Há pessoas que nascem para morrer novas. Há blogs que nascem para morrer garotos. E todos nós, ponho-me eu para aqui a achar, sempre soubemos que seria assim. Dois aninhos por fazer. Bem vistas as coisas, não é uma tragédia. Morremos, é certo. Mas morremos de felicidade. Pura, juvenil, inesperada. Que é cor das amizades e o feitio das cumplicidades que nesta campa, tal como no fado, nasceram a par. E a lenda, simples, singela, de nós todos - atrevemo-nos a esperar — talvez também reze um dia:
Quando os incautos passavam
junto à linda sepultura,
toda a gente afirma e jura
que os textos coravam
e o tempo parava para ninguém lhes tocar
Obrigado a todos, autores e leitores, pelos tempos felizes que se viveram aqui.
Sem ele, somos caveiras enterradas em terra de ninguém. Quem nos guiará ao paraíso?
Os relógios do tédio voltaram a funcionar. As crianças já não brincam entre as campas. O jardineiro viajou, e com ele as madressilvas. No topo da colina, as viúvas lançam os véus à brisa do rio, e os miúdos já não têm calças onde se agarrar, enxugando as lágrimas. Faz-se noite, há aves de olhos brilhantes.
Saio também, sem que ninguém note, e faz frio. Não posso voltar. Nunca se volta ao tempo exacto da felicidade. Excepto quando olho, de longe, para admirar a inteligência e a graça dos que ficaram. É tudo gente viva, e é preciso vivê-la para Vivermos. Love you, guys.
que sou! Parece mentira. Ainda por cima fui tão feliz aqui. Feliz com esta gente com quem bloguei e feliz com nossos ricos leitores. Dizer o quê? Merci, primeiro e antes. Au revoir, depois e ao fim.
O Gente Morta é melhor que deus, melhor que o diabo. A nenhum dos dois lembraria fazer dum cemitério um lugar de festa, a nenhum deles lembraria juntar queridos mortos e infames. A nenhum, deus ou diabo, tão obstinados e eficazes a pescar almas, passaria pela cabeça consolarem-se com o descarado onanismo de escrever por escrever, graciosamente.
O Gente Morta abre covas a rir-se, enterra pessoas sem vergonha e a bater palmas, faz raios X de nus e vestidos, converte o telefonema dum sobrinho numa short-story. É um blog sem sentido nenhum. E, por nenhum sentido ter, é o melhor blog do mundo. Um tipo, para deixar o Gente Morta, é preciso estar doido.
Foi o que, que estou doido, confirmou a minha junta médica, autorizando-me a sair com atestado. Saio hoje, deixando este cemitério, a única linda razão que me fazia estar na blogosfera.
Sei bem que nunca mais me vou divertir tanto, seja qual for o manicómio para onde agora vá. Sei bem que não encontrarei gente mais luminosa do que os 13 autores que faziam o favor de deixar-me acompanhá-los.
Estava aqui tão bem morto e vou agora arranjar chatices em ruas de carne e osso. Mas tem de ser: até a um morto se permite a peregrina ideia de licença sabática para uma vida sem vencimento.
Aos leitores do blog agradeço a gentileza de, até a mim, me terem lido. Asseguro-vos que, a partir de agora, vão ter-me como um rival furioso e invejoso nas caixas de comentários. Lutarei convosco pelo amor e aprovação dos maravilhosos autores que vão continuar o Gente Morta. À Turmalina, Luciana e Mr. Orcama, os mais historicamente fiéis e persistentes leitores e comentadores, praticamente cadáveres como os autores, protesto os mais vivos obrigados.
Antes que a porta se feche, abraço com descabelada efusão os mortos-autores, meus companheiros de dois anos. Admiro-vos. A dois, aqueles com quem abri os portões do cemitério, a Eugénia e o Pedro N, estampo-lhes na cara dois beijos choramingas e de fungada ranhosice. Adoro-vos.
Trocar umas galhetas, uns bons sopapos, era a atabalhoada arte da minha infância. Em Luanda, a caminho da escola, já se sabia que “quem vai à guerra dá e leva”. Os mais velhos do bairro, tipos com a vetusta idade de 17 a 20 anos, ensinavam-nos uns truques aprimorados.
a arte da bassúla
Capanga, era fazer com o braço a rija prisão do pescoço do adversário, cortando-lhe o pio e pondo-o a cuspir fininho por uns minutos. Bassúla, era meter a perna direita atrás do asqueroso inimigo e, com forte empurrão no peito, fazê-lo malhar de costas na poeira rubra, para gáudio da turma no recreio.
Brad Pitt, pai de “Tree of Life”, sabe destes arrebatamentos infantis e das funestas consequências metafísicas de só se levar sem se dar. Ensina aos filhos a nobreza do pugilato, ou seja, como enfiar um sonoro murro nos queixos de putativos contendores. O meu pai, pacifista e tendo por hobby a carpintaria, tentou ensinar-me a usar um serrote, a plaina, o esquadro e um torno, esperando converter-me no Harrison Ford do “Witness”. Atraía-me vocação mais inglória e canalha: resultado, socorri-me do cinema para sobreviver na aguerrida selva da meninice.
Por sorte, coincidiu-me a infância com a idade de ouro do peplum, filmes pintados a socos e golpes de Hércules, Maciste, David (tive uma fisga!), Golias e Spartacus, protagonizados por expoentes da representação como Jacques Sernas, Steeve Reeves, o marmóreo Charlton Heston.
Iniciávamo-nos com os gregos e algum direito romano: uma base sólida. Mas o alargamento de horizontes veio-nos da América. E foi nos westerns (tive uma espingarda!) que aprendemos a usar os punhos com liberalidade e clarividência.
Exaltante, nas sessões de pancadaria dos filmes de cow-boys, era a sua democracia. Toda gente molhava a sopa, toda a gente comia pela medida grossa. Havia um clima de festa naquelas abruptas trocas físicas. Lembro-me de John Wayne, em “McClintock”, filme de 1963. Há um brutamontes de espingarda na mão a dar cabo do juízo de todo o mundo, inclusive dos índios. Wayne, com paciência de Job, a mostrar-lhe o caminho da harmonia universal e o brutamontes, nada! Continua a escovar a alma de quem já não pode, mas tem de o ouvir. Wayne, com habilidade quase feminina, tira-lhe a arma e, como a culpa não deve morrer solteira, espeta-lhe o que então chamávamos um murro no céu-da-boca. Para espanto dos índios, meia centena de cow-boys desatam aos socos e acabam, aos baldões pela ravina arenosa, no lago de lama que os espera lá em baixo. A música vem gloriosa, na banda sonora, cumular de alegria toda a cena.
Nem em noites eleitorais há o mesmo júbilo. E o meu pai, no céu que tanto merece, bem sabe que ainda hoje sou capaz de serrar, com rigor irrepreensível, a primeira tábua que me ponham à frente.
Gosto tanto da algazarra da sequência do vídeo junto que, agora que saio do Gente Morta, não quis deixar de publicar extemporaneamente esta crónica do Expresso. Porque é assim que vou lembrar sempre este blogue que me acolheu: em festa.
Fora uma fotografia feliz. Era um ritual seu, o de as fotografar depois do duche que lhes apetecia, sempre, a seguir ao prazer. Mais do que nos momentos de intimidade partilhados momentos antes, era nesses instantâneos que nelas captava aquilo que Kundera chamara a “milionésima parte de diferente” que distinguia cada uma de todas as outras. Mas desta vez a diferença ia muito para além de milionésimos. E, por isso, ao contrário de todas as outras que saíam, ainda a pingar a água do duche, para não mais voltarem, desta vez quis o que nunca quisera. Que ela ficasse. Que ela voltasse. Que voltasse, uma, duas, três vezes, até ficar para sempre. Ela era, não tinha dúvidas, aquilo que Teresa fora para o Tomaz de Kundera. Ela era a síntese dos milhares de milionésimas partes de diferente (uma por noite nos últimos vinte anos, assim o provavam as fotografias) que somara ao longo da sua vida de predador. A essência viera, finalmente. Se era isto a que chamavam amor, ele aí estava em todo o seu esplendor.
Nunca percebera por que se fora ela, de forma tão repentina. Aquela sua cara, que ele captara a seguir ao duche retemperador do prazer, parecia ser a imagem da felicidade pura. Parecia. Mas ele sabia que ela não era uma mulher como as outras. Para o bem e para o mal, a sua diferença ia para além de milionésimos. Aparecera-lhe, assim, sem mais nem menos, para lhe mudar a vida. E mudara. Depois dela, nunca mais tivera uma mulher. Se não a tinha, pensava ele, não podia ter mais nenhuma. Porque a tinha para sempre. E tudo, por causa de uma fotografia que nunca mais o largou.
