desmente.

Klaus Kinski
Queridos Mortos

Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. E quem sou eu para os desmentir. Se o próprio Herzog sofreu na pele os excessos do seu best friend Kinski, ao ponto de, segundo reza a lenda, o ter ameaçado de morte na rodagem de Fitzcarraldo, nada mais me resta senão juntar-me ao coro de todos (e são todos mesmo) os que dele guardam a imagem de um demente violento, narcísico e obsessivo, capaz de explosões coléricas em pleno plateau pelo motivo mais insignificante, de deixar pendurada uma equipa inteira de filmagem enquanto não lhe satisfizessem o capricho mais extravagante e outros devaneios do género.

Bastam umas breves pinceladas biográficas para nos rendermos ao lado atormentado da personagem. Uma infância e adolescência atribuladas em Berlim, que o levaram inclusive a ter de roubar para comer, o recrutamento forçado na Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial, a deserção e a rendição às tropas britânicas e o aprisionamento num campo inglês ajudam a explicar o seu comportamento pouco convencional. Foi na prisão, aliás, que começaram a despontar dois traços marcantes do seu percurso: o seu talento nas artes da representação, que deixou à prova nos espectáculos organizados para manter o moral dos seus colegas de campo; e o seu temperamento obsessivo, perto da loucura, bem evidenciado nos estratagemas que usou para merecer o privilégio da deportação reservado aos doentes: permanecer nu na zona exterior da prisão pela noite fora; beber urina, comer cigarros, e outros que tais. De regresso à Alemanha, decidiu apostar numa carreira de actor autodidacta mas só mais de dez anos depois – após alguns despedimentos, um diagnóstico de esquizofrenia e duas tentativas de suicídio falhadas – começou a adquirir uma certa reputação na Alemanha, Áustria e Suíça como spoken word artist e declamador de François Villon, Shakespeare e Oscar Wilde. No cinema, ao longo dos anos 50 e 60, vieram os filmes de guerra, uma especialização em personagens de Edgar Wallace, os western spaghetti, os série b e os exploitation movies, antes do reconhecimento internacional à larga escala com Herzog e o seu Aguirre, The Wrath of God, em 1972. A partir daí, muitos grandes mestres, de Fellini a Visconti, de Pasolini a Spielberg, quiseram tê-lo nos seus elencos, mas a todos deu negas, preferindo continuar a trabalhar com realizadores de menor notoriedade para nunca correr o risco de ver negadas as suas exigências de primadonna, para que lhe fosse sempre garantido, a ele e só a ele, o estatuto de grande estrela das produções em que entrava.

A excepção foi, sempre, Herzog, que cedo percebeu que pouco ganhava em domesticar o incorrigível feitio de Kinski e que, como nenhum outro, conseguiu capitalizar para o grande écran a sua raiva e agressividade. Por alturas da estreia de Aguirre, tinha onze anos de idade a sua filha Nastassja, que, para os seus detractores, foi aquilo que de mais relevante produziu em toda a sua existência. Embora tenha, em certo período da minha juventude, feito parte do grupo alargado dos que reconheceram estatuto de divindade a Nastassja, permitam-me discordar de tamanha injustiça. Um só nome, de filme e de personagem, bastariam para guindar Klaus Kinski à galeria da imortalidade: Fitzcarraldo, nome que lhe deram os indígenas de Iquitos que não sabiam pronunciar o nome do sonhador e idealista (Brian Sweeney) Fitzgerald.

Com Fitzcarraldo, Herzog conseguiu aproveitar a loucura de Kinski para os mais altos desígnios a que o ser humano pode aspirar. Numa época — a dos dias que correm – em que a cultura deixou de ser prioridade e é considerada pelos economistas que dominam o mundo como um gasto supérfluo e dispensável, a quixotesca empreitada de Fitzcarraldo – trata-se, literalmente, de mover uma montanha para levar uma ópera à selva amazónica – permanece como o último reduto de sonho que a cada um de nós pode e deve ser permitido. Numa era em que a cultura nem do seu factor simbólico se pode valer (até o Ministério da Cultura, ingloriamente, se foi), a simples ideia da música de Verdi ou Bellini, ou a voz de Caruso, terem o condão de apaziguar os espíritos malignos da natureza, ou de demover os temíveis jívaros – afinal, tão inocentes como Fitzcarraldo – do seu hábito de cortar e reduzir cabeças humanas é, no mínimo, reconfortante. Que me perdoem o cliché, mas haja uma ínfima partícula de Brian Sweeney Fitzgerald em cada um de nós, e teríamos certamente um mundo melhor. Para ficarmos ainda mais falidos, dirão os (sempre eles) detractores de Kinski? Talvez falidos, sim. Mas muito mais felizes. Que me perdoem, uma vez mais, as mentes lúcidas que fazem avançar o mundo, mas, se há imagem que me ocorre sempre que alguém se insurge contra um orçamento digno para a cultura, é a de uma cidade inteira em êxtase absoluto, em plena Amazónia peruana, com uma companhia de ópera a actuar no convés de um barco a vapor. E essa é, também, a imagem que guardo de Klaus Kinski: não o do insuportável cabotino que mais não fazia do que representar-se a ele próprio, mas a do idealista inocente, que move montanhas para levar a sua paixão até aos confins do mundo.

Uma coisa assim mais eyebrow

 

Não é o Fiat do meu pai mas vai ali a minha avó.

 

 

 

Deixe-me ser franca Sr. Norton: Não estou nada convencida que valha a pena entrevistá-lo. São cunhas do Sr. Fonseca. Ainda assim faz questão de dizer alguma coisa?

- Gostava imenso. E acha que pode pôr uma fotografia minha?

Despeje, vá. Não tenho o dia todo.

- Olhe viajei na selva. Na selva virgem.

Na selva?

É verdade. Fica ali ao fim da Rua da Escola Politécnica, antes do Mundo começar a caminhar para o Fim do Mundo. Eu devia ter três, talvez quatro anos. Tudo aquilo era imenso, tropicalíssimo, sufocante de verde. Tinham-me jurado que existia um lago no centro da selva. Uma coisa oitavada com uma gruta por baixo. De uma frescura intensa. E eu fui. Já lhe disse que usava botas ortopédicas? Imagina a dificuldade de atravessar a selva de botas ortopédicas? Pois é. Montámos o primeiro acampamento ao pé da casa do jardineiro. Romântica. De madeira. À sombra infinita de uma árvore de borracha. Daquelas que nos sussurram lendas primordiais ao ouvido, nas noites de verão. A partir daí continuei sozinho. A Maria distraiu-se e eu achei melhor deixar mulheres e crianças para trás. A minha irmã também se ficou, o meu irmão ainda não era, e o valente lá de casa era só eu. Durante uns tempos ainda vi o cume abobadado do castelo do meu avô, depois, aos poucos, o verde fechou-se, apareceram patos e fracas do tamanho de ursos, formigas gigantes e um bichos de conta que não me cabiam nos punhos. Palavra de honra! Agora pare lá a merda do gravador. Off the record ou lá como se diz. Comecei a ficar à rasca. Sabe como é? Um homem não é de ferro e o terror começou a instalar-se na minha alma de menino armado aos cucos. Não consigo precisar-lhe quantos dias andei assim. Eu e os meus pés chatos. O tempo não se mede em meses, muito menos em dias no coração angustiado de quem nos perde. Para a Maria foram anos, confessou-me ela depois. E eu só cheguei ao lago muitos anos depois.

Muito bem. Apresente os meus cumprimentos ao Sr. Fonseca.

Espere lá, espere lá! Ligue lá essa coisa outra vez. Quero falar-lhe do meu pai. Pode fazer-me aquela perguntas sobre as pessoas a que associo as viagens?

Sr. Norton, associa sempre viagens a pessoas?

Ora ainda bem que me faz essa pergunta. Queria falar-lhe do meu pai. Tinha um Fiat 125 que comprou ao meu bisavô. Começou por ser grenat. Ou grená como agora se escreve. Estofos cor de caca, escaldavam que se fartava no Verão. Depois pintou-o de verde escuro e até parece que passou a andar mais depressa. Mas do que eu queria falar-lhe era das viagens para Ponte de Lima. Nós éramos 5, com a Lucília ficávamos seis e não havia ano em que não sobrasse lugar para mais um primo. Partíamos invariavelmente de manhãzinha, no início de Julho. Um calor dos diabos e os estofos, já se vê, a merda dos estofos a dar-lhe. A auto-estrada, a bem dizer, era só uma amostra para enganar incautos. Ainda não nos tínhamos feito à dita e ela acabava num perigosíssimo repente. Ali para Vila Franca. Naquela época a ponte ainda era Marechal Carmona e tinha umas portagens todas giras, de tijolo. Mas para o efeito tanto faz porque seguíamos em frente. Cruzávamo-nos com o Zé na Azambuja e depois, ala que se faz tarde, Venda das Raparigas. O almoço normalmente ficava para Coimbra, já a larica era muita. Não consigo dizer-lhe o que comíamos porque o que nos impressionava eram os trolleys. Sabe o que são trolleys? Assim como os eléctricos do Zé (eu era mais o 24) mas com uns senhores pneus. Antes do Porto era certinho que alguém já tinha vomitado mas o meu pai tinha um jeitão para travar a fundo e a minha mãe levava sempre uma muda. Depois era Braga, a noite caía, parávamos religiosamente para fazer xixi ao pé de uma carantonha de granito e voltávamos a sair do carro para tentar abraçar o maior eucalipto de Portugal. Corvos, Anais (são nomes de freguesias, não olhe para mim com essa cara) e finalmente Queijada. Só primos eram trinta, os avós e os tios também se perfilavam no topo da escadaria e começavam oficialmente, ano após anos, as melhores férias grandes do Mundo.

Olhe Sr. Norton, não vá levar a mal, mas responde outro dia às perguntas sobre os hotéis, está bem? A nossa revista é assim uma coisa mais eyebrow, sabe como é? Cumprimentos ao Sr. Fonseca.

 

 

O século de Camões

 


saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já coa Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Se o século XVI não foi português, nenhum outro virá a sê-lo. As caravelas lusíadas atravessavam os mares. Cabral chegava ao Brasil, o Gama à Índia. E Colombo e Magalhães, um tocando a América, o outro circum-navegando o mundo, foram trânsfugas que a Coroa portuguesa sentou no colo de Espanha. A ousadia não tinha limites: Albuquerque pôs o Oriente a ferro e fogo, estabelecendo um Império. O escuro e hirsuto português comerciou com o Japão, aliou-se ao etíope, bordou de fortes e feitorias a costa de África, fortificou-se em Tuen Mun com ambição de conquistar a China do que o dissuadiu o terrível poder dos Ming e, num tratado desmesurado, dividiu com Castela, ao meio, o mundo por achar.

Foi nesse mundo novo, de especiarias e ouro, que nasceu e viveu Luis de Camões. No século em que pela primeira vez olhos europeus viram o Grand Canyon, a baía da Guanabara e toda a extensão do Amazonas, também os dele viram Ceuta, a Índia, a China, a costa de Moçambique, três oceanos, o pequeno mar que, depois de Gibraltar, separa e junta a Cristandade e o Islão, homens e mulheres de múltiplas raças, estranhas crenças. 

E é este Luis de Camões, de vivência universalista, que, a par das viagens, explorações e conquistas, ou também como expressão delas, faz do século XVI um século português. Mais claramente do que qualquer outra voz do século, Camões sente e pensa esse mundo novo numa poesia de admirável expressão épica e lírica.

Camões partilhou literariamente o seu tempo com Garcilaso de la Vega, Juan de la Cruz, Teresa d’Ávila, Christopher Marlowe, Gongora, Miguel de Cervantes, Pierre de Ronsard, Torquato Tasso. Parcialmente contemporâneos, John Donne e Shakespeare pertencem, no essencial das obras respectivas, já ao século seguinte. Comparada com as dos expoentes literários do século, a obra de Camões iguala-as no plano da emoção e apresenta, porventura, um superior fulgor filosófico. 

Habitantes desse século foram também, e por ordem de nascimento, Copérnico, Kepler e Ticho Brahe. Coube-lhes fundamentar uma ordem nova, deslocando o centro do universo conhecido, da Terra, que ajudaram a pôr em movimento, para o Sol. A missão de Lutero, outro contemporâneo, foi a de fragmentar a centralidade de Roma e a infalível entronização papal, enquanto Erasmo sublinhava a soberania da vontade e libero arbitrio como essenciais à condição humana. Também Maquiavel torna perceptível, pela primeira vez, a dinâmica em que radica o Estado, os mecanismos empíricos do governo das nações. Nem o Tempo escapou a essa onda avassaladora do novo: é neste século que se fixa o calendário gregoriano, acertando-se de vez o instável equinócio e corrigindo-se a medição do ano solar.

 Não sabemos, de quase nada sabermos biograficamente dele, se de Copérnico a Maquiavel tudo isto foi de conhecimento directo de Camões. Mas sabemos que o ar intelectual deste tempo foi também o do poeta. O mundo que “Os Lusíadas” retrata, “com saber só de experiências feito”, é um mundo de triunfo do empirismo subjacente à revolução científica que os quinhentistas Francis Bacon e Giordano Bruno conceptualizaram. E em “Os Lusíadas”, os mares por onde navega a armada do Gama são os mares que o planisfério de Gerardus Mercator revolucionariamente então representou.

Sem renegar um saber clássico, conhecedor de Aristóteles e Platão, infiltrado de neo-platonismo, o movimento do amor para a razão faz da poesia de Camões uma esplêndida interrogação da condição humana em termos que talvez não tenha paralelo nas figuras maiores da literatura do século: “Quem será que não julgue por celeste / a causa donde vem tamanho efeito, / que faz num coração / que venha o apetite a ser razão.”.

A sensualidade camoniana tem, por certo, correspondência na erótica de Donne e no lirismo amoroso de Ronsard. Prescientes do dualismo que Descartes afirmará triunfante no século seguinte, os poetas proclamam a soberania do corpo, dando luminosa e às vezes urgente expressão a uma carnalidade que os distingue do ascetismo místico, por arrebatador que seja, dos avilenses Juan de la Cruz e Teresa de Jesus. Do mérito e superioridade da experiência física e plenamente erótica do amor, Camões deixou testemunho liminar: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”

A liberdade erótica tem a sua expressão suprema na imaginária Ilha de Vénus, do Canto IX, povoada de Ninfas que “Nuas lavar se deixam na água pura”. Como prémio terreno para os heróicos trabalhos dos lusitanos “Em cristalinos paços singulares / … / Os esperam as Ninfas amorosas, / De amor feridas, para lhe entregarem / Quanto delas os olhos cobiçarem.” E não se nega aos sentidos o que os olhos cobiçam: “Acende-se o desejo, que se ceva / Nas alvas carnes, súbito mostradas”.

A par dessa exposta sexualidade, a poética camoniana exprime, ao mesmo tempo, uma consciência reflexiva e intelectualizada do “eu” que parece adivinhar o cogito cartesiano: “Que, como um acidente em seu sujeito / Assim coa alma minha se conforma / Está no pensamento como ideia / E o vivo e puro amor de que sou feito / Como a matéria simples busca forma”.

Rendendo-se consoladamente à palpável realidade de um impetuoso erotismo, Camões não deixa de ser herdeiro da tradição neo-platónica e, com ela, de uma cosmologia sustentada num mundo superior que não se reduz à realidade sensível. Por isso, se no épico as Ninfas vão “Nuas por entre o mato, aos olhos dando / O que às mãos cobiçosas vão negando”, o Camões lírico há-de cantar (ou já teria cantado) o quão cedo desses olhos a Alma gentil se parte descontente.

Em Camões, o Amor assume ainda a forma de superior conhecimento do mundo, nele se fundindo o conhecimento de si e do outro que é transformar-se o amador na coisa amada: “Não tenho logo mais que desejar, / Pois em mim tenho a parte desejada”. Essa oscilação entre a clara e distinta objectivação da experiência e uma subjectivíssima fusão cujo conhecimento é inalcançável para a mente humana, dá lugar à, tão lúcida como angustiada, meditação camoniana sobre a condição humana que estes versos exprimem: “Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Se o século XVI foi português, só terá sido por nunca, como nestes versos, a poesia escrita em língua portuguesa ter estado tão adiante do que racionalmente noutras línguas do seu tempo se escrevia: “Morrendo estou na vida, em morte vivo; / vejo sem olhos, e sem língua falo; / e juntamente passo glória e pena.”  

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que só como amadores os comentem. Os amadores nunca dispensarão os especialistas. Mal do especialista que, magnânimo, não deixe, como crianças, sentarem-se os amadores aos pés do artista.

Quantas voltas tem o mundo?


Apresentou-se como Rikio Hossback, redator do Travel Almanac. Vinha credenciado pelo sr. Pedro Norton, a mando do sr. Manuel Fonseca — as mais finas referências, portanto. Queria coisas, vá lá que não era vendedor.
Foi brusco de entrada, julgando que assim me desarmava e que eu já tinha o discurso na ponta da língua. Tinha-o era tomado de ponta, sem paciência para perguntas teutónicas.
Então? — disse.
Então o quê? — retorqui — Faça o favor de dizer ao que vem.
Era umas perguntinhas sobre viagens, hotéis, experiências dessas…
Não me apetecem inquéritos. Quero que lhe conte tudo como deve ser?
Se fizer o favor.
Serei económico. Relatarei apenas os transes decisivos.
Seja.

A primeira grande viagem de que tenho memória foi no elétrico nº 2, a riscar Lisboa ao meio, do Lumiar ao Martim Moniz. Ir à Baixa tinha o prémio de andar nas escadas rolantes do Grandella – um frisson impagável. Valia bem a pena as enormes e variadas horas truc truc por ali fora: Alameda das Linhas de Torrres, Campo Grande, Av. Da República, Estefânia, Campo Santana, S. Lázaro e enfim o descampado do Martim Moniz no sopé do castelo. Demorava mais a percorrer do que a contar; parecia um tarde inteira e quase dava pena desembarcar, tão entretida era a jornada. Muito mais tarde, li num conto de José Rodrigues Miguéis, acho que “Saudades para a Dona Genciana” (agora não tenho como confirmar), uma evocação lírica dos elétricos de Lisboa, em tudo igual ao que eu vivia a bordo do nº 2.

A segunda grande viagem, continuava eu a ser criança, era muito mais temerária. Minha mãe acordava-me de madrugada e íamos até ao Areeiro apanhar a camioneta para o Vale. Uma aventura infindável, ao longo de uns extensíssimos 50 kms, que obrigava a xixis preparatórios e farnel para o meio da manhã. Uma a uma, com método e minúcia, a camioneta dava conhecer todas as povoações, lugares e vilas entre Lisboa e Vila Franca, em todas resfolegando e vibrando as vidraças como numa derradeira etapa. Desembarcava-se na indolente Azambuja e havia ainda que esperar a carreira para Alcoentre, a qual evoluía agora com peripécias mais rústicas e informais. Era gloriosa a entrada no Vale: os miúdos a empoleirarem-se nas escadas traseiras de acesso ao tejadilho, as mulheres a virem à porta, os homens afastando-se do monstro para a berma, o revisor a saltar de repente em andamento para perseguir os tais miúdos. Poucas vezes consegui noutras viagens repetir tão plena sensação de “enfim chegámos”.

A terceira grande viagem foi assaz burguesa. No princípio dos anos 70, mesmo antes da crise petrolífera, a pequena burguesia portuguesa constatou que lhe sobravam algumas economias. Começavam assim os charters para Londres da Abreu, na famigerada Court Line. Essa minha primeira viagem de avião desiludiu: a terra lá em baixa passava devagar e não à velocidade estonteante prometida pelos 800km/h da aeronave. Em Londres confirmaram-se todas as lendas urbanas: os homens tinham cabelos compridos, as miúdas andavam de mini saia com imprevidência, os polícias eram gentis (eu vi uma hippie a beijar um bobby!), havia ajuntamentos de pessoas sem horror das autoridades, podia-se cantar e gritar nas ruas sem desacato e estava em cartaz o escandaloso “The Clockwork Orange”, que não me foi permitido ver. Aos 12 anos estivera no mundo – e era grande.

Dash Snow, “Untitled (Hell)”, 2005

Algumas tribos africanas mais avisadas, agarram nos rapazes, circuncisam-nos e largam-nos na floresta. Eles que voltem semanas depois, sobrevividos e já adultos. Nos anos 80, os jovens europeus, sem que percebessem, passavam por um ritual idêntico – chamava-se inter rail e foi a minha quarta viagem. De mochila às costas parti, com os meus pais a acenarem adeuses em St. Apolónia, um pouco preocupados. Estive um mês sem dar novas, nesses tempos sem telemóveis, nem trocos dispensáveis, nem vagar para informes. No regresso, fui lacónico nos relatos, para não os afligir, descrevendo apenas os episódios mais inofensivos: a parcimoniosa Hungria socialista, onde me impressionara um estendal urbano de cuecas como só as velhas mais soezas usavam em Portugal; a familiar Grécia, tão igual a nós, pois tudo recordava o passado glorioso e nada se mostrava interessante no presente; a circunspecta Viena de Áustria, sem migalha de paciência para mochileiros. Tudo o mais que vivi, ainda hoje creio ser extemporâneo relatar; deixemos correr mais umas décadas. O saldo logístico desse primeiro inter rail foi decente: um número igual de dormidas ao relento e em catres de albergue e zero sobras das 10 latas de atum com que me tinha aviado. Conheci quem fizesse pior.

A quinta viagem foi ao luxo. Na companhia de um senhor muito conhecido de todos vós, éramos dois executivos a caminho de Los Angeles com mordomias adequadas à nossa posição empresarial. Hoje será capaz de parecer irresponsável o que à época era banal e mesmo necessário para que os portuguesitos não desembarcassem em Hollywood com ares de remediados, mas de igual para igual com o resto do mundo. Ainda guardo os pijamas de bom algodão egípcio da First da British e em melhor cofre preservo as belas memórias de andar por Los Angeles como se lhe pertencesse. Já que podíamos, fazíamos vida de filme.

Não houve mais nada?
Houve muito mais, mas estas sobram para chegar onde estou. Só me resta declarar que ao contrário doutros cavalheiros, nunca me comoveu o que se passava portas adentro do La Chunga de Cannes. Been there, done that, digo eu armado aos cucos. Para que saibam, aquilo é hoje um restaurante de grandes janelas, com os interiores à mostra. Já não se guardam segredos.

Nada explica tudo

Foto: Julio Bittencourt

 Nada explica tudo
o que não é exactamente a mesma coisa que dizer que não há nada que explique tudo.
Talvez seja mais verdadeiro dizer-se que só nada explica tudo…

Segue-me

 

Estava a dormir e lembrei-me: neste século de abandonos, o momento em que estive mais próximo de recordar-me de Minnelli — sempre vai, vem sempre — e de Demy — vem e vai — foi em “Three Times” de Hsou Hsiao Hsien. Não sou grande fã do chinês. Vi “Flowers of Shanghai” por volta de 1998, em Cannes, com os críticos a chorarem que nem marias madalenas. É seca valente. “Millennium Mambo”, está tudo no título — um arrogante pechisbeque. Há alguma coisa para dizer de “The Puppet Master”, e muito para dizer acerca de “City of Sadness”, um longo portento mais difícil de encontrar do que uma primeira edição do “Tale of Two Cities” de Dickens.

Mas os primeiros oito minutos de “Three Times”: os primeiros oito minutos de “Three Times” são Minnelli levantado da tumba após quatro meses de Revolução Cultural, e Demy feito ladrão de bicicletas. Não é dita uma palavra, ouve-se apenas um excerto do “Smoke Gets in Your Eyes” dos Platters (quando era puto, os meus pais ouviam tanto isto que eu pensei que era a banda sonora da libertação sexual). Há um jogo de bilhar às três tabelas — o snooker é para maricas -, um breve passeio a duas rodas, a câmara levita sobre o asfalto, infectada pela paixão, barcos cruzam o rio, bailarinos, uma carta é entregue, e acabou.

Depois, há outras maravilhas, por outros tempos, três, urgentes. Mas o arranque do filme diz, a dançar: “Segue-me”.

Não há “you tube” que vos valha. É preciso ver no escuro, grande, grande, olhando para cima.

Já posso dormir.