Os Anormais

João Baptista dos Santos nasceu em Faro, no ano de 1843. Eu nunca tinha ouvido falar dele. Não é que haja falta de anormais na nossa praça pública, pelo que é concebível que um ou outro escape, no entanto, a este senhor não faltaria fama por entre os mais jovens, caso dele tivessem tido conhecimento no ano certo da escolaridade obrigatória. É que João Baptista dos Santos possuía, entre as duas normais, uma terceira perna. Uma aberração, ou mera curiosidade, consoante as opiniões, a verdade é que o homem nasceu com mais um membro (que na realidade eram duas pernas atrofiadas fundidas). A perna não era funcional, embora pudesse ser manipulada e, muito embora nunca tenha sido operado, Baptista dos Santos era capaz de andar a cavalo, amarrando a sua terceira perna a uma das coxas. Ainda assim, por curioso que este fenómeno fosse, o que suscitava mais interesse era o facto de João Baptista dos Santos sofrer da raríssima diphallia. E, ao contrário da sua terceira perna, o segundo pénis era perfeitamente funcional. Segundo o fotógrafo Charles DeForest Fredricks, que registou a única fotografia conhecida de João Baptista, “basta a visão de uma mulher para excitar as suas propensas amorosas. Ele funciona com ambos os pénis, acabando com um e continuando com o outro.” Tendo sido oferecido um generoso contrato para se exibir em circos franceses, João Baptista dos Santos recusou a oferta, preferindo mostrar-se apenas em círculos médico-científicos.

Mas como uma curiosidade se torna ainda mais interessante quando outra curiosidade se associa a ela, cá vai a segunda parte desta diplopia. Embora não haja provas, reza a história que João Baptista dos Santos terá tido um affair, em Paris, com a cortesã Blanche Dumas. Dumas não só tinha também uma terceira perna, como sofria de duplicação vaginal, que, à semelhança do seu contraposto luso, eram perfeitamente funcionais.

Portrait of a Lady II

É o meu lit de mort preferido – se é que se pode ter um, ponto relativamente ao qual acalento ainda algumas dúvidas. Aquele que eu teria escolhido, em resposta ao desafio aqui lançado pelo Pedro, não fossem as múltiplas e extenuantes actividades de férias que por essa altura absorviam parte substancial do meu tempo e energia.   

Gosto do exuberante cenário verde e das flores, tão variadas e coloridas — mesmo sabendo que algumas delas simbolizam, neste contexto, realidades tão pouco alegres como o amor não correspondido, a dor, a tristeza ou a própria morte. Gosto também da serenidade do rosto de Ophelia e do modo como jaz no leito do rio — faz-me sempre lembrar a Bela Adormecida ou a Branca de Neve, mortas-mas-não-tanto…   

Elisabeth Siddal (1829−1862) foi um dos modelos preferidos dos pintores da Pre-Raphaelite Brotherhood, fundada cerca de 1848 por John Everett Millais, William Holman Hunt e Dante Gabriel Rossetti. Descrições da época referem-na como a most beautiful creature, tall and slender, com greenish-blue unsparkling eyes, large perfect eyelids, brilliant complexion and a lavish heavy wealth of coppery golden hair.

Tinha 19 anos quando posou para Millais. Este, fiel ao cânon pré-rafaelita, queria o quadro as truthfull as possible naquilo que retratava. Por isso, pintou-o em duas etapas e em diferentes cenários. Toda a parte da natureza, outside in the open air, nas margens do rio Hogsmill, no Surrey, directamente para a tela (sem esboços ou apontamentos). A figura de Ophelia, naturalmente no seu estúdio … ao longo de incontáveis horas durante as quais Elisabeth, com um vestido antigo, bordado a prata, permaneceu mergulhada numa banheira cheia de água, teoricamente aquecida por lâmpadas colocadas por baixo. As quais, com frequência, se apagavam sem que o artista, absorto no seu trabalho, reparasse. Resultado: um enorme sucesso artístico para Millais, na Royal Academy Exhibition, de 1852. E, pelo menos, uma pneumonia para Elisabeth.

Foi esta a primeira e também a única vez que Elisabeth serviu de modelo a Millais. Por razões totalmente alheias às extreme working conditions: terá sido outro, e bem mais comezinho, o motivo. Dele vos falarei num próximo Portrait, se tiverem a gentileza de o aguardar e de o ler, claro…

Alto e pára o baile

Paula Rego — A dança. 1988

Quando Pedro Passos Coelho chegou ao poder no PSD, o futuro próximo do país parecia ter ficado decidido. Acabara-se a balbúrdia na oposição e José Sócrates, que só se aguentava em pé por falta de comparência desta, tinha finalmente os dias contados. Sabia-se que os tempos eram difíceis, que existiriam orçamentos «de guerra» para apresentar e sabia-se que, com as eleições presidenciais de permeio, o país viveria um limbo político forçado de meia dúzia de meses. Era, como um dia disse António Guterres, uma questão de fazer as contas: Passos chegaria a S. Bento até final do 1º semestre de 2011. No círculo mais próximo do futuro Primeiro-Ministro a confiança era tal que a data se adiantava à boca cheia. E a verdade é que as primeiras sondagens vieram dar sustentação a esta científica tese. Passos provava ser um político responsável, era ponderado e educado, dava-se ar de estadista, vivia, em suma, em estado de graça.

Eis senão quando passou alguma coisinha má na cabeça dos conselheiros políticos do líder do PSD. Sem que nada o fizesse esperar, Passos Coelho iniciou uma série masoquista de tiros no pé. Paradoxalmente, não tanto porque estivesse errado o conteúdo das suas propostas (faço parte do quase extinto leque dos neoliberais furiosos capaz de subscrever boa parte das ideias subjacentes ao seu projeto de revisão constitucional). Mas sobretudo porque errou clamorosamente no timing e na forma. Na questão da Constituição, como na do Orçamento de Estado, revelou ingenuidade política, insensibilidade social e sobretudo um inexplicável desnorte. O resto é sabido. As sondagens fizeram marcha atrás, José Sócrates foi buscar ao baú mais uma das suas sete vidas e, num ápice, aconteceu o que todos julgavam ser já impossível: a dúvida reinstalou-se. Será desta?

A coisa tem, é inegável, um lado dramático. Portugal precisa desesperadamente de mudar de vida e de encerrar este ciclo político de governação socialista. Mas como o Verão ainda não chegou ao fim, vale também a pena olhar para o lado divertido (ainda que grotesco) da questão. É que, num país onde a confusão entre as esferas política e económica é total, onde grassam promiscuidades e corrupções de toda a ordem, onde o Estado é simultaneamente fraco e imenso, não é suposto que as coisas funcionem desta maneira. Há meses que no país «empresarial» tinha já começado o baile, sinistro, subterrâneo e costumeiro que sempre antecipa a dança de cadeiras no topo da hierarquia política. Desde que (prematuramente?) se decretou a morte de Sócrates, a azáfama era mais do que muita. Contrataram-se assessores, nomearam-se administradores, iniciaram-se avenças, retomaram-se «amizades», redescobriram-se até velhas cumplicidades ideológicas que a governação socialista obnubilara. E agora, sem que a sombra de um aviso, a orquestra pára e a música cala-se? As coisas não se fazem assim! O baile pode tornar-se um tumulto! Temo pelas pisadelas, pelos encontrões, pelas traições variadas e pelas quedas estrepitosas. E receio bem que os próximos tempos sejam tempos de muitas espargatas. Pelo menos enquanto não voltar a perceber-se em que sentido vai dançar-se o corridinho.


Publicado na Visão a 2.9.2010

Les portes de la nuit

Saiba: há um bailado que se fez filme, sendo, também, um poema de sol nocturno, do sol nocturno, e mais se fez, canção, na voz de Montand e título mudado de outro filme por causa do sucesso do mesmo excerto de poema, ainda por publicar na íntegra, a canção, desta vez na voz de Nat King Cole. Fôlego. Mostro só o filme, que vi hoje pela primeira vez e nunca o soube antes de hoje. Gosto tanto destas surpresas felizes por haver.. Tem, este filme, coisa queirosiana de sombrinha vermelha de Maria a descer sobre Pedro, na carruagem, premonição de sangue, ferida, escoamento de vida, morte. Está lá em baixo, a premonição, outra, no entanto: procurei para si no YouTube, encontrei, claro, logo a seguir à linda cena da fabulosa Joan, de fato de banho, ao espelho. Poderia deixar algo do bailado, ou do primeiro filme, da primeira canção, do poema. Não. Só o que descobri hoje. Porquê? Ao Nat king Cole já o dancei com o meu avô, Les feuilles mortes, não é segredo, ouço, ouço — mas sou suspeita por causa de Prévert -, e de Roland Petit nem digo um ai: ai ai..

Autumn Leaves, Robert Aldrich (1956, Wm. Goetz Productions) Producer: William Goetz. Screenplay: Jack Jevne, Lewis Meltzer, and Robert Blees. Director of Photography: Charles Lang, Jr. (1:85:1). Music: Hans Salter. Cast: Joan Crawford (Millicent Wetherby), Cliff Robertson (Burt Hanson), Vera Miles (Virginia), Lorne Greene (Hanson). Filmed at Columbia Studios, Los Angeles, beginning August 31, 1955. Completed: November 21, 1955. Running time: 107 minutes. Distribution: Columbia. Released: September 11, 1956 (Los Angeles).Original Title: The Way We Are. Silver Bear Award for Best Direction from the 6th Berlin Film Festival.


Di sotto in sù

Dizem-me que a coisa começou mais cedo mas “pôs-de moda” lá para o século XVII. Os especialistas dir-vos-ão que é uma variante específica de ilusionismo baptizada Di sotto in sù ou Prospettiva Melozziana . O Vasco explicar-vos-á  que, mais coisa, menos coisa, tanta palavra bonita pode trocar-se pela mais voyeurista expressão “de baixo para cima”. E eu, que não sou italiano nem especialista de coisa alguma, só posso dizer-vos que acredito, com a força de todas as paredes e de todos os tectos do mundo, que a ninguém devia ser roubado o prazer de ver-se assim enganado. Uma vez que fosse na vida. Mesmo que, deslumbrado pela beleza furtiva que é sempre a beleza de um trompe l’oeil, não ganhasse para o susto. Que é o que o terá acontecido à bela e arfante Gonzaga quando acordou, numa pecaminosa manhã, na sua camera degli sposi, com um coro de inconvenientes querubins a espreitar-lhe as linhas rococós da sua escandalosa nudez.




Caravaggio. Jupiter, Neptuno e Plutão



Andrea Mantegna, Camera degli sposi



Andrea Pozzo, Igreja de Sant’Ignazio



Olá, fala a Marta

“Olá, fala a Marta…” A frase é popular, mas só a dizemos porque -  faz hoje 132 anos — aconteceu uma pequena revolução. O Boston Telephon Dispatch, sob a asa do senhor Bell, ouvi dizer que discutível inventor do telefone, foi o primeiro operador a criar uma central telefónica. Eram rapazes que se ocupavam de tudo, do telégrafo e dos telefones. Mas se no telégrafo eram ágeis e imbatíveis, ao telefone mostravam-se irritadiços, sempre prontos a praguejar, já para não falar na tentação de mandar para o Bujumbura quem só queria ir até Luanda.
Tocou uma campainha na cabeça do senhor Bell e ele revolucionou: entrevistou e contratou Emma Nutt, fazendo dela a primeira telefonista do mundo. A voz de Emma, suave,  a sua paciência, uma prodigiosa memória que lhe permitia saber de cor todos os números do directório de Boston, ditaram o futuro: o triunfo das telefonistas, a maravilhosa associação do telefone à voz feminina. O telefone é uma mulher: é por isso que é fácil falar com ele, dar-lhe beijinhos, prometer-lhe ternuras e, claro, mentir-lhe com um bocadinho de vergonha.

 

O olissipômago

Olissipófago, primeiro pensei em olissipófago.

Mas depois lembrei-me que corria sérios riscos de má interpretação por parte dos restantes membros do ETGM – que como toda a gente sabe é um blogue rodeado de lisboetas por todos os lados menos por um, chamado istmo. Mais a diáspora e ilhas adjacentes, bem entendido.
Que se descuidem os alfacinhas porque a situação dispensa cuidados – pelo menos pela parte que me toca: adoro Lisboa, sempre foi assim, já o disse e até já o escrevi em livro. E tudo.
Mas voltemos ao olissipófago e ao seu feliz substituto olissipômago: o primeiro representará algo ou alguém que objectivamente se alimenta de Lisboa. O rol de exemplos é imenso, mas vou apenas citar aqui o que já em tempos disse sobre o assunto: «Lisboa é, à semelhança de outras capitais, refém do poder que alberga».
Com os olissipófagos já arregimentados em su sitio passemos agora ao olisspômago e derivados. Por decomposição associativa com o anterior vocábulo, rapidamente se chegará à evidência gástrica do segundo: olissipômago é aquela parte de Lisboa – individual ou colectiva – que serve de pança à ruminante capital.
Porque a capital volta e meia dá-lhe para isso, rumina – e bastante, como se irá a seguir fazer prova.
Convém antes de mais afirmar, just for the record, que nada me move contra o conhecido olissipógrafo a que me irei referir – mas o facto é que afirmações suas veiculadas no sempre amável e diário Público provam que também ele é elemento activo do agora celebrizado olissipômago. Será assim como que uma espécie de enzima.
O artigo a que me refiro viu luz no suplemento Cidades do dia 22 de Agosto, a um domingo – curiosamente no mesmo dia do ano em que cheguei de Angola , faz agora 35 anos, e, numa coincidência quase suspeita, também no mesmo dia em que faz anos a mãe da minha filha Joana (que raio de ideia a minha de meter isto aqui – mas é assim que tem de ser).
A chamada ao tema principal, com um título a puxar para o fadista – «A triste agonia das casas com histórias para contar» –, leva-nos ao trabalho da jornalista Cláudia Sobral, que assina um texto pertinente e bem documentado onde discorre e ouve discorrer sobre os vários pecados da capital em termos do seu património imobiliário ligado a figuras históricas da cidade.

Já a meio do texto, mais concretamente no subtítulo «Quando uma casa pode tornar-se num museu», ficamos a saber onde ficavam as casas de Wenceslau de Moraes e de Camões e de como a intervenção do Estado nesta matéria é notavelmente desastrosa – ou seja, uma não-notícia. Logo a seguir surge a questão da existência de um espólio interessante que consiga transmitir o espírito necessário à constituição de uma casa-museu – solução universalmente utilizada e que em Portugal tem alguns exemplos bem sucedidos e conhecidos.
Ficamos depois a saber que a casa-atelier de Alfredo Keil, na Avenida da Liberdade, não foi transformada em atelier-museu porque o respectivo espólio do poeta e pintor seguiam já viagem até Torres Novas, por decisão da família – que, segundo me informei, fartou-se de esperar por protocolos com as câmaras de Lisboa e Sintra.
Assim, embora tenha nascido em Lisboa, Alfredo Keil terá a sua casa-museu em Torres Novas – que foi quem se apresentou ao serviço.
Finalmente chegamos ao cerne da questão – mais concretamente à pança lisboeta.
Porque imediatamente a seguir ao desengonçado caso de Keil surge a seguinte afirmação:
«Infelizmente situações destas são muito frequentes”, comenta Appio Sottomayor. E dá outro exemplo: “O espólio de Eça de Queirós foi parar a Tornos, aonde ninguém vai, em vez de estar aqui numa casa digna desse nome».
Confesso que não sei o que me irritou mais, se os «Tornos» do insigne olissipógrafo, se o «foi parar» ou se a «casa digna desse nome», ou se o «aonde ninguém vai». Mas imediatamente passaram-me pelas meninges cenas cruas dum filme de zombies que conheço muito bem, chamado «O Terreiro do Poço» (já não tenho mais cópias para emprestar ou vender, desculpem lá)…
O que terá levado o sr. Sottomayor a pensar que Eça pertence a Lisboa é algo que me intriga imenso: Eça viveu em Lisboa bem pouco tempo, não nasceu lá nem lá morreu, e bem pouco ali escreveu. E o que escreveu sobre a cidade foi a desancar na capital do Império, no seu funcionalismo carrapatoso, nas suas pêgas esbotenadas, nos seus condes de fancaria, na sua ópera bufa e na mais ridícula corrida de cavalos que alguém poderá algum dia ter visto em toda a sua vida sobre a terra.
Será que o ilustre olissipômago, perdão, olissipógrafo gosta de punições?
Cruzes, será?!…
Obviamente, no Público–on line surgiram imediatamente pessoas que prestimosamente explicaram ao sr. Appio a evidência da sua desdita – acrescentando, por exemplo, que só faltava transportar a magnífica (a meu ver pouco menos que ímpar) Casa-Museu de S. Miguel de Ceide para Lisboa, pois Camilo também foi um grande português e como tal devia ser visível na capital.
E porque não, digo eu, rapinar Amadeo a Amarante e Grão Vasco a Viseu?…
É claro que também acrescentei lá o meu brevíssimo e modesto comentário. É mesmo modesto.
Aqui está ele:
«Appio Sottomayor nada sabe sobre a Fundação Eça de Queiroz.
O espólio não «foi parar a Tormes»*, como diz. Foi a família que o reuniu a partir do desejo da filha do escritor em abrigar naquela casa simbólica as memórias próximas do pai.
Além da casa e do espólio é bom não esquecer que Eça está sepultado em Santa Cruz do Douro, que existe um “Caminho do Jacinto” (a subida à serra) e toda uma função cultural visível nas inúmeras visitas escolares (e não só), bem como nas várias iniciativas de carácter nacional e até internacional.
Uma casa de Eça em Lisboa para quê? Emprego para amigos do centralismo parolo, como acontece em tantos casos?
Veja-se a Fundação Vieira e Arpad…
Eça só disse mal de Lisboa, não é de lá e viveu ali bem poucos anos. Tormes é considerada pelos queirosianos o ”sítio” mais alto do escritor, por razões de todos conhecidas.
Sr. Sottomayor: Eça não é um coche, por muito que o senhor o queira coisificado».

& toclas.

*Na secção “O Público errou” o nome de Tormes aparece rectificado. Erro de edição, parece.

Nota: não mostro fotos do interior da casa ou do espólio de Eça de propósito. Vão lá!


Hugh Hefner? Pois sim..

O mais nu por encomenda a mais nua. Um pediu, o coleccionador. O outro, o pintor, sim, sim, com certeza. Mas há-de ser um escândalo, digo o quê? Olhe, diga que é A origem do mundo, pois que há-de dizer?1975?! Estou em crer que foi lá para os idos de 1866.

Courbet

Mais compostinha, presa num rochedo, ó dela, à espera de Perseu há uma fartura de tempo, e o diabo do homem, perdão, deus, a matar medusas, a Andrómeda de Lempicka. Não teve de esperar até 2006. Em 1929 foi salva.

Tamara de Lempicka

Se playboy, playgirl. É para que saiba.

Portrait of a Lady I

Perfectly hideous … and yet quite recognizable. É o que terá escrito acerca deste quadro, quando da sua primeira exposição pública, em 1915, a sua autora. Satisfeitíssima, pois fora justamente esse o resultado pretendido.  

Vanessa Bell (1879−1961) gozava já por essa altura de amplo reconhecimento como um dos mais talentosos e activos elementos do inovador e irreverente Bloomsbury Group – o qual integrava artistas e escritores como Roger Fry, Clive Bell, Duncan Grant, Leonard e Virginia Woolf (sua irmã mais nova), E.M. Forster, Maynard Keynes, Lytton Strachey e Dora Carrington. E que se rebelou abertamente contra os rígidos padrões vitorianos, em matéria de arte, de estética e também de costumes. Os Bloomsberries pensavam, escreviam, pintavam e viviam playfully and lightheartedly.

Vanessa e Clive Bell mantinham, desde o nascimento dos seus dois filhos, um open marriage, que não impedia cada um de fazer a vida que bem entendesse. São conhecidos o breve affair de Vanessa com Roger Fry e a sua ligação duradoura com Duncan Grant, de quem teve uma filha, em 1918. Quanto a Clive, a well renowned womanizer, teve a sua mais que  fair share de relações extraconjugais. Mary St John Hutchinson, mulher de um conhecido advogado, patrona das artes e aspirante a escritora foi uma das suas incontáveis amantes.

E era-o ainda, quando encomendou este retrato e posou para Vanessa. Esta sabia evidentemente. Mas, tudo leva a crer, não gostava. Mesmo nada. Daí a unflattering nature of the portrait, o qual não deixa margem para dúvidas quanto aos seus feelings para com a modelo. Os especialistas destacam a forte influência fauvista deste quadro, traduzida na exuberância e audácia das non-naturalistic cores utilizadas. Opção justificada pela grande admiração que Bell tinha por Matisse. Quanto à concreta selecção de tons, as motivações terão sido bem outras — digo eu. Verde é verde. E logo este tom, é sabido, não favorece ninguém. O lilás também não ajuda. A combinação das duas,  fatal. Para não referir os  demais detalhes.

Agrada-me este quadro. Gosto do que evidencia de normalidade por parte de quem o pintou. Porque mesmo nas mais extraordinariamente moldadas relações, há-de haver limites. O que vale por dizer que some things never change. E ainda bem: afinal, quem não se sente, não é filho de boa gente. E gosto, sobretudo, da deliciosa forma — tão subtil quanto eficaz — com que resolve o eterno problema da outra, do ciúme, da vingança. Quais faca, na liga ou na mão. Quais alguidar. Quais banhos de sangue. Tela, pincéis e tinta, numa mistura absolutamente letal de repulsive colours e fabuloso talento…   

Coisas do Diabo

Ao princípio estranhara. Ao tempo, achava que já tinha provado de tudo o que lhe podia dar o prazer da sua carne na carne de uma mulher. Fantasias tivera-as aos rodos, daquelas que faziam o Oshima parecer um menino de coro e que há muito tinham deixado de o ser porque vividas até ao tutano. Dos relatos dos seus amigos das pândegas das sextas-feiras, também não vinha nada de novo. Apenas mais do mesmo. A verdade é que nenhuma das mulheres que tivera – e já não se lembrava se desistira de as contar depois da quinquagésima ou se daquela vez em que lhe apareceram quatro à porta de sua casa — lhe tinha feito uma exigência daquelas. Estranhara mas aceitara as regras do jogo. E acabou mesmo por se excitar com a ideia. Afinal de contas, pensou ele, sabia que tinha um talento especial para satisfazer todos os caprichos sexuais delas. E este, ao contrário de outros, nem era de todo irracional. Ela explicara-lhe que, por ser uma mulher casada, só podia ser assim. Uma vez por mês, sempre à quarta-feira à tarde que era quando o marido estava fora e ela tinha a sua folga semanal. Sempre na banheira, onde ela o esperava de corpo imerso. Para que não se sentisse suja e as impurezas daquele prazer proibido fossem todas pelo ralo abaixo logo que ela saísse do transe. Só podiam ser obra do diabo, dizia-lhe ela, aqueles estremeções que lhe percorriam o corpo todo. E ele acreditava nela, quando ela lhe jurava que com o marido, homem temente a Deus, não havia nada daquilo. E ele tinha de se depilar todinho, com o cabo e as lâminas que ela lá tinha guardado só para ele. Ou melhor, ele depilava-se até onde o seu braço alcançava e deixava-lhe a ela – e que prazer tinha ela nisso antes do outro prazer que aí vinha! – a minuciosa tarefa de remover as pilosidades traseiras. E ele já se habituara ao riso que tomava conta dela no momento da extracção daqueles tufos redondos que enfeitavam as suas nádegas (que eram enfeites, isso era coisa dela, porque ele nunca lhes conseguira por a vista em cima, nem através do espelho que havia lá em casa). Um riso que vinha assim em convulsões e que só podia ser uma espécie de preparação mental para as convulsões subsequentes. Tinha de ser assim porque com ela, mulher casada e também temente a Deus, nada a podia fazer sentir como uma cadela com cio. E, enquanto não desaparecessem aqueles pelos todos que eram o orgulho da virilidade dele, era assim que ela se sentia.

Ele estranhara ao princípio. Mas agora não se queixava. Sentia-se bem naquele papel de diabo. Só tinha pena de a coisa só acontecer uma vez por mês. Tinha de ser assim, dizia-lhe ela. O pelo tinha de voltar a crescer para ser arrancado como uma erva daninha.

O tempo e o espaço

As imagens são tão boas que não vou estragar-vos o gosto com sermões. Ora vejam.
Este é um anúncio da Playboy brasileira. O tema merece futuros posts de alguns dos mais ilustres autores aqui do cemitério (caramba, mortos, mas nem tanto).


 

A discrição deste suave anúncio de um gel entusiasma e, vá lá, comove. Não deve haver melhor gel. Manix-gel high power lubrification, se querem saber.

O drama do desemprego

Empregos. Jobs. Mesmo aqui, neste Cemitério de Gente Morta, estamos longe de ser insensíveis ao drama do desemprego, um dos cancros do nosso mundo globalizado. Queremos ajudar. Mas reconhecemos que não é fácil. Cada vez há menos postos de trabalho decentes e, quando aparecem, reunir as condições de candidatura exige recursos filosóficos que não estão ao alcance de qualquer um. Para ser franco, acho mais fácil resolver o paradoxo de Zenão…

Um Perfeito Vazio

 

Não se lembrava da última vez que tomara um banho de imersão. Naquele dia, apetecera-lhe. Encheu a banheira e despejou lá para dentro uns sais e mais um gel, presente de Natal ou de anos, não sabia ao certo. O rosa-vivo destes tingiu a água e a espuma. No ar, um intenso cheiro a rebuçado de framboesa. Ou seria morango? Sentia-se vagamente ridícula. Hesitou. Mas aquilo era suposto ser relaxante, revigorante, activar a circulação nas pernas… Largou o roupão e entrou na banheira. Excelente, a temperatura da água. Procurou uma posição confortável. Olhou à volta — o lavatório, o pequeno armário por baixo que mandara há tempos fazer, o espelho a começar a embaciar. Será que também é cor-de-rosa, o vapor? Sorriu da absurda ideia e fechou os olhos. Para logo os abrir e, rapidamente, espreitar e voltar a fechá-los. Tudo na mesma.   

Às vezes parecia-lhe ainda vê-lo ali. De pé, diante do lavatório. A fazer a barba. Nu.

Estes flashes causavam-lhe uma irritação difícil de controlar. A mesma que sentia quando, dali, de onde estava, ele a interpelava. Com os seus problemas — pessoais, familiares, profissionais, tanto fazia. “Olha lá”, começava invariavelmente. Mesmo sabendo, porque tantas vezes ela lho dissera, que tal tratamento lhe desagradava. Depois as questões, os dilemas, os impasses, quase todos fruto da sua exasperante falta de sensibilidade e de empatia, de instinto e de tacto. Que o passar dos anos agravava. Ela respondia, resolvia. Seguiam-se os cenários, antecipados à exaustão, construídos uns sobre os outros, hipotéticos e surreais — então e se ele me responder que? e se eles me propuserem antes que? e se não aceitarem isto? e se o tipo começa com a conversa de outro dia? e se? e então se? olha lá, e se? Não valia a pena encurtar o duche: ele segui-la-ia até ao quarto. Era um exercício cansativo e inútil. Mas ao qual não tinha como escapar. A alternativa era o inferno, logo ali, logo pela manhã. Sabia-o, porque experimentara. Não responder ou explicar que estava absorta nos seus problemas. O resultado, sarcasmo e rancor: obrigado, muito obrigado, está uma pessoa cheia de problemas e é esta a ajuda que recebe; da próxima vez que me vieres chatear com os teus dramas, vais ver como é! Não era provável que isso viesse a suceder. Percebera há muito que neste, como noutros planos, nada era como esperara. Tentara. Mas sem êxito. Foste parva, agora admiras-te, tão inteligente para umas coisas…, esses tipos são umas bestas, só percebem à bruta, fora o que obtivera, de conforto e de conselho. Quisera crer tratar-se de incapacidade dele: se mal resolvia os seus problemas, como haveria de saber acudir aos alheios? Logo percebera ser algo muito diferente: uma visão totalmente enviesada do amor, do casamento, dos papéis do homem e da mulher. Profunda, enraizada, ancestral. Que ele nem sob tortura admitiria professar. Mas que praticava, se praticava. Por isso o desconcertava a insistência dela na reciprocidade: não era suposto maçá-lo com os seus problemas, não era suposto sequer tê-los.  

Piores, muito piores eram os outros flashes. Felizmente cada vez mais espaçados. Imagens e sons de explosões de fúria descontrolada. Sempre dirigida a ela. Fosse qual fosse o detonador. Gritos e ameaças, insultos e reprimendas. Até acalmar. Até à próxima. Que só não sabia quando, onde e por que motivo ocorreria. Nunca pedira perdão. Nunca mostrara arrependimento. Uma ou outra vez admitira, displicente, ter-se talvez excedido, mas — que diabo! -, tinha razão. Tinha sempre razão. Os gritos eram um suplício, as descomposturas um enxovalho: vê se metes isso de uma vez nesse bestunto, não me voltas a fazer isso, não me voltas a colocar numa situação destas, ouviste? Implorava-lhe que parasse. Não consigo, não vês que não consigo? Eu bem te disse para não me irritares. Ou então, tu pelos vistos não percebeste ainda a gravidade do que fizeste. E continuava. Para que ela percebesse. Só que ela persistia em não o fazer. Em não achar inaceitável telefonar-lhe do escritório a avisar que ia chegar mais tarde, pedir-lhe que fosse, muito excepcionalmente, claro, buscar as crianças ou ao supermercado comprar leite para o dia seguinte, o facto de a empregada não ter lavado e engomado no mesmo dia (de chuva torrencial) aquela camisa branca, igual a todas as outras, que ele decidira (in pectore), usar no dia seguinte.

A princípio optara por ignorar. Não fora fácil, mas desenvolvera um excelente auto-domínio. Só que tanto para ele, como para as crianças, que assistiam às cenas – como impedi-lo? – isso equivalia a submissão. Passou a ripostar. A agressividade subiu de tom. Aos primeiros encontrões arranjou forças para o que há muito sabia ter de fazer. Nos meses seguintes, a violência continuou, sob todas as formas pelas quais ele sabia poder atingi-la, mostrar-lhe que ela estava ainda ao seu alcance. Mas não era a mesma coisa. Já não dormia com o inimigo. Já não partilhava com ele a intimidade. A casa de banho cor-de-rosa. O medo, a humilhação, o embaraço haviam dado lugar a um delicioso, desmedido e libertador alívio.   

Abriu de novo os olhos. Só para mirar, mais uma vez, o lavatório, o pequeno armário por baixo, o espelho já completamente embaciado. De branco, afinal. O vazio, onde antes estava ele. Um perfeito vazio. Imenso e luminoso. Sorriu e estendeu o pé na direcção da misturadora: será que consigo pôr um bocadinho mais de água quente?   

Le coeur n´a qu´une seule bouche

Não revi Alphaville. Bem, não hoje –  e quem raio quer viver em Alphaville? Morrer. Já morreu em Alpahville, um bocadinho? Bem, não hoje. E a culpa é de Truffaut. Não, não me enganei. Há muitos anos, nem sei quantos, sei no entanto que tudo cheirava a novo na sala, até o escuro era novo e o ar condicionado limpo, fui ver Alphaville. Não sei se era nova, a sala, cheirava, pelo menos, a de novo. Sempre troquei datas e acontecimentos, tinha-me enganado, portanto, não muito, porém, era Jules et Jim, no Fórum Picoas, num ciclo de cinema ao abrigo da Nouvelle Vague. Ó diabo. Tão velha estava a Nouvelle e  não sabia de nada dela — ainda não sei. Na altura tinha alegrias à hora certa, solitárias como os vícios. Outra: Gulbenkian. Os vidros rasgavam a sala de alto a baixo e fora era dentro: sempre fui feliz disso, e ainda. Respiro fundo. Descanso. Jardins. Ruas. Instituições no centro do mundo que nos aliviam do peso ignorância: museus, cinemas, teatros, galerias e livrarias. Bibliotecas. Já disse jardins, mais ou menos botânicos, ruas? Antiquários, passeios, esplanadas. Mais que tudo livros, textos e conversas. Conversas com os livros e os textos também. Música. Habituei-me cedo e bem a ir sozinha, sem interrupções que não fossem as minhas, sem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. É horrível, não é, dizer isto assim? Da primeira vez que vi a menina Bailarina de Degas, depois de a circundar dentro do caixão de vidro, eu ponteiros de relógio, tive de me sentar a vê-la. Foi na Tate. Sentei-me no banco, daqueles bancos o mais ao lado, de onde via quase tudo, menos o outro lado. Quem quereria ficar lá comigo, sabe Deus quanto tempo foi o tempo que fiquei, só a pasmar, sem um único pensamento? De vez em quando dou por mim, não a rememorar, a ver, de facto, o peso perfeitamente distribuído para aquela posição. Sem interrupções, nem enervantes toques rápidos e repetidos no braço, sem vozes a comerem-me a paciência. Se voltar a ter um amor, logo logo vou-lhe perguntar: você adormece? Eu  queria. A ver filmes no sofá, no ballet, em conferências. Em tudo o que lhe desse seca e a mim gosto, ou mesmo que lhe desse gosto, queria um amor que adormecesse. Ao meu lado, claro, muito diferente de cada um para seu lado. Também não precisa de ter um ouvidinho de tuberculoso. Há qualquer coisa sexy num homem que ouve ligeiramente mal. E que adormece. Tudo está bem quando um homem adormece. Até o malinho que apetece fazer-lhe. Não vale a pena voltarmos ao mesmo, já tinha ficado assente que eu era horrível. Isto para dizer que acabei de rever Jules e Jim. Tinha, no entanto, planeado ontem um texto sobre Paul Éluard dito pela Natacha. Duas vezes na mesma vida o mesmo desencontro-encontro. Gosto-os tanto – ao Éluard de Natacha e ao Jules e Jim. Só poderia gostar mais se um amor que fosse meu, eu dele, ressonasse agora, ao de leve, o genérico.

As mulheres, os homens #2

A adorável princesa da Sardenha, que tanto veneramos, veio explicar em francês que as mulheres são diferentes dos homens por quererem tudo. Tout. O que, claro, a qualquer homem parece logo rien du tout. Traduzindo, e nem é preciso ser para esperanto, os homens querem ontologicamente a mesma coisa: só que para os homens qualquer coisa, a mais pequenina coisa, é já tudo. O homem é holográfico: basta-lhe a fina abertura do decote e fica logo na veemente excitação de quem já viu a eternidade – um nimbado mamilo e valha-nos Deus e os sonhos de toda a corte celestial!
Mas querem os dois, masculinos e femininos, a mesma coisa – os homens a mais pequena partícula, que acarinham como se fosse tudo, porque é tudo; as mulheres querem tudo com medo que o tudo seja menos do que a soma das mais pequeninas partes.
Vamos lá ser pedagógicos e ouvir cada um — uma mulher, um homem – pedir a mesma coisa. Vão ouvir que cada um, pedindo o mesmo, pede coisas diferentes.

Ladies first, claro, com mil perdões pelo execrável visual do vídeo – não vejam, ouçam só:

Ouviram? Claro que é lindo. Mas perceberam o artifício, a pose, o subtil prazer de tirar mais dor da contemplação da dor do que da própria dor? Ouçam lá agora um homem a querer a mesma coisa:

Claro que já viram a diferença. Até lhe custa começar, de tão fundo vem a voz. Rouca de emoção pela coisa que se quer. Nenhum cuidado com a expressão, toda a atenção vai direitinha para o coração um bocadinho partido da silly girl – ó, a forma como o rapaz aconchega a silly girl entre a língua e o céu da boca!

 A canção foi composta por Tom Waits para um dos meus filmes de culto, o One From the Heart, de Francis Coppola. Infelizmente, não consegui encontrar o momento mais comovente do filme, quando o personagem do Frederic Forrest, que não sabe cantar, do que a namorada sempre se queixava, canta o “You’re my sunshine” no aeroporto para que ela, arrebatada por um cantor, pianista, bailarino (tudo!), não o deixe.

Pardon my french..

Bichezas puras e líricas.. pois sim, Manuel Fonseca. Não é para o amor que os homens pedalam desde os dias do triciclo, é para o muro! E este não cai que não é o de Berlim: sempre foi assim, sempre assim será. E porquê? Porque o homem, essa besta flor, separa o mundo em tulas e kittys, quer moedas de uma só face. Azarucho. Não há. As mulheres são de outra loiça, pedalam para outro lugar, querem o que querem. E o que é? Eu digo-lhe, não o deixo a perguntar-se do além como o tio Freud. Tudo. Não se assuste, porém, não vá provocar um estampido entre a sua espécie: o tudo das mulheres é feito de ces petits riens que me venaient de vous.

Ps: Manuel Fonseca, francamente, então passou-lhe pela cabeça que deixava, como deixou, neste lindo cemitério, o Christopher Walken a gritar pela Delilah e eu não ia ver isso tudo tudinho?

 

A outra infância # 4

Nos tempos homéricos, os gregos viajavam pelos líquidos caminhos: «todo o dia tinham desfraldadas as velas das naus, que corriam sobre o mar; em seguida o Sol punha-se e a sombra cobria todos os caminhos.» Assim chegou Ulisses ao fim da terra, ao curso profundo do Oceano, onde se situava o país dos Cimérios, coberto de nuvens e de brumas. Naquele lugar, que o Sol, com os seus raios, nunca aquece, estendendo sobre aqueles mortais uma noite maldita, haveria Ulisses de, por indicação de Circe, descer à mansão dos mortos e interrogar o velho Tirésias (Odisseia, Canto XI).
Ora, o que aqui me interessa nesta visão ainda brutal dos nossos heróicos gregos sobre o mundo e sobre nós é a distinção radical entre o dia e a noite, a alegria e a tristeza, a luz e a escuridão. Assim é a minha infância, tal como hoje me lembro dela.
Os mortos habitam, como diz Tirésias, uma região sem alegria, à qual não chega a luz do Sol. Aquiles, o herói Aquiles, agora morto, pálido, exangue, confessa a Ulisses preferir viver como um escravo de um qualquer homem sem importância nem património do que reinar sobre todos os mortos, que já nada são.
A alegria, com efeito, pertence ao mundo dos vivos, para o qual Ulisses quer regressar. Por isso, o nome do fruto que cresce ao sol, que os latinos hão-de chamar apricus, há-de, mais tarde, querer também dizer abrigo. Ter abrigo, com efeito, não é ter um telhado, mas ter acesso ao Sol. Assim, nas nossas cidades, o excluído não é o que não tem tecto, mas o que não tem acesso ao Sol, à luz, à alegria e à vida. É o que vive na sombra, esquecido da verdade do ser, pois que o seu sangue não é aquecido pelo Sol.
Assim é a saudade da minha infância. Lembro dentro de mim, criança, esta distinção radical entre a noite e o dia, a tristeza e a alegria, a morte e a vida; esta crença natural na luzidia verdade do ser que me rodeia e ao qual me entregava com o seu brilho reflectido nos meus olhos; esta vontade corajosa de viver rindo, sem medo de chorar – porque sempre chorando o medo… Outras coisas terei experimentado e sido e vivido. Só disto tenho saudades. A isto apenas regresso. Tudo o resto morreu, esquecido.

As mulheres, os homens

As mulheres. Falemos então de “as mulheres”. São seres alados, bem sei, mas o que nelas nos tortura é a dúvida. Negam. Bem podem os sentidos delas dizer o contrário. Negam na mesma. O beijo que lhes pomos na boca, os nossos dedos a apertar-lhes onde a carne é macia, soube-lhes melhor que framboesas. Negam. Podia insistir. Não insisto, Kate Winslet é que confessa. A cantar.

Os homens. Falemos então de “os homens”. Seres de coração puro, líricos. Seres sofridos, tanto faz que seja a cappela ou com orquestra e coro. A violência dos trabalhos, a áspera barba, o grosseiro fato de macaco: tudo fragilidades quando se arranha a superfície. Movem-se como ursos: bailarinos inconfessados e insuspeitos. Mesmo num triciclo onde pedalam a sua inocência é já para o amor que pedalam porque é muito só o homem sem amor. Mesmo ou se canta e dança como James Gandolfini.

 

Os extractos são do peculiar “Romances and Cigarettes” realizado por bizarro John Turturro.

GODARD! Odeio-te..

Há mil razões para odiar Godard. Se esta não vos for suficiente, a mim basta-me, recordem Rimbaud, o mínimo feminino de alteração obrigatória, je est une autre, na boca de Nana. Ou lembrem-se dela a dançar.



Encontrei a Eugénia na ma-schamba

A Ma-Schamba que é um belo de um blog com cambiantes índicos, elogiou a nossa Eugénia. Embora quem a boca da nossa Eugénia beija não beije, Deus lhes valha, a boca de todos os mortos deste cemitério, não quer a gerência deixar de sublinhar a merecida referência e pedir à Ma-Schamba que se sinta veementemente abraçada.

Um dois três, mate lá outra vez..

Reincide. Reincide sempre. E nós, reincido,  nós em ahs e ohs. Queremos mais: o Manuel S. Fonseca mata bem e, como em rima bebé, matou Bogart como ninguém: de cansaço, desilusão e, por ser carta fora do baralho, rosto fora do talho, peça que não se sabe pegar. Depois contou-nos dos olhos abertos de Louise Brooks e de como viram nele o que Hollywood acabou por lhe dar: numa prosa de sombras, a escuridão nossa de cada dia. E disse o como, o onde e por mão de quem. Depois calou-se e não nos disse mais nada. A culpa é do Bogart: porque não fez também filmes de capa e espada?! Um bilhete para a sessão da tarde, se faz favor.