A partir de certa fase da vida encontrei a verdade essencial das mulheres nas palavras do velho pai de Dustin Hoffman (em Alfredo, Alfredo!…), que explica ao iniciado sem jeito e já quase encornado qual o segredo inefável do género feminino, essa espécie de lado oculto da Lua que o é no todo da vida no masculino. Diz o velho (e eu, que o repito muitas vezes): “As mulheres são seres misteriosos e imprevisíveis e, meu filho, é exactamente por isso que nós gostamos delas”.
A Rikio não fugiu à regra: foi imprevisível e de certo modo misteriosa.
Apareceu-me aqui no Porto. Levei-a a almoçar num sítio à beira-mar, que adorou, diga-se de passagem, em particular um robalo de mar com algas, acompanhado de um quilito de percebes e de gélido Alvarinho. Na conversa que fomos tendo surpreenderam-me duas coisas: uma foi a graça serena dos seus movimentos que, no entanto, não escondiam um vigor pulsante, como que pronto para no nico dum segundo mudar radicalmente de tensão; a outra foram os seus gostos musicais – que, misteriosamente, se misturaram com alguns dos os meus: Can, Faust, Mozart, Stockhausen… Conhecera mesmo Damo Susuki, o vocalista japonês dos primeiros (que por sinal foram alunos do último).
Logo ali, em plena esplanada, já amorenada dum sol a que a sua milimétrica vestimenta pouca ou nenhuma resistência oferecia – usava uma fita como top e um cinto como saia –, Rikio obrigou-me a ouvir uma das suas peças preferidas: em tempos assistira a uma das instalações sonoras do grão-mestre alemão da música elctro-acústica, e tinha no seu laptop um excerto gravado de Helikopter Streich Quartett.
Como seria óbvio a todos – menos a mim, que nunca me preocupei com o que o sol pode fazer à pele (sobretudo quando muito branca, dum tipo quase lácteo que o meu empirismo praticamente desconhece) – às quatro da tarde estávamos no hotel dela, ela estendida na cama que nem um escalope de salmão com listinhas, eu magnetizado pelo espectáculo poderoso das minhas mãos untadas de creme gordo, já bem esfregadas uma na outra, e completamente preparadas para aliviar algum sofrimento à pobre jornalista germano-nipónica.
Ao fim dum certo tempo, já de ardores aceitavelmente acalmados, a Rikio pediu-me para trabalharmos um pouco naquela coisa para o tal almanaque das viagens do Manuel.
Rikio – Qual é a tua mais antiga memória de viagem? Eu – Para uma criança de quatro ou cinco anos ir do Porto a Baião num Volvo marreco já era coisa impressionante. Essa deverá ter sido a primeira coisa que se pode assemelhar a uma primeira viagem. Rikio – Algo mais substancial… A tua primeira viagem de avião, por exemplo… Eu – A primeira vez que voei? Bem…, isso aconteceu lá para os 14 anos, quando fugia às aulas em Espinho para ir até ao aero-clube de Paramos. Gostava imenso do local, das dunas, da Barrinha de Esmoriz, dos aviões. Foi assim que uma vez consegui boleia numa Tiger Moss e fiz o meu primeiro looping… Rikio – Viagem, António, é viagem que eu quero… Eu – Áh bem, ok… Pode-te parecer um pouco estranho mas a minha primeira grande viagem de avião foi a caminho duma comissão de serviço, como militar, em Angola. Rikio – Um impacto irrepetível, o da primeira viagem, claro! Eu – Hmmm… Sssssim… Agora que penso nisso acho que sim. Adorei assistir lá de cima à aurora e ao ocaso, passei a viagem de nariz espetado no quadradinho transparente que me cabia no magnífico Boeing 707 da Força Aérea Portuguesa. Assisti pasmado a uma tempestade eléctrica à vertical de Dakar, pasmei mais ainda com o vermelho da costa angolana, em contraste absoluto com aquele azul do mar. Finalmente, levei um murro denso no corpo todo quando a porta do avião se abriu e eu mergulhei por inteiro na atmosfera dos trópicos. Por momentos pensei que me ia dar a sofeca… Rikio – Sofeca?… Eu – O badagaio… Rikio – O badagaio?!… Eu – Sim, a sofeca, o badagaio – algo como morrer… Rikio – E então? Eu – À noite, de copo de whisky na mão, rodeado de mulatas (e não só), percebi que Angola já se apoderara por inteiro da minha alma… Rikio – Associas sempre as viagens a pessoas? Eu – Aí só não posso dizer nunca. Rikio – Tudo muda quando se passa a viajar profissional. Já nem se olha lá para fora! Eu – Nada disso. Algumas das minhas melhores viagens foram exactamente profissionais. Olho sempre para fora, para os lados, para dentro, por dentro… Rikio – Preferes os hotéis de luxo ou os familiares? Eu – Há coisas excelentes ou tenebrosas em todas as categorias e lugares. Rikio – O dinheiro é importante quando se viaja? Eu – É. Rikio – Num hotel, por ordem de importância, o que é que mais valorizas? Eu – Conforto geral, vista, serviço, localização. Rikio – Imagino que tenhas episódios pitorescos… Eu – Devo ter vários, de certeza, mas há um de morrer. Passou-se num voo entre a Ilha do Sal e a Cidade da Praia, em Cabo Verde. O avião era um Casão – uma espécie de autocarro com asas onde se entra pelas traseiras por umas portas tipo saloon. Pelo menos estas eram do tipo saloon, porque mal a geringonça saiu do chão elas abanavam de mal presas que estavam por uma corrente de aspecto manhoso. O momento dramático aproximava-se, inexorável. De entre o gado variado que seguia no atafulhado Casão destacava-se um estupor duma cabra que não parara de espernear e guinchar desde que deixara terra. A dada altura, fosse por o dono ser pouco expedito, fosse porque o espernear atingira o seu pico de desespero libertário, solta-se a cabra no corredor – onde começa a evoluir em derrapagens descontroladas em direcção às portas do saloon!… E nelas ficou presa até que o solo da Praia, já firme e quieto, permitiu complicada e sobretudo ruidosa operação de caprino resgate. Rikio – Do passado, em viagens, de que é que tens mais saudades? Eu – De conhecer. Rikio – Já perdeste as malas? Eu – Nunca. Mas fiz contrabando. Rikio – Contrabando?!… Não acredito! De quê?… Eu – Isso não posso dizer… Pelo menos aqui… Rikio – Ameaças de acidente? Eu – Tive uma fase da minha vida em que, estranhamente, ganhei medo de andar de avião. Nunca tivera, passei a ter. Depois de Angola. Depois de aterrar alegremente em 50 metros de pista de terra batida, nos aviões mais ronceiros (ou não) que já vi na vida. Nessa fase de medo qualquer voo era uma ameaça de acidente. Entretanto passou. Rikio – Pior: já viajaste ao lado de pessoas famosas? Eu – Elas sim!… Rikio – E nos hotéis? Eu – Que me lembre não, sou muito distraído.
No fim, perto da hora de jantar, saí para mudar de roupa e trocar o descapotável por uma berlina mais aconchegante.
A noite aconselhava, esfriara bastante.
Pedindo desculpa a todos (a começar pelo dottore) por ter sido chato como a potassa, aqui deixo o breve texto que publiquei há um mês na revista “Sábado” sobre “The Tree of Life”:
“O pior melhor filme que vi em anos.
Explico-me. Ninguém filma (e filmará) como Malick. Com cinco filmes em trinta e oito anos, é um grande chato para alguns, e um génio para muitos. Os seus filmes são variações míticas – os campos de cereais no Midwest da Depressão pelos anos 20 em “Os Dias do Paraíso”, os campos de batalha do Guadalcanal na II Grande Guerra em “A Barreira Invisível”, os campos de sangue da América autóctone, violada pelos conquistadores europeus, em “O Novo Mundo” — sobre o mesmo tema: a perda da inocência. A mensagem prolonga o tema: “aceitem a fragilidade humana; reconciliem-se com Deus; compreendam a Natureza”, sugerem os sons e as imagens, belos como os rumores do oceano, ardentes como tochas na floresta da escuridão.
Qual é o problema? O problema é que “A Árvore da Vida” é um filme-mundo, como o “2001” de Kubrick ou “O Sacrifício”, de Tarkovsky. Desta vez, Malick apontou para as estrelas. Cosmos, Vida, Deus, Amor, Morte, tudo pende desta “Árvore”, e é traçado o percurso do Universo desde o Big Bang (a sério, é mesmo isto) até à extinção de noventa por cento das espécies do planeta Terra (incluindo os dinossauros). Entretanto, há a história de uma família americana num subúrbio idílico dos anos 50. O pai (Brad Pitt) cede às pressões no emprego (é a batalha entre Natureza e Civilização de todas as fitas de Malick), as mensagens aos filhos pré-adolescentes, sobre a força necessária para vencer na vida, são redobradas, a mulher (Chastain, uma ruiva de Botticelli) resiste à violência, um dos miúdos morre, e a inocência perde-se.
As imagens são de uma beleza por vezes deslumbrante – gotas de água, um vestido verde, duas cortinas, bolhas de sabão, os pés de um recém-nascido – mas a mensagem da voz-off (lírica em “Dias do Paraíso”, elíptica no extraordinário “O Novo Mundo”) repete incessantemente o essencial, e a beleza vai cedendo ao peso da redundância. No fim, até as imagens reverberam, ecoando, cansadas, sempre a mesma rendição ao mundo, o mesmo “Anda lá, deixa-te ir”, a mesma nota no piano que tanto nos refrescava, e comovia, no início.
Reflectir sobre a Humanidade, e fazê-lo poeticamente, não é para todos. Homero chegou lá. Shakespeare, e Caravaggio. Ao imaginar o seu filme-mundo, Malick cedeu ao peso excessivo do sonho. “A Árvore da Vida” é um filme falhado. Mas é um magnífico falhanço.”
E acho mesmo que há um certo produtor português que ainda irá, um dia, conceber filmes mais significativos do que este.
Aqui há uns bons anos deu-me para fazer histórias em rimas bebés. Já se sabe, para bebés, bebezices. Primeiro, eram pessoais e intransmissíveis como um presente é. Como eram gostadas, apeteceu-me fazê-las para as crianças. E fi-las. Variadas: desde personagens da história, a histórias já mil vezes contadas e mais uma vez recontadas, ou de assuntos quotidianos. Pensei mesmo em pedir que me amanhassem uns desenhos para as apresentar a uma editora. Mas nunca fui boa de pedidos, não houve desenhos, não apresentei. Foi bom assim mesmo. Diverti-me a fazê-las. Hoje encontrei uma. Fiquei contente: fui logo roubar um Rato. Aqui.
O RATO DOUTOR DIZ: SÓ É VALENTE QUEM TEM MEDO
Estava deitado
Quase a dormir
Bateram-me à porta
Eu fui abrir
E para meu espanto
Muito espantado
Quem é que estava
Do outro lado
Quase rente ao chão?
Um Rato tão pequenino
Bem mais baixinho
Que a pata do meu Cão
E carregado com um enorme malão…
Então vê-me neste estado
Morto de cansado
E não convida para entrar
Que falta de educação!
E quem é o senhor?
Ora essa! Sou o famoso Rato Doutor
Aqui ninguém está doente
Mente mente mente
Tanto que lhe abana o dente
Da frente
Não sabe que de mentir
Até um dente lhe pode cair?
É vá de rir, o Rato Doutor, todo contente
Da mentira convincente
Vá, ande, mostre a língua
Como se fosse malcriado
E deixe auscultar esse chiado
Não fuja
Não vê que não lhe faço mal
Faço-lhe bem, aqui ou no hospital
Dou-lhe remédios e mesmo picadas
Às vezes doem um bocadinho
Outras nem se sente, é cuidado mansinho
Seja valente seja um samurai
Se quiser gritar ai ai
Faça um kiai
Sim, mesmo os guerreiros
Mais que poderosos
Sentiam medo, mas deixavam-no sair
Disfarçado…
Porque eram vaidosos
Não queriam chorar
Respiravam fundo
E toca a gritar
Antes de atacar
Força. Grite tudo uma só vez:
Um grito assusta o medo, fá-lo passar
E ficar calmo para se tratar
Depois de tratado
Vou para outro lado
Com o meu malão
Vou bater à outra porta
De outro valentão.
Foi em Julho de 1976 — faz por estes dias 35 anos. Pela primeira vez na história das modernas olimpíadas, uma prova de ginástica obteve um 10, a máxima classificação possível. O feito, que o marcador electrónico, impreparado para tal eventualidade, assinalou com um desconcertante 1.00, haveria de repetir-se por mais seis vezes nos dias subsequentes. A protagonista, sempre a mesma: Nadia Comaneci, romena, com apenas 14 anos, a quem a prodigiosa sucessão de sete provas com o score 10* fez ganhar cinco medalhas** e um merecido e incontestado lugar na história.
Eu tinha 9 anos e estava de férias. Vagueava dias inteiros numa preguiça sem fim à vista que muito me agradava, entre os meus livros, os Legos do meu irmão e as constantes incursões na casa do outro lado do patamar, para fazer palavras cruzadas a meias e ver na televisão as transmissões dos Jogos Olímpicos de Montreal com o meu Avô. Foi sentada no chão, encostada ao braço da sua poltrona, que vi o primeiro 10 e todos os que se seguiram. Tinha por essa altura uma vaguíssima ideia de que existia um país chamado Roménia e nenhuma do que por lá se passava. E estava longe de imaginar o que seria a vida daquela miúda magrinha, de olhos escuros e cabelo apanhado em totós. Gostei de a ver derrotar sozinha o exército de espernéficas ginastas russas. Encantaram-me o seu ar concentrado e sereno e a forma graciosa e aparentemente effortlessly com que fazia aqueles exercícios tão difíceis. E também o ar de girl-next-door, como se o ser-se assim extraordinário estivesse ao alcance de qualquer um.
Seguiram-se mais férias e mais jogos olímpicos, mais proezas e mais deslumbramentos. Mas poucas imagens me tocam, ainda hoje, como estas. A preto e branco, evidentemente.
*Três na competição por equipas e quatro na competição individual, nas provas de paralelas assimétricas e trave olímpica.
Quando escolhi esta imagem, escolhi-a para mim mesma. O riso é uma afronta, é-o a toalha amarela. Demasiado luminosos, demasiado óbvios, quase vulgares. Ou nada disso, apenas de uma felicidade simples. Queria saber se conseguia escrever sobre essa felicidade, em vez de me deixar levar uma vez mais a pôr a imagem em tons negros. Eles estão lá, claro, todo o fundo é negro e esse negrume vive tão intensamente na imagem como o riso. Podíamos escolhê-lo, mas são a pele dela, o riso aberto e o amarelo que nos prendem.
Reparo que não vejo a mulher inteira, vejo partes dela e talvez seja isso o que me foge. É uma mulher aos bocados. E, quase sem querer, não lhe reconheço a felicidade, que dói de tão nua.
Para lá de pessimismo ou melancolia, há uma certa preguiça neurasténica em escrever sobre o mais negro em nós. Não acredito que as vidas felizes não tenham história, mas não sei se são possíveis de contar… ou antes, claro que são, mas não sei como, a não ser em musicais.
Ignoro se o erro é meu ou dela, ou do narrador que é o fotógrafo desta história… vê-la partida é um contra-senso porque sei que ela é uma. É o meu olhar que se parte. Não o aceito, mas também não consigo aceitar a inteireza da imagem que nos dá. E, no entanto, devia ser assim: total. A felicidade por nada. Mas também devia ser, como diz a Eugénia, uma disciplina, uma higiene diária, como o duche pela manhã. Essa é a felicidade real, a que conquistamos, a que nos mantém sãos … e limpos. É a felicidade de não nos deixarmos levar pela torrente dos dias, pela entropia da idade adulta e pelo cinismo da ingratidão. A felicidade extraída do quotidiano. E é tão importante e tão certa.
Mas anseio uma felicidade além dos pequenos ou grandes prazeres, além do que fazemos por nós. Uma felicidade que pára as horas e nos dá os segundos eternos. Sem quando e sem onde, quase sem mim. Ser tudo certo, de repente. É uma felicidade do “sim”: um sim total e abrupto, sem razões, práticas ou amores que o causem. A rendição a algo que vem de além de nós para o qual nos abrimos e que deixamos entrar. A beatitude aqui e agora, a suprema alegria.
E, não esquecer, um bom duche e toalhas tolas amarelas.
“Carlito’s Way” é o mais belo e triste filme de Brian de Palma.
Quando era adolescente, De Palma viu os pais metidos num divórcio violento. O papá andava a trair a mamã, as discussões não paravam, ela fartou-se. O puto ficou abalado com o assunto, mas começou a seguir o pai – a traição também era assunto dele. Alugou uma câmara e espiou. Em esquinas de avenidas, à sombra das àrvores, nos prédios em frente à rua onde o pai consumava os pecadilhos.
Todo o cinema de Brian de Palma é baseado num sentido irreprimível de voyeurismo, e o realizador já reconheceu a influência desse episódio de juventude. É um cinema visceral, fetichista, misógino, alucinogénico – mas não é assim boa parte do Cinema?
Os seus filmes são tanto buracos de fechadura insinuando a história das imagens que já se fizeram – há cópias, homenagens e citações de Hitchcock, mas também de Eisenstein, Howard Hawks, Don Siegel, Antonioni – como labirintos, janelas, passagens secretas para outros tantos filmes do próprio De Palma. Nenhum cineasta tem uma obsessão tão radical por outro como De Palma tem por Hitchcock – “Obsession”, de 1974, é uma verdadeira réplica gótica de “Vertigo”. Mas o italo-americano gosta sobretudo de construir espelhos que o duplicam a si mesmo: como escreveu Pauline Kael, ele é o grande realizador da cultura pop (pelo menos até aparecer um tal de Tarantino).
De que é que se fala quando se fala de Brian De Palma? De louras, antes de mais: Michelle Pfeiffer em “Scarface”, Melanie Griffith em “Testemunha de um Crime”, Rebecca Romjin Stamos em “Femme Fatale”, Scarlett Johansson em “Black Dahlia” (a lista é fastidiosa). Mas há também enleios por estações de comboio ( os desenlaces de “Blow Out”, “Os Intocáveis”, “Carlito´s Way” ou “Missão Impossível”), elevadores (para o sexo, para a morte e para o sexo-morte em “Sisters”, “Vestida para Matar”, “Os Intocáveis” e “Carlito´s Way”, outra vez), vigilâncias furtivas (Craig Wasson a observar Deborah Shelton/Melanie Griffith em “Testemunha de um Crime”, Antonio Banderas espreitando Romjin Stamos em “Femme Fatale”).
Depois, a assinatura; os travellings circulares, presentes nos abraços amorosos de quase todos os seus filmes, de novo estirpados de Hitchcock.
No seu pior, De Palma é um formalista estéril, uma espécie de idiot savant. No melhor, leva o jogo das duplicações – as fitas estão carregadas de gémeos, sósias, personalidades duplas, atormentados doppelgangers — até à abstracção, como no genial “Femme Fatale”. Mas a nota dominante dessas óperas escarlate é o pessimismo. As personagens mentem, aldrabam, escondem, matam, sempre na vaga esperança de sair imunes. Fracassam sempre.
Na abertura de “Carlito´s Way”, um traficante de droga porto-riquenho recém-saído da prisão chamado Carlito Brigante (Al Pacino) está a morrer numa maca, transportado por polícias e enfermeiros ao longo de um dos terminais da Grand Central Station, Nova Iorque.
Filho do Harlem hispânico, Carlito não vai para novo, e está decidido a deixar a “vida”, regenerando-se. Mas, como sucedera ao velho Michael Corleone de “O Padrinho III”, they pulled him back in. O advogado que o safara de pena mais longa, David Kleinfeld (um Sean Penn com nariz falso e problemas de calvície), está tão enfiado em ilegalidades e cocaína como o Tony Montana de “Scarface”, e irá arrastá-lo para o abismo, que Carlito tenta evitar a todo o custo. Pacino atravessa o filme como uma marioneta, uma coisa de homem, movendo-se sem parar para não desaparecer de vez. É o assomo de alguém que sabemos ir morrer antes de as luzes se acenderem. Assistir ao seu esforço, à vã energia, à luta contra a inércia, à terna exaustão, é assistir a um dos grandes momentos da carreira do actor – ninguém é tão hipnótico no desespero como Pacino.
A única ponte entre Carlito Brigante e a realidade é Gail (Penelope Ann Miller), uma aspirante a actriz que se apaixonou por ele antes do exílio prisional, agora bailarina de striptease para manter os sonhos ilusórios. O sonho de Carlito é pegar em Gail, desaparecer de N.Y. e montar um negócio de aluguer de automóveis em Paradise Island, nas Bahamas. Coisa simples. Acontece que “Carlito’s Way” é neto do film noir, e Carlito é a sua alma marcada.
A cena surge quando a ilusão da fuga ainda parece possível.
Chove a cântaros, e Carlito não vê Gail há cinco anos. Cobre o pescoço com as abas do casaco e atravessa as ruas vazias, de tempo suspenso como num musical de Jacques Demy. Só há carros de cores vivas, vermelhos, azuis, brancos, parados em semáforos de pedra. Carlito aproxima-se de Gail, mas pára a poucos centímetros dela, e ela não nota – é a vida das marionetas. Gail fecha o guarda-chuva e sobe as escadas, Carlito olha para o prédio em frente, e a sua decisão é puro De Palma: não consigo tocar-lhe, mas irei vê-la ao longe.
No terraço do prédio oposto, Carlito pega na tampa de um caixote de lixo para se abrigar da tormenta, como o desgraçado que é, a coroa de princípe dos bairros de lata, na morte cansada que o vai levando. Olha para as grandes vidraças de um estúdio de ballet, onde Gail é a única pele doce que jamais conheceu, essa flor à beira do pântano, far from the madding crowd. E fica ali, à chuva, de olhos arregalados, como as crianças dos housing projects, como os rapazes que descobrem o amor, como os homens que pressentem a vida que jamais terão. O espectro do antes olha para o espectro do depois. Gail, “a única cara que me conhece”. É o mais puro voyeurismo, e o mais puro cinema.
Li, há uns anos valentes, um livro que mudou radicalmente a forma como via mas sobretudo como “sentia” a segunda grande guerra. É bem verdade que não foi o primeiro nem o último. O tema sempre me suscitou curiosidade e os livros, históricos, biográficos, romanceados, há muito que se acotovelam na desordem aparente que é a minha biblioteca. Também é verdade que nunca é inteiramente possível “experimentar” a segunda guerra mundial como objecto de simples reflexāo intelectual. Ainda hoje guardo na memória o olhar angustiado de um rapazinho que um dia teve a minha idade e que sobreviveu no genérico, cem vezes repetido, do fabuloso documentário com que a BBC assombrava as minhas tardes de meninice ao Domingo. Mas foi com “Se isto é um homem” de Primo Levi que o conflito de 39 — 45 tomou para mim uma dimensão verdadeiramente humana. A escala não é a das grandes batalhas, a tragédia não é a das grandes opções políticas e geo-estratégicas. Os personagens não são os heróis míticos nem os génios amorais que escreveram as linhas maiores da História. A miséria, muito pelo contrário, tem tamanho de homem, a angústia cabe no peito de um rapazinho, a batalha mais impressiva é a que opõe um pai e um filho e o seu objectivo é a conquista de um simples pedaço de pão. Algures, num comboio sobrelotado a caminho de um campo de extermínio.
Tudo isto, embora nada pareça, vem a propósito da crise grega. Que, é bom não esquecê-lo, não é essencialmente grega e muito menos é sobre dívida soberana, agências de notação financeira, ou mais uma dúzia de conceitos relativamente abstractos. A crise dita grega é a crise de um dos projectos de paz mais fabulosos da história da humanidade. Filho dos horrores dilacerantes e muito concretos da segunda grande guerra e de um par de estadistas que os vivenciaram.
E assim regressamos a Primo Levi. Tenho para mim, é uma tese que vale o que vale, que a crise da Europa é a crise do desaparecimento dos últimos líderes que viveram, experimentaram, sofreram, directamente, o horror da segunda grande guerra. É a crise do desaparecimento de uma geração de líderes, mas também de cidadãos em geral, que conheceu o terrível preço de uma alternativa ao projecto de unificação europeia. Para quem os custos que agora paralisam e parecem condenar a Europa mais não seriam do que risíveis minudências quando comparados com a tragédia da simples ameaça, por mais ténue que possa julgar-se, de um conflito continental. A crise da Europa, que só metaforicamente é grega, é pois uma crise de memória. Memória viva, memória vivida, que não tem a Sra. Merkel, o Sr. Sarkozy, o Sr. Barroso, mas que também não têm os milhares de gregos, espanhóis e portugueses que protestam na ruas, como não a têm os milhões de eleitores e contribuintes alemães ou finlandeses.
Tenho uma certa tendência para o pessimismo. Dêem-me pois o devido desconto. Mas, feito o aviso, estou absolutamente convencido de que o que andamos a discutir na Europa é a viabilidade de legar aos nossos filhos os anos de paz que herdámos dos nossos pais. Postas as coisas assim, concordarão que o preço a pagar — apareça ele sob a forma de sacrifícios financeiros ou de cedências de soberania — será sempre pequeno demais.
ESTÁ LÁ? DAQUI FALA O OVO
Adoeci — já foi há duas semanas, ou mais. A minha irmã, porque é mais nova, aproveitou logo para se armar em usurpadora que é o que sempre faz quando me ponho a jeito, isto é, armou-se em mais velha.
A usurpadora ao telefone:
– estás medicada?
A vítima da usurpação:
– todos os dias do mundo tomo uma fartura de vitaminas, mais ácidos gordos e o que raio aquela gente enfia nos comprimidos, não achas que chega?
A usurpadora ao telefone:
– vou dizer à Mãe.
A vítima da usurpação:
– és mesmo queixinhas.
A usurpadora ao telefone:
– comeste?
A vítima da usurpação:
– e o teu filho mais velho, comeu?
A usurpadora ao telefone:
– já começa a desconversa. Olha, ele está farto de dizer que quer ir brincar contigo, andou a patear a casa toda, a fazer bum-bum, a rugir — são as lindas coisas que tu lhe ensinas-, e já foi dizer ao pai: Pai, precisa lanterna pa vê enómes pegadas de dinossauo. Quando lhe disse que estavas doente, foi buscar a maleta de médico. Vou-te levar uma sopa. Sopa sei que comes sempre.
…
A maleta do meu sobrinho tem um estetoscópio, um martelo de reflexos, aquela coisa de ver os ouvidos, outra para a língua, sabe Deus mais o quê, e um telemóvel de serviço. Depois de me auscultar para ouvir os miaus, de me bater nos cotovelos e na barriga para ver os reflexos – é um método novo, do melhor que há -, de me mandar abrir a boca, escancarar os olhos e espreitar os ouvidos, rezou-me a sentença:
– ponha água, Tatia, vai passá. Dou beijinho. Já passou!
Eis senão quando, e já curada por milagre em nada inferior ao dos leprosos, me diz, passando-me o telemóvel:
– o tufone, Tatia, é pa si.
– quem é?
– é o ovo de um dinossauo muito gande!
A medicina e a paleontologia são unha com carne, é o que é.
A vida vai depressa, o cinema vai a 24 imagens por segundo. A mesmíssima velocidade. Ao som e fúria de cada dia – um apartamento que explode, a histeria duma ama numa creche, o pandemónio do e.coli ou a violência no Iémen – o cinema responde imitando a vida: som Dolby a rebentar pelos quatro cantos da sala e 3D a meter-nos meteoritos pelos olhos dentro. Afinal, a palavra mágica para se fazer cinema é “acção”.
Desminto-me, apesar de saber que não é mentira. A velocidade da vida é um cliché com que nos roubaram a preguiça, nos roubaram o andar consolado dum tipo a roçar-se pelas esquinas, a delícia do dolce fare niente, o estoicismo de uma sesta em frente ao mar. Por isso, nos melhores filmes, dando o que a vida tira, o cinema pára.
Vejam: Gary Cooper nunca se mexeu. A pureza, a pele infantil que lhe recobre o corpo enorme, sustenta-se na sua lentidão. Em “Sergeant York”, ou herói de Capra ou de Hemingway, o vagar de Cooper é sempre o mesmo: quieto e calado. E é devagar que, no mais belo dos americanos, vemos desenhar-se o essencial: a humaníssima natureza que perdemos, a bondade da inacção, a irrazoável confiança no devir.
Há uma galeria de heróis destes. São heróis solitários, de irrepreensível consciência moral. E são lentos. Ao lado de Gary Cooper, está Henry Fonda. Alto como ele, como ele desajeitado, tímido e taciturno. Até o corpo lhe pesa e Fonda alivia-se: no seu “Young Mr. Lincoln” e em “My Darling Clementine”, ambos do lentíssimo Ford, o actor deita-se debaixo de uma árvore ou senta-se num alpendre, sempre de pernas esticadas e mais altas do que o corpo, construindo irresistíveis ícones de elogio à calma contemplação das coisas e à sábia ignorância de si mesmo.
É lendária a lentidão de John Wayne na abertura e fecho de “The Searchers” e até o prodigiosamente veloz Howard Hawks se rendeu ao ocioso Bogart em “To Have and Have Not” e “Big Sleep”. Criaram uma tradição, assegurada até há pouco por Clint Eastwood e Gene Hackman, actores grandes, fisicamente descoordenados e lentos.
Robert Mitchum elevou esta arte a um patamar sublime: a cansada e absoluta imobilidade. Estilizando a lentidão, ao ponto de a tornar espessa e poética, Mitchum edificou uma improvável carreira de obras-primas. Invoco “The Lusty Men”, de Nick Ray, onde ele é a resignada solidão na solidão do filme.
Qual é o segredo destes actores que tiram devastador sentido e significado da aparente indiferença da sua expressão? E qual o segredo de fazerem mover o mundo mantendo-se imóveis?
Segredo de homens. Só duas mulheres, Ingrid Bergman e Greta Garbo, se aconchegam à bondade da inacção, à lenta solidão de um “quero estar sozinha”. Deus me guarde de pensar que eram homens.
Publicado no Atual do “Expresso” a 25/6. Sábado que vem, conta-se a história de um bom par de estaladas.
Está cheio de demónios, está cheio de fantasmas.
Os demónios estão nos filmes passados de David Lynch. Os fantasmas vêm dos seus filmes futuros. Começa tudo com uma orelha. “Não sei porque é que tinha de ser uma orelha. Mas precisava de ser a abertura para uma parte do corpo, um buraco para outro lado… a orelha está na cabeça e é uma ligação directa à mente, portanto pareceu-me perfeito”.
Poderia ser uma frase de alguém encerrado há anos numa ala abandonada de um hospício – em boa medida, não é difícil imaginar o senhor David Keith Lynch metido numa camisa de forças. Para satisfação do mundo inteiro, os demónios e os fantasmas do senhor Lynch, que poderia facilmente confundir a mulher com um chapéu, são traduzíveis em imagens, e o seu génio não acaba na patologia mental. Lynch, como James Joyce, adoptou a “free stream of consciousness”, tornando indistinguíveis o lado escuro da lua e a face abrasiva do sol. Entrar num filme de Lynch é aceder ao cérebro quando este acabou de ser aberto, em vida – é tão assustador como isso. E os tais demónios, e os tais fantasmas, não vivem no escuro. Vivem em nós.
Ninguém queria enfiar-se em “Veludo Azul”. Só os suficientemente lúcidos para serem loucos. Val Kilmer, que não é nenhum menino de coro, declinou o convite para ser Jeffrey Beaumont, o jovem protagonista, por entender que o argumento era “pornográfico”. Hanna Schygulla, a musa de Fassbinder que é tudo menos pueril, e Helen Mirren, cuja nudez fez o entusiasmo dos espectadores dos anos 60, recusaram ser Dorothy, a Judy Garland sado-maso que paira sobre todas as cenas de “Veludo Azul”. Quando Lynch conheceu a modelo Isabella Rossellini num restaurante, foi tiro, queda e estrelato. Bobby Vinton, o intérprete da canção-tema, não quis o seu nome associado à “depravação” da fita e Roy Orbison, autor do lindíssimo “In Dreams” – síntese musical do universo de “Veludo Azul” — fez o mesmo (ambos acabaram por voltar atrás). Dino de Laurentiis, o canastríssimo produtor de pérolas como “King Kong Lives”, “Conan o Destruidor” e “Flash Gordon”, fez das tripas coração e defendeu o filme até às últimas consequências, garantindo que a fita estreasse quando ninguém mais a queria. Vários actores foram contactados para interpretar Frank Booth, o psicopata inalador de hélio, mas todos acharam a personagem repulsiva. Todos excepto Dennis Hopper, o filho maldito de Hollywood, que não descansou enquanto não garantiu o papel. “Eu sou Frank” disse a Lynch, e quem somos nós para duvidar?
Depois, há os mortos: no quarto da virginal Sandy Williams (Laura Dern, aquela actriz que parece estar em dores de parto sempre que sorri) vê-se um poster do estilhaçado Montgomery Clift, destruído em vida por um grave acidente de automóvel; o ambiente torna-se um negativo do Technicolor de “O Feiticeiro de Oz”, um filme que atormenta Lynch (basta ver “Wild at Heart”); as referências à morte de Abraham Lincoln, o presidente dos E.U.A. assassinado por John Wilkes Booth num teatro, são compulsivas (do nome do vilão, Frank Booth, à “terra de ninguém” de Lincoln Street); e é impossível olhar para Isabella Rossellini sem ver a mãe, Ingrid Bergman – quando Isabella/Dorothy sai de casa nua, corpo pesado, rosto em transe, não se consegue deixar de ver aquilo como uma usurpação além-túmulo da mamã. É também por isso que as fitas de David Lynch metem medo ao susto: ele esventra-nos o super-ego, descobre o que nos aterroriza, vira o mundo de pernas para o ar e não nos deixa voltar a pôr os pés em terra firme – é como ter o mais voraz dos pesadelos e não conseguir acordar. Nunca mais.
O início de “Veludo Azul” é uma verdadeira carta de intenções: há um céu de azul robusto e nuvens fofas, a cerca pintadinha de branco que faz a glória da América WASP, um relvado gentil. Mas no meio da relva há milhares de formigas devorando uma orelha humana.
Jeffrey Beaumont, interpretado pelo falso ingénuo Kyle McLachlan, regressa à paz de Lumberton, após vários anos na grande cidade, para visitar o pai, que está doente. É Jeffrey que descobre a orelha, e será Jeffrey a tentar descobrir a verdade, repondo o equilíbrio do Universo. Mas o Universo está doente: o detective que o recebe não lhe liga nenhuma e a filha deste, Sandy, não percebe o que se passa, embora lhe ofereça dois nomes, ouvidos entre paredes: Dorothy e Frank. Jeffrey resolve ir mais fundo, e penetra na toca do lobo, infiltrando-se na casa de Dorothy. Mas ela chega subitamente, e o rapaz não tem alternativa: esconde-se no armário do quarto. A partir daí, é puro Lynch.
O cinema, disfrutado no escuro, feito de espectros, larápios, demónios, fantasmas, magia negra, é a suprema arte dos “peeping toms”. Sempre que vemos um filme, no armário fechado da nossa psique, protegidos pelas sombras, olhamos furtivamente para alguém que não sabe que estamos lá: a personagem. Seguimos a sua vida, testemunhamos o seu fracasso, imiscuimo-nos na sua alegria, entramos na sua casa, na sua sala, no seu quarto. Na sua cama Toda a intimidade da personagem é nossa. Mais: muitas vezes, pressentimos o seu destino antes de ela sequer imaginar o que lhe calhou. Não é apenas a realidade da personagem que nos é permitido observar. O sonho dela também nos pertence, tornando-se o nosso sonho. Ou será que ela sabe que estamos ali, no armário dela, no nosso armário?
Dorothy/Isabella mergulha em veludo, Jeffrey espreita como um miúdo que descobriu anteontem os wet dreams, ela pressente-lhe a presença, chega Frank/Dennis Hopper, Dorothy rejeita-o, ele violenta-a, ela gosta, ele devora hélio por uma máscara, ele põe a língua dele no sexo dela, fazem amor como dominador e dominada na primeira manhã do Apocalipse e Jeffrey observa tudo à altura da adolescência: tudo o excita, tudo o repele.
David Lynch, o agorafóbico, confessou uma vez que observar furtivamente uma rapariga a despir-se, e a comportar-se como se ninguém ali estivesse apesar de saber que estava, era uma das suas maiores fantasias de adolescência. O resto, é a entrada no mistério terrível de um novo mundo.
Nothing that we see or have seen/ is but a dream within a dream
MAIÊUTICA
– já reparaste na ironia?, no amor, o poder está todo do lado do desamor, do lado do não. Não te quero. Não fico. Não te amo.
– acabaste de dizer, isso é o poder do desamor, não do amor.
– pensa, qualquer coisa serve: fome-comida. O poder maior de uma coisa está sempre do lado de fora da coisa. O poder da porta está na chave, no trinco, no fecho.
– então a anorexia, ou a greve de fome, a resistência passiva, são só um contra poder?
– sim, apenas isso: contra poder não é poder, é só oposição: não há resistências passivas, só submissões agressivas, mas nem por isso menos submissas: o poder esteve o tempo todo do outro lado, o não não se fez sim, foi feito por erosão.
– isso significa o quê? Não há meios de retoma do poder?
– há. Basta não querer abrir a porta fechada.
– isso é batota, a fome não desaparece.
– desaparece, se em vez de comeres, beberes.
Somos uma pequena amostra de mundo. Pelas salas da nossa discreta business school Milanesa, no meio da molhada estudantesca, pode-se encontrar um pouco de tudo. Um arquitecto Chileno, uma editora de moda de Madrid e um par de brokers londrinos. Dois engenheiros alemães da BMW, um economista Peruano, um Russo vendedor de Smirnoff e uma Dinamarquesa especialista em energy bonds. Temos também um italiano desenhador de motores de formula 1, um espanhol de Alicante importador de mármores, uma contabilista de Kiev, um marketeer de Lyon, um outro de Atenas e ainda uma outra de Nova Iorque. E também uma catrefada de Italianos oriundos das muitas províncias desta terra. Depois há também uns meninos e meninas do papá vindos das Américas e do Sudeste Asiático que aqui vieram para encontrar vocação ou talvez só para gastar o dinheiro do mesmo, quem sabe. Ah! E há um português claro. Como é que me podia ter esquecido? Há sempre um português.
Durante meses, enturmamo-nos e guerreamo-nos em confrontos simulados, em apresentações fictícias, em debates ilusórios. Vivemos de Excel e Powerpoint. Desenhamos negócios, aprendemos as artes e os vícios da alta finança. Calculamos terríveis Futures e ainda mais sombrias Derivatives. Pensamos um mundo todo virtual. Todinho. Feito de e-commerce e de produtos invisíveis, que ajuntem máximo valor, custem o mínimo possível e se possam vender por muito dinheiro. Dinheiro. Aprendemos a fazer dinheiro. Aos montes. Para nós e para o outro, esse ilustre e anónimo vulto que entrou nas nossas vidas e que se chama shareholder e que aprendemos a amar e de quem tentamos perceber e adivinhar apetites e caprichos.
Mas os tempos são duros. Na maioria, despedimo-nos de bons empregos para poder aqui estar. Alguns endividaram-se com isso. Quase ninguém tem uma perspectiva de emprego. Manhattan explodiu o ano passado, a bolha das Dotcom também e estamos em guerra. Agora parece que vem aí mais uma. Vai ficar tão lindo o Médio Oriente a ferro e fogo. Londres não contrata. Milão fechou as portas. A Alemanha está parada. Trabalhar nos Estados Unidos para um não residente é uma impossibilidade. A Job Fair que aqui organizaram na escola foi um desastre. Apareceram meia dúzia de empresas Italianas de segunda a distribuir brochuras e pouco mais. Faltam duas semanas para a graduation e a coisa está a ficar feia para a maior parte de nós. Os ambicionados montes de fat green paper que todos esperavam que viessem, tardam a chegar.
Mas esta noite ninguém pensa nisso. Num comboio para Verona mandamos à fava a Finança, o comportamento das organizações, o e-marketing e a gestão de operações. Viemos quase todos numa espécie de catarse colectiva para limpar o espírito e aligeirar a alma. A bordo, no bar do comboio somos uns 30. Preparam-se Martinis a rodos e os mais prosaicos dão cabo do stock de cerveja a um desesperado barman das Ferrovie dello Stato. Bebe-se e dança-se. A real party on wheels! Só a Dinamarquesa dos energy bonds é que olha pela janela do comboio em movimento. Nos olhos alguma preocupação. Será que pensa no seu futuro? No futuro da economia mundial? Nos milhares de desempregados e nas suas famílias? No fim de um ciclo económico. Volta a olhar para dentro. — Looks like it´s gonna rain guys.….
Jamiroquai — Corner of the World - Live in Verona - 11/11/02
Os dois últimos filmes de David Cronenberg são extraordinários. Valem por si, mesmo que não soubessemos que eram assinado por ele.
Eu, que gosto do que gosto e detesto vir a gostar mais de qualquer coisa futura do que de uma coisa de que já gostei, receio que o próximo seja ainda melhor. É um filme sobre 8 decepções, as 8 decepções que sustentam a relação entre Sigmund Freud e Carl Jung, dois famosos malabaristas de um pouco mais do primeiro terço do século passado (Jung deixou-se andar, a fingir-se vivo, até aos anos 6o, mas isso mal interessa, por volta da 2ª Guerra o caso deles estava arrumado).
Este rosto, este corpo tenso que quase não se ajusta ao sofá, terão parte da culpa. Chama-se Keira Knightley e juro que nunca a tinha visto: só sei que dá corpo (a linda boca, os pequeninos seios, o tão esquinado recorte de ombros e, digamos, ancas) a uma das mais soberbas decepções que dividirá os dois irmãos fundadores de desavindas psicologias. David Cronenberg filmou tudo, e aparentemente filmou tudo com a confiança da linearidade, if you know what I mean. Para já, o trailer não me desmente.
In human affairs there is nothing from which he does not extract enjoyment, even from things that are most serious. If he converses with the learned and judicious, he delights in their talent; if with the ignorant and foolish, he enjoys their stupidity. He is not even offended by professional jesters. With a wonderful dexterity he accommodates himself to every disposition. As a rule, in talking with women, even with his own wife, he is full of jokes and banter.
A DIFERENÇA ENTRE OU E EU
Eu não sou o Vasco Pulido Valente. Não sei o que ele sabe. Nem quando leio o que ele lê, lemos o mesmo. Quando penso no que ele pensa, penso outro pensamento. Mas também, há que ser justo, não preciso de ter razão — ainda que para a ter, tantas vezes baste cruzar os braços, esperar pelo pior e dizer: chegou. Faço mesmo gosto em não a ter, a tê-la assim. Por muito que Vasco Pulido Valente seja imenso e respeitável, até cultuável, ou porque é cultuável - não me decidi — , pasmo diante do que afirma, apesar de, dele, não esperar outras afirmações que não as terminais e conclusivas.
Klaus Kinski um querido morto? Convenhamos que, de querido, o homem pouco teve ao longo da sua vida. Não me terei enganado na coluna? Pensarão alguns, enquanto juram a pés juntos que o actor fetiche de Werner Herzog assentaria que nem uma luva numa história de infâmia, muito mais do que numa homenagem como esta. E quem sou eu para os desmentir. Se o próprio Herzog sofreu na pele os excessos do seu best friend Kinski, ao ponto de, segundo reza a lenda, o ter ameaçado de morte na rodagem de Fitzcarraldo, nada mais me resta senão juntar-me ao coro de todos (e são todos mesmo) os que dele guardam a imagem de um demente violento, narcísico e obsessivo, capaz de explosões coléricas em pleno plateau pelo motivo mais insignificante, de deixar pendurada uma equipa inteira de filmagem enquanto não lhe satisfizessem o capricho mais extravagante e outros devaneios do género.
Bastam umas breves pinceladas biográficas para nos rendermos ao lado atormentado da personagem. Uma infância e adolescência atribuladas em Berlim, que o levaram inclusive a ter de roubar para comer, o recrutamento forçado na Wehrmacht na Segunda Guerra Mundial, a deserção e a rendição às tropas britânicas e o aprisionamento num campo inglês ajudam a explicar o seu comportamento pouco convencional. Foi na prisão, aliás, que começaram a despontar dois traços marcantes do seu percurso: o seu talento nas artes da representação, que deixou à prova nos espectáculos organizados para manter o moral dos seus colegas de campo; e o seu temperamento obsessivo, perto da loucura, bem evidenciado nos estratagemas que usou para merecer o privilégio da deportação reservado aos doentes: permanecer nu na zona exterior da prisão pela noite fora; beber urina, comer cigarros, e outros que tais. De regresso à Alemanha, decidiu apostar numa carreira de actor autodidacta mas só mais de dez anos depois – após alguns despedimentos, um diagnóstico de esquizofrenia e duas tentativas de suicídio falhadas – começou a adquirir uma certa reputação na Alemanha, Áustria e Suíça como spoken word artist e declamador de François Villon, Shakespeare e Oscar Wilde. No cinema, ao longo dos anos 50 e 60, vieram os filmes de guerra, uma especialização em personagens de Edgar Wallace, os western spaghetti, os série b e os exploitation movies, antes do reconhecimento internacional à larga escala com Herzog e o seu Aguirre, The Wrath of God, em 1972. A partir daí, muitos grandes mestres, de Fellini a Visconti, de Pasolini a Spielberg, quiseram tê-lo nos seus elencos, mas a todos deu negas, preferindo continuar a trabalhar com realizadores de menor notoriedade para nunca correr o risco de ver negadas as suas exigências de primadonna, para que lhe fosse sempre garantido, a ele e só a ele, o estatuto de grande estrela das produções em que entrava.
A excepção foi, sempre, Herzog, que cedo percebeu que pouco ganhava em domesticar o incorrigível feitio de Kinski e que, como nenhum outro, conseguiu capitalizar para o grande écran a sua raiva e agressividade. Por alturas da estreia de Aguirre, tinha onze anos de idade a sua filha Nastassja, que, para os seus detractores, foi aquilo que de mais relevante produziu em toda a sua existência. Embora tenha, em certo período da minha juventude, feito parte do grupo alargado dos que reconheceram estatuto de divindade a Nastassja, permitam-me discordar de tamanha injustiça. Um só nome, de filme e de personagem, bastariam para guindar Klaus Kinski à galeria da imortalidade: Fitzcarraldo, nome que lhe deram os indígenas de Iquitos que não sabiam pronunciar o nome do sonhador e idealista (Brian Sweeney) Fitzgerald.
Com Fitzcarraldo, Herzog conseguiu aproveitar a loucura de Kinski para os mais altos desígnios a que o ser humano pode aspirar. Numa época — a dos dias que correm – em que a cultura deixou de ser prioridade e é considerada pelos economistas que dominam o mundo como um gasto supérfluo e dispensável, a quixotesca empreitada de Fitzcarraldo – trata-se, literalmente, de mover uma montanha para levar uma ópera à selva amazónica – permanece como o último reduto de sonho que a cada um de nós pode e deve ser permitido. Numa era em que a cultura nem do seu factor simbólico se pode valer (até o Ministério da Cultura, ingloriamente, se foi), a simples ideia da música de Verdi ou Bellini, ou a voz de Caruso, terem o condão de apaziguar os espíritos malignos da natureza, ou de demover os temíveis jívaros – afinal, tão inocentes como Fitzcarraldo – do seu hábito de cortar e reduzir cabeças humanas é, no mínimo, reconfortante. Que me perdoem o cliché, mas haja uma ínfima partícula de Brian Sweeney Fitzgerald em cada um de nós, e teríamos certamente um mundo melhor. Para ficarmos ainda mais falidos, dirão os (sempre eles) detractores de Kinski? Talvez falidos, sim. Mas muito mais felizes. Que me perdoem, uma vez mais, as mentes lúcidas que fazem avançar o mundo, mas, se há imagem que me ocorre sempre que alguém se insurge contra um orçamento digno para a cultura, é a de uma cidade inteira em êxtase absoluto, em plena Amazónia peruana, com uma companhia de ópera a actuar no convés de um barco a vapor. E essa é, também, a imagem que guardo de Klaus Kinski: não o do insuportável cabotino que mais não fazia do que representar-se a ele próprio, mas a do idealista inocente, que move montanhas para levar a sua paixão até aos confins do mundo.
Desenterremos os mortos se queremos cuidar dos vivos. "É Tudo Gente Morta" é um blogue. A vaga ideia que inspira o título é a celebração das pessoas a quem muito devemos, mais nos deslumbraram e, peganhentos, amamos ou amámos (passe a cacofonia). Com raras e conspícuas excepções é tudo gente que já morreu.
O "É Tudo Gente Morta" quer-se hedonista: preferimos ser hagiográficos a críticos.
Pode, numa linha anti-Tratactus, falar-se de tudo: aquilo de que não se pode falar não tem, Mr. Wittgenstein, de ficar em silêncio. Pode fotografar-se. Ou desenhar-se. Tudo com destemperada elegância e liberdade de espírito.
Cabem no blogue derivas (ai Lyotard, Lyotard) que vão de gostos musicais até dramas futebolísticos, passando por religião, sexo, pintura, literatura, antropologia, política, economia, matemática, ciência, filosofia, trivialidades. Dissemos sexo? Dissemos! Mas queríamos dizer amor.
O blogue é nómada. Assente no triângulo Lisboa, Cascais, reyno dos Algarves, abriu também delegação nos USA, doce Itália, e Brasil dos nossos sonhos. Temos o confesso desejo de futura lança em África. Prometemos ainda transumância zen de Macau ao Cambodja, Hong Kong ao Vietnam.
É evidente, caramba, que escreveremos, em cândido assassinato que seja, sobre a actualidade e sobre os mais vivos dos criadores vivos.
Caros leitores, escrevam também: os comentários são livres e bem vindos. A título de disclaimer: serão apagados os que constituam ofensa ad hominem gratuita e abusiva.
Memento mori.
Instruções
Semanalmente, um querido morto é destacado. Os anteriores homenageados estão no nosso Cemitério, acessível com um simples clique no título "Queridos Mortos"
O nosso arquivo, é um rol de títulos. Achamos que fica bonito assim. Talvez pouco prático, mas bonito. Pode sempre consultar a lista por meses e, aí sim, os posts estão ordenados e com o texto completo, de forma mais legível.
O folhetim / Cadavre Exquis foi uma história a várias mãos. Semanalmente saiu um novo texto, que agora estão arquivados. Poderá lê-los carregando no título da secção "Cadavre Exquis".
Tenho muito, muito mau feitio, um génio desalmado que me incendeia e sobe a tensão. Vá lá, Deus deu-me por junto um bom humor crónico como uma doença. Adoro romancistas, ensaístas, poetas e dramaturgos chatos como a potassa, queria ter todo o Eduardo Lourenço, e não tenho, todo o Larkin, todo... - o insuportável Cabral de Melo Neto está completo, parece. Tenho fraqueza por Cristina Campo e Adélia Prado. Era capaz de fazer mal ao Herberto Helder. Sou pirosa e conservadora, porém, no mau sentido, ie, gosto de sapatos de verniz e acho que o sexo só condiz com o amor. Ora isto é mau: quase nunca está na moda usar sapatos de verniz e sofro de uma horrível dificuldade amadora. Enfim, é como tudo, forma o carácter. Porque isto é pouco, o amor dá-me nervos porque me descontrola os níveis de ciúme que eu finjo não ter e faz-me tão peganhenta que dá náuseas. Odeio. Não sou loura, não tenho 1.75m e 50 Kg, não ponho o cabelo de outras pessoas em extensões, a silicone dentro do corpo mete-me medo, não uso copa C, não tenho um rabinho de um palmo. Já fui mais nova, mais bonita, rija e anti gravítica, agora sou mais gira e mais feliz. Se tenho instinto maternal, nunca o vi, dou-me bem com o meu sobrinho porque ele é terrível, com crianças porque as compreendo. A maior parte das pessoas dá-me seca. Gostar, gostar, gosto de café e de andar de bicicleta. Perfeito é o meu cão.
Gosto de brincar ao faz-de-conta e de andar nas nuvens. Desta janela de avião é fácil ser papagaio de papel. Ou papelão. Caloroso e leve, cabeça de vento. Mas com peso bastante para ares salgados e voos altos (nem que sejam só sobre o globo da mesa-de-cabeceira). Bico afiado para repastos lentos. Penas soltas para tinteiro e tela. E erva branda para o tombo certo...
Sou feliz. Muito. E gosto. Fui abençoada pelo meu Criador com uma capacidade, até ver infinita, de desfrutar em pleno cada momento que passa, de descobrir um lado positivo em tudo o que de bom e de menos bom me vai acontecendo, de rir do irresistível absurdo das situações mais tensas ou dramáticas. Sempre suspeitei – e a vida tem-mo confirmado – que nunca nada acontece por acaso, que tudo tem o seu tempo e que, no limite, tudo faz sentido. Difícil, às vezes, é percebê-lo. E aceitá-lo. Agrada-me a ideia de que, ainda assim, a minha parte está por fazer e que muito depende das minhas escolhas e decisões, do meu trabalho e do meu esforço. Sinto que o melhor desta vida ainda está para vir. E, por isso, gozo o presente com alegria e esperança. Quanto ao passado, recordo-o com ternura, alguma saudade e quase nenhum remorso. Acredito que a morte não é o fim e que me está reservado um belo final, eternamente feliz. Mas, por ora, heaven can wait...
Já me renconciliei com a ideia de que nunca irei ler todos os livros do mundo. Em Outubro de 2010 passei a defender com intransigência que 42 = “the secret to life, the universe and everything” esperando ter-me tornado oficialmente sábia que é o que ambiciono de verdade, depois de ter querido ser cabeleireira, escritora, jornalista, astronauta e joalheira, não necessariamente por esta ordem. Acredito piamente que há mais coisas no céu e na terra do que aquilo que a nossa imaginação alcança e que os milagres acontecem todos os dias. Pelos meus 8 anos zanguei-me com a Igreja quando percebi que não podia ser Papa, mas tenho geralmente muito bom feitio e uma pachorra de santa. Lido mal com as críticas e muito bem com o riso e a galhofa em geral. Dizem-me que tenho voz de fadista mas não me convencem. Embora tenha gosto por tons mais soturnos, saudades, saudades...só mesmo do Algarve de há uns 30 anos. Costumo dizer que não tenho medo da morte. Vamos ver como é que me aguento aqui no cemitério.
Neste blog amortalhado,
De alegres e vãos mortais,
Me confesso, eu, condenado
Pela mortandade dos pais –
Lázaro ressuscitado,
Morredoiro uma vez mais:
Sou mortal, por nascimento,
Por vocação, mais de além,
Que a morte, no esquecimento,
Nem toda a vida contém.
Hedonista desregrado,
Com maior dor que prazer,
Sportinguista moderado
(para não deixar de o ser),
Português, cantando o fado,
De um Portugal por fazer…
E em tudo isto interessado
Em preparar meu morrer!
A minha tendência para celebrar os mortos começou quando, ainda mal entrado na adolescência, ouvi o “Atmosphere”, dos Joy Division. Casei com o Direito, a quem jurei compromisso para a vida na condição de me deixar ir, noite fora, para os braços de uma amante misteriosa, de múltiplos disfarces e estilo indie, que me leva às campas dos meus imortais de estimação. Pela mão de Buzzati, fui ao Deserto dos Tártaros, onde não se passa absolutamente nada a não ser esperar pela morte, e de onde consegui sair para mudar a minha vida. Fui condenado por romantismo pueril por me emocionar com histórias de amor belas e simples mas a minha pena acabou por ser atenuada por ter sido apanhado vezes sem conta a (tentar) decifrar anões do Lynch. Já não sei se sou de direita ou de esquerda mas tenho pavor da cultura à solta no mercado. E vivo em pânico de, no dia em que o “mal de vivre” me visitar, o anjo Clarence nada ter para me mostrar. Mal me ficaria terminar a história da minha vida sem dizer, alto e bom som, sim, sou orgulhosa e apaixonadamente do Benfica.
Tive um bisavô Galego e um tio avô monárquico. Uma avó beata e uma vinda de Toulouse. Um avô germanófilo e um outro mais cinéfilo. Tenho um pai intercontinental, uma mãe literária, uma mulher “workaholic” e dois filhos já demasiadamente Italianos. Não resisto a uma temperada e crocante chamuça mas não gosto de peixe no forno nem de coloridas gelatinas de bacalhau. Já marchei em Tancos, já trabalhei numa fábrica no Cairo, já remei em Titicaca, já tomei banho nas praias de Goa e já cantei karaoke em Xangai. No entanto ainda me falta muito para lá chegar. Os meus melhores amigos consideram-me um lírico, hipócrita e fantasista. Leio furiosamente, ouço de tudo, vejo o que posso e tendo a sonhar mais do que devia. Lisboeta de corpo e alma. Sempre. Até que a morte nos separe.
Vim ao outro lado do Atlântico ver como é a América, ao mesmo tempo que aprendo a aprender sobre o mundo das pequenas peças que nos compõem. Não gosto de abreviaturas, mas gosto de palavras novas. Leio muito menos do que devia, ainda assim encontro tempo para não ter de dizer que não a uma empada de pato do Natário. Há dias em que gasto horas a ouvir umas músicas dos anos setenta que estavam numa cassette que o meu pai nos deixou como herança. Não sei se gosto mais da vida aos bocadinhos se dos bocadinhos da vida. Quando volto a casa, ligo sempre o rádio para ouvir queixumes e depois, espero que Lisboa se esvazie para ir ouvir o seu silêncio.
Idade: 41
Sexo: bem, obrigadinho
Actividade: curador e epicurista de guiões
Sonho: molhado ( o elixir que conserva o brilho do Oscar é escorregadio)
Frustração: não ter o sorriso do Robert Redford, o instinto do Robert Towne, a delicadeza do Robert Frost e a inteligência do Roberto Baggio
Saudade: do avô paterno
Vício: identificar o número de cenas de filmes do Ford em que aparece o Victor McLaglen (há também as cenas em que Victor apenas se ouve, resmungão, em off)
Palavra: dignidade (lembro-me sempre dela quando sou indigno)
Mulher: a minha - pérfida conspiradora de uma máquina esquerdista intitulada "Jugular" - e as de Tamara de Lempicka
Objectivo: o azul esplendor da preguiça
Em 2009 dobrei a crista dos 50 e não corro ao engano: agora é que vai começar a montanha russa.
Não interessa onde nasci e sempre vivi; sou mesmo é de Vale Paraíso – um nome destes não se perde.
Sou sportinguista, sei olhar o infortúnio de frente, como parte da natureza das coisas. Isto dá blindagem em vez de insuflar.
De um ponto de vista da taxonomia social pertenço ao “neues prolektariat”, desempenhando a parte que me cabe com escrúpulo e, muitas vezes mesmo, com alacridade. E gravata quando é preciso.
Ele há outros temas candentes há, mas o que for, adiante se verá.
Sou um experimentalista caótico. O meu método é uma inexplicável fé de que a maioria dos problemas se resolve por si. Sou também um poço de vícios: falar alto (sou um pouco surdo), ter galharda opinião sobre quase tudo, ser especialista em generalidades e acreditar que tenho montes de razão na maioria dos casos são apenas algumas das características com que, cheio de prosápia, irrito familiares e amigos. Também sou preguiçoso.
Gosto de escrever, de ler, pintar, pescar e adorava ter uma quinta a sério (a ideia de Farmville enfastia-me até ao absurdo).
Teria com prazer feito vida em África, que conheci na guerra colonial, e gostava de ter estado no lugar de Pigafetta.
O meu poeta preferido é o ultra-cristão e hoje quase desconhecido Patrice de La Tour du Pin.
Nunca me vi de perfil mas garantem-me que não perco grande coisa. Não troco uma boa imperial por nenhum champanhe do mundo e desconfio de todos os livros com menos de trinta anos. Sei de um corvo chamado Laércio, deixei crescer a barba para me fazer de rijo mas continuo a ler o «Blake & Mortimer» às escondidas. Quando for grande hei-de de jogar à bola como o Chalana e o Super Maxi vai voltar a chamar-se Maxi Delicô. Quanto ao mais, cinema mudo sueco, Oscar Peterson e uma inconfessável Simpatia pelo Diabo. Assim como assim, antes morto do que meio vivo.
Já vivi duas vidas.
A primeira – ilegítima, cruel e inocente – dizem que foi numa África a-histórica, terra obscura que mapas e viajantes omitem. Ficou-me, indelével e colonial, o hábito de ser feliz.
Vivo agora a segunda: hedónica, nonchalante, inviável e sem esplendor. Uma vida de gostos sonâmbulos: editar livros e produzir filmes. Nova vida, o mesmo destino: o amor de tudo querer amar, um peregrino optimismo.
Adorava morrer de golo de ouro. Quem gosta muito de futebol de “mata, mata” e já conheceu o medo da inapelável perda ou a glória infinita de ganhar, saberá do que falo.
Fascinam-me os mais sórdidos textos de Borges e Larkin, a brancura ideológica dos filmes de Ford.
Acho, devo ser de esquerda